Existe a praia da MPB. Tem também a do rock brasileiro. Los Hermanos escavaram uma enseada particular, misturando areia das duas sob frondosos coqueiros de papel crepom pop, banhada por um felliniano mar de plástico, como o de
E la nave va. A solidez das fundações confirmadas no novo CD, nomeado pelo numeral
4 (Sony/ BMG), demonstra que nem todo simulacro é desprezível. E uma terceira via - entre a xenofobia dos adeptos de uns e o xiitismo dos partidários de outros - pode ser viável. Los Hermanos Marcelo Camelo (voz, guitarra, baixo, autor da maioria das composições), Rodrigo Amarante (voz, guitarra, violão, baixo, autor das demais), Bruno Medina (teclados, sintetizador, piano) e Rodrigo Barba (bateria) conferem ao pop o status de arte refinada.
A grudenta Anna Julia, que projetou a banda para o megaestrelato, em 1999 (e acabou gravada pelo beatle George Harrison), não passou de um (feliz?) acidente de percurso, nunca reproduzido. Nenhuma das 12 faixas de 4 almeja igual combustão instantânea. É preciso ouvir e reouvir cada uma delas para apreciar a lapidação dos arranjos conjugados ao vocal quase sempre desamparado e sombrio.
A névoa existencial de 4, invés de encobri-lo, enriquece o enredo. ''Por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais?/ dá-me luz, Deus do tempo/ neste momento menor'', clama Horizonte distante. É um rock marchado, emoldurado por um solene naipe de sopros formado por trombones (Vittor Santos, Aldivas Ayres), sax barítono (Carlos Malta) e trompa (Ismael de Oliveira). Também no compasso andante do rock, O vento flexiona: ''Não te dizer o que penso/ já é pensar em dizer (...) o esforço para lembrar/ é a vontade de esquecer''. E decanta: ''assistir à onda bater/ mas o estrago que faz/ a vida é curta pra ver''. O CD está repleto desses pequenos jogos filo-poéticos, depuradamente despojados.
O revezamento vocal de Camelo e Amarante calibra as oscilações entre o intimismo pós-bossa (o primeiro lembra João Gilberto em Fez-se mar e Caetano, em Sapato novo) e um punch mais roqueiro (do segundo). Mas nem sempre os signos merecem tal leitura compartimentada, como na rumba (joão)donatiana Paquetá, de Amarante. Ou no supracitado Horizonte distante, de Camelo. Este, conduz a narrativa deprimida na girândola sonora de Dois barcos (''e se já não sinto os seus sinais/ pode ser da vida acostumar''), onde o grupo é acantonado por timbres esquivos de fagotes, trompas e clarinete.
Um endoidecido harmônio elétrico pincela os silêncios soturnos de Os pássaros (nada a ver com Hitchcock), cuja letra no encarte acopla as palavras numa leitura pós-concreta. Um vibrafone (de Jota Moraes) baila na atmosfera devastada de Sapato novo (''como se a alegria recolhesse a mão/ pra não me alcançar''). A exemplo da homônima de Chico Buarque e Tom Jobim, Pois é joga a pá de cal num amor desfeito. E a finalista É de lágrima sumariza tanto um fim de caso quanto um recomeço. Ou de como tirar leite desnatado das pedras rolantes. ''É de lágrima que faço o mar pra navegar/ vamo lá.'' Foram.