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Acima de tudo, um aventureiro
João Bernardo Caldeira
[05/JUL/2005]
O francês Pierre Barouh tem 71 anos, é cineasta, compositor, cantor, organizador de festivais de música e dono da gravadora Saravah, por onde lançou cerca de 400 discos de diversos artistas nos últimos 40 anos. Mas nenhuma dessas atividades o definem exatamente, pois Pierre é acima de tudo um aventureiro. Seu currículo de serviços prestados à música brasileira é extenso. Amigo de Baden Powell e Vinicius de Moraes, autores de Samba da bênção, Pierre Barouh verteu a canção para o francês (rebatizada de Samba saravah) e a transformou num sucesso mundial em sua voz. Produziu ainda um disco do músico Naná Vasconcelos e compôs músicas com o compositor Sivuca, o primeiro a ensinar-lhe o valor da música verde-e-amarela.
Em 1969, Pierre tinha apenas três dias de equipamento para rodar Saravah, o histórico documentário lançado agora em DVD. Bem no espírito sessentista, não havia roteiro, pois sua principal preocupação era criar uma atmosfera intimista e espontânea. Por isso levou Paulinho da Viola e Maria Bethânia para Itaipu, em Niterói, onde conseguiu criar uma clima de cumplicidade e descontração, o que também foi alcançado na casa de Pixinguinha, que interagiu com Baden e João da Baiana. Já se passaram 36 anos, mas a paixão de Pierre por música, brasileira ou não, e os encontros permitidos por ela, ainda é latente em suas palavras.
- Quando se interessou por música brasileira?
- Através de Sivuca, em 1959, quando o conheci em Lisboa e ele me mostrou algumas coisas. Quando ouvi pela primeira vez Jobim e João Gilberto, fiquei apaixonado. É tão rico... não só música, mas também letra. Chico Buarque para mim é um poeta imenso.
- Como você virou amigo de Baden e Vinicius?
- Também em 1959, num restaurante, cantei A noite do meu bem, de Dolores Duran, a primeira música para a qual eu fiz letra em francês. Eu tinha todas as canções brasileiras de cabeça. Havia uma família brasileira na mesa ao lado que perguntou: ''Como você conhece essa canção?''. Me chamaram para um encontro na casa de amigos e lá estavam Baden e Vinicius, que ficou louco com a minha letra para a canção da Dolores. Elis Regina chegou a gravar essa versão mais tarde.
- Qual era a sua idéia para Saravah quando chegou no Brasil?
- Nenhuma. Era: vamos ver... mas eu pensava que teria tempo, só que tive apenas três dias, porque o equipamento não estaria mais disponível. Foi então um improviso.
- Por que o filme começa com uma cena de carnaval, se esse não é o tema?
- Botei isso como um clichê do Brasil. Depois disso, corta para a rua do Pixinguinha, como se então estivéssemos entrando verdadeiramente dentro da cultura do país.
- Você estava preocupado em verificar a origem africana do samba?
- Sim, por isso a importância de João da Baiana. Muita gente acha que música brasileira é só bossa nova e não sabe de toda a mistura entre África, índios e a parte intelectual, que gerou uma riqueza incrível. Tenho uma enorme fascinação por isso.
- E como correu a filmagem?
- Foi formidável. Eu não era experiente, mas minha idéia era que a gente esquecesse a câmera para que parecesse natural. Tudo é conseqüência da atitude que você tem com as pessoas. Bethânia e Paulinho da Viola eram de escolas diferentes e eu queria provocar uma cumplicidade natural entre eles. Por isso os levei para Itaipu: para criar uma outra atmosfera.
- Como escolheu os artistas?
- Nesse tempo, Caetano estava na Inglaterra e Chico Buarque na Itália, ambos no exílio. Vinicius estava em Paris e Tom também tinha viajado. Caso contrário, todos teriam entrado no filme.
- Entrou também a Clemetina de Jesus...
- Nem me fale que me dá tristeza! Tinha uma seqüência inteira onde ela cantava com Baden, mas sumiu quando voltei para Paris!
- Por que o filme está sendo lançado agora?
- Foi exibido uma vez na TV francesa, na época, e depois foi esquecido. Há três anos, os japoneses lançaram Saravah, colocando novamente luz nesse documento. Recentemente, ele saiu na França e agora a Biscoito Fino também se interessou, 36 anos depois.
- Os extras do DVD contam a história do compositor Adão, filmada em 1996. Há alguma ligação com Saravah?
- Para mim é a mesma história, porque Adão prolonga a descrição feita por João da Baiana sobre as origens africanas. Sozinho, na favela, Adão fez 600 canções. É mais um encontro, e a vida é a arte de encontros. Não sou especialista em música brasileira, sou um curioso, um apaixonado. Tenho a emoção e a vontade de comunicar e gosto de provocar encontros.
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