Finalmente um livro síntese, informativo e ágil sobre a produção de escritos para crianças.
A literatura infantil brasileira, de Regina Zilberman, mais que alinhavar um formidável número de obras e remoçar percepções, sugere caminhos para um tema que raras vezes escapa das salas de aulas e dos debates pedagógicos. Não que inexistam tentativas anteriores, mas nenhuma com o alcance deste que é o quarto volume da série
Como e porque que ler, da editora Objetiva. Avanço em temas antes limitados, como racismo e feminismo; articulação de obras nacionais que dialogam com a produção universal; e inscrição em contextos históricos, principalmente sob o manto da ditadura militar, dão consistência a argumentos que, certamente, marcarão um antes e depois no juízo da consideração de livros infantis. Mas na sagacidade das propostas reside grande vulnerabilidade. Paradoxalmente, contudo, os pontos falhos deste trabalho guardam sementes que clamam por aprofundamentos.
Especialista na produção e na recepção da literatura na sociedade brasileira, a autora ousa nas escolhas e não se intimida frente a adjetivos como ótimo, excelente, modelar - o que é uma marca da série em que o livro se inclui. E despreza, sem citar, os livros de que não gosta. Mas o maior rasgo reside na definição de obras ''revolucionárias''. Logicamente, Monteiro Lobato - aceito sem contradições - é exaltado como fundamental. Assim, aspectos que seriam criticáveis na obra do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo ganham justificações, como é o caso de Dona Benta, evocada como contabilista, moderna e hábil administradora que ''não por acaso tem o nome do próprio escritor, José Bento'' (p. 28). Também questões afeitas ao nítido racismo lobateano e à visão negativa do caipira são amainadas em favor de sua óbvia genialidade e influência sobre as demais gerações. Outros momentos de corte são assinalados em Ana Maria Machado, Joel Rufino dos Santos, Lygia Bojunga.
O período anterior à presença de Lobato é indicado como imitativo da produção européia e, em termos de brasilidade, no máximo aproximado das funções didáticas e nacionalistas marcadas principalmente por Bilac. Situando o advento da República como fase determinante para a renovação do modo brasileiro de progresso, Zilberman revela-se seguidora de percepções criticáveis que identificariam no sistema monárquico as razões dos atrasos e atavismos da cultura formal brasileira.
Ainda que à sombra de Lobato, outros autores são evocados como recurso conveniente para a discussão de algumas das principais teses sutilmente diluídas ao longo das 180 páginas. Viriato Correia, Maria José Dupré e Vovô Felício são celebrados sem, contudo, deixar ver suas influências em gerações futuras. E assim, de forma evolutiva, em 15 capítulos equilibrados, Zilberman vai revelando a que veio, mostrando a relação íntima entre os textos para crianças e os sistemas políticos, a estratégia do prestígio de autores consagrados no universo da produção adulta e a emersão da mulher como tipo dominante de escritora para crianças.
Em termos de política, sugere subversões interessantes. Por ser o território da literatura infantil um espaço menos visado pela censura, permite repontar críticas que não seriam viáveis em textos para adultos. Ruth Rocha, Eliardo França, Cora Ronai são evocados como construtores de um tipo de pensamento que agrega confiança na capacidade crítica dos leitores mirins e assim se projetam como artífices ideológicos dessa faixa etária. Sobretudo Joel Rufino dos Santos surge como o mais evidente autor dessa linhagem, inscrevendo questões de racismo nos livros para crianças.
A presença de escritores consagrados que também produziram para crianças é tema bastante sedutor, pois revela manifestações pouco vistas em conjunto. Graciliano, aliás, mereceu especial cuidado, ainda que não ficassem de fora Érico Verissimo, Marina Colasanti, Clarice Lispector, Marcos Rey. Assinalar este elenco, por sua vez, permite contraste com escritores especialistas como Eliane Ganem, Edy Lima, Mirna Pinsky. Mas este mercado, crescentemente, tem sido dominado por mulheres que parecem merecer especial atenção da autora, que insiste na emersão do papel feminino nas histórias. Aliás, a questão de gênero também é bastante notada, bem como questões da nova família, onde são discutidos temas como divórcio e separação.
O livro de Zilbernam não esquece o teatro nem a música e arrisca projeções sobre o futuro. Ao mostrar os best sellers, caracteriza um mercado em que a mercadoria livro infantil é capaz de matizar celebridades como Ziraldo. Mas cobra cortes conceituais que poderiam ajudar os leitores. Alguns binômios poderiam estar melhor definidos para esclarecimentos convenientes: infantil/ juvenil; educacional/ entretenimento; cultural/ político. Na mesma ordem de reclamações, ausências - algumas muito sérias - merecem nota: Lya Luft, Luis Fernando Veríssimo e Marisa Lajolo. De outra forma, pergunta-se, seria possível falar da moderna literatura infantil brasileira sem estes autores?
O campo de debate, contudo está mais aberto e prometedor. Hoje mais do que nunca a literatura infantil brasileira é reconhecida e mostra-se um desafio que extrapola os limites escolares, das famílias, da crítica. Com ou sem livros que considerem sua realidade, a literatura para crianças é um fato irreversível. Melhor será, no entanto, se for inscrito em processos críticos inteligentes como pretendeu Regina Zilberman. (José Carlos Sebe Bom Meihy)