Nacionalista inveterado, o multiartista Rolando Boldrin comemora o sucesso de seu programa na TV, lança biografia, CD e farpas contra a música sertaneja contemporânea
Rolando Boldrin diz que seu programa
Sr. Brasil, que a TV Cultura de São Paulo (transmitida em outros estados por assinatura) exibe às terças-feiras e reprisa aos domingos, é absolutamente aberto a várias formas de expressão. Com uma única regra: ''que tudo seja genuinamente nacional''. Definição para deixar qualquer antropólogo de cabelos brancos. Mas os grisalhos de Boldrin, 68 anos, dedos calejados pelo tempo e pelas cordas de viola que toca desde menino, assumem uma ciência própria, um conhecimento apaixonado das coisas do país. Boldrin, paulista de São Joaquim da Barra criado em Guaíra, perto de Barretos, tem, digamos, um
causo de amor com o Brasil.
- Desde garotinho eu tenho uma obsessão, uma idéia fixa, pelas coisas do meu país. Não sei nem explicar - diz, por telefone, de seu escritório, em Granja Viana, no Centro de São Paulo, o homem que conheceu a arte popular no circo e que aprendeu a tocar viola com violeiros, na rua.
Pois o contador de causos - nome dado pela cultura caipira a histórias incríveis narradas oralmente, que viraram marca registrada de Boldrin - já viveu tantos, com tantos papéis, que não impressiona que, neste momento, o relacionamento entre ele e o país esteja rendendo uma prole numerosa. Ele estreou no começo do mês a quinta versão do programa que chama de seu ''projeto de vida'': o Sr. Brasil já foi Som Brasil, na Globo, quando surgiu, em 1981 (e foi com ele até 1983, seguindo depois com Lima Duarte); foi Empório brasileiro, na Band, em 1984; resvalou para o SBT como Empório Brasil, em 1989; e foi à TV Gazeta como Estação Brasil, em 1997.
Em todos fez um painel da música e das artes do interior do país, ajudando a revelar para o Sudeste (e a reafirmar para ''este Brasilzão de meu Deus'') nomes hoje celebrados, como a dupla recifense Castanha e Caju ou o igualmente pernambucano Antônio Nóbrega. E, ao mesmo tempo, recuperando figuras históricas, como a dupla Tonico e Tinoco ou o violeiro Ranchinho, que, no primeiro programa, recriava com Boldrin a dupla formada com o saudoso Alvarenga.
Ao mesmo tempo, Boldrin está lançando o CD que leva o seu nome e o de Renato Teixeira, outro medalhão da música caipira. E, como que coroando a carreira, acaba de ser lançado o livro Rolando Boldrin, escrito pela jornalista Ieda de Abreu para a coleção Aplauso, da Imprensa Oficial de São Paulo. Esses papéis, que se somam em sua carreira a 25 novelas, mais de 20 peças, dois filmes e algumas incursões curiosas, como uma premiada carreira de publicitário e dois livros publicados, deram a Boldrin a credencial como uma espécie de Ariano Suassuna ou Câmara Cascudo da cultura caipira, ou seja, um catalogador/descobridor. Boldrin não é caipira. Nasceu no interior, mas é um artista letrado. É um ator que se veste de chapéu de palha. É um metacaipira.
- Nunca morei na roça, embora eu seja do interior. O que sou é um apaixonado pelas coisas da minha terra. Fui assimilando tanta informação ligada à minha pátria que, quando me dei conta, eu só falava dela.
Por isso mesmo, ele assume uma radicalidade que o emparceira a Suassuna, o criador do Movimento Armorial, que teve o sonho de, inspirado na música do sertão, criar uma música erudita 100% nacional. A reação de Boldrin à novíssima música ''sertaneja'' (as aspas são dele) é radical e enérgica:
- Sou radical ao afirmar que essa música que hoje chamam de sertaneja não é brasileira. O Brasil para mim é outra coisa. Não tenho ojeriza por música estrangeira. Adoro música americana, francesa, italiana. Mas gosto de música country americana cantada por americanos. O que não gosto é que artista brasileiro use música americana para vender gato por lebre, fingindo que essa música é a nossa cultura, como muitos artistas fazem com uma certa música romântica que tem sido apresentada como ''sertaneja''.
Ele faz a oposição:
- O que chamo de música caipira é a música em sua pureza, sua singeleza, uma música da raiz do Brasil.
E explica o projeto de prospecção que rendeu seus programas de TV:
- Quando comecei, queria mostrar um conceito de música brasileira diferente do dos grandes divulgadores e estudiosos. Naquele momento, só se via o samba como música brasileira. Mas havia a música gaúcha, a mato-grossense, a mineira, a goiana, universos inteiros a serem descobertos.
E ele descobriu e ainda descobre. Por semana, ouve centenas de discos de novos grupos, todos os que recebe. Tudo isso guiado, segundo ele, por uma unidade:
- Sou ator, mas um ator que toca e vive vários personagens. Mas o principal é fazer uma arte original. Tudo o que faço é para fazer uma arte absolutamente nacional, nossa. A idéia de ''nosso'' é uma das mais importantes que um povo pode ter.