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Influência do cenário brasileiro

Novo livro do irlandês Eoin Colfer trata de adolescente sem pai que vive em orfanatos ou nas ruas mundo afora

Alexandre Werneck

Da conversa com o escritor irlandês Eoin Colfer não parece exagero concluir que seu mais novo livro, Colin Cosmo e os supernaturalistas (Record), ficção científica juvenil cheia de fantasia passada em um futuro não muito distante, mas bem mais apocalíptico, tem como cenário o Brasil.

- Minha visita ao país me afetou profundamente. É um lugar lindo, mas também problemático - diz ele, por e-mail, conectado wireless em seu notebook no meio de sua atual book tour pela Europa.

Colfer, irlandês de 40 anos nascido em Wexford, metrópole industrial do Sul do país, esteve no Brasil em 2002, promovendo sua obra mais conhecida, os livros da série Artemis Fowl, e ficou um bocado chocado com a situação das crianças no Rio e em São Paulo:

- Tanta riqueza, tão perto de tanta pobreza, é algo que nunca tinha visto. Minha visita definitivamente contribuiu para a descrição sombria de futuro que faço no livro.

Colin Cosmo é um adolescente sem pais, que vive em uma espécie de orfanato no mundo do futuro. Nele, crianças não têm moleza (como em orfanatos ou nas ruas brasileiras ou indianas do presente, é verdade, mas numa versão, digamos, over): ele e seus coleguinhas trabalham como escravos, são usados como cobaias para experiências com medicamentos e vivem sob o fantasma de uma expectativa de vida média de 15 anos. Com 14, o menino sente que tem que fazer alguma coisa e toma as rédeas da história.

- Na maior parte dos meus livros as crianças são razoavelmente felizes. Mas Cosmo sofre como várias crianças em várias partes do mundo. Isso tornou muito natural, para mim, mostrar crianças assim.

O moleque invocado Colin, então, parece ser feito do mesmo material que a grande estrela de Colfer. A história dele já ficou conhecida: em 2001, o mundo das aventuras infantis vivia sob jugo de uma tirania, a do mauricinho Harry Potter, dos livros da britânica J.K. Rowling, que dominava tudo com correção política e nobreza de espírito. Naquele momento, um novo herói veio mostrar que a criança era muito mais complexa do que a magia do menino bruxo podia mostrar. Era Artemis Fowl, cria de Colfer. Dizer ''herói'', claro, é um exagero, como sabe qualquer um que tenha lido uma das suas três aventuras lançadas no Brasil até agora, pela Record. O título do primeiro fala por si: Artemis Fowl - Menino prodígio do crime (lançado aqui no mesmo ano. Depois vieram Uma aventura no Ártico, em 2002, e O código eterno, de 2003. Pois é, o anti-herói trombadinha de Colfer é barra-pesada. Colin fica atrás, mas não muito.

- Alguns de meus personagens são certamente ambíguos moralmente. Mas não acho que Artemis e Colin sejam amorais. Eles estão desenvolvendo seu próprio código moral. No começo, Artemis acredita que tem que ser um criminoso egoísta, mas ao longo do tempo ele entende que tem uma consciência e começa a mudar. Acho que é bom para as crianças verem personagens imperfeitos, que cometem erros, mas que no final tomam as decisões certas. Já no caso de Colin, ele é só um menino perdido tentando sobreviver.

Filho de um professor primário e de uma dona-de-casa, Colfer é o segundo de cinco irmãos. Parece aquela típica família grande irlandesa que se acostumou a se ver em filmes. Ele diz que a profissão do pai influenciou sua visão sobre a infância. Ao mesmo tempo, entretanto, foge um pouco da comparação com Charles Dickens, cujo Oliver Twist parece estar na raiz de qualquer história de meninos sofredores em orfanatos.

- Tento não seguir modelos estabelecidos em trabalhos pregressos. Mais que isso, tento fugir da tradição.

Mas pelo menos um pouco de memória de casa, do carro lotado com que ia com toda a família (isso mesmo, dois adultos e cinco crianças) pescar em Slade, a alguns quilômetros de sua cidade natal, ele confessa deixar aparecer em seus livros.

- Artemis e Cosmo não são parte de grandes famílias, mas gostariam de ser.

Talvez principalmente por um detalhe: o traço mais interessante dos excelentes romances juvenis de Colfer é o fato de que ele praticamente criou um universo que prescinde dos adultos. Eles estão lá, até se relacionam com a garotada, mas as ações e o controle da história estão nas mãos da infância e da energia da adolescência.

- Para os propósitos de minhas aventuras, as crianças têm que ter alguma independência. Em Colin Cosmo, por exemplo, a figura paterna é ocupada por um adolescente. Claro, você não pode usar a figura do órfão muitas vezes. Então, em outros livros, os pais desempenham um papel importante. Mas tento mostrar que as crianças pensam, são espertas, são gente.

Neste momento, Colfer está lançando lá fora - como se viu, ele está em book tour - a nova aventura de Artemis Fowl, The Opal deception (que deve virar algo como A decepção de Opal), em que a arquiinimiga (sim, com 'a', uma bandida) do menino-prodígio do crime, presa na aventura anterior, está de volta. E com um detalhe: clonada.

- A clonagem é um tema central hoje em dia e eu achei que usá-la seria uma maneira de atrair as crianças para o desenvolvimento da ciência real.

É onde aparece a parcela educadora de Colfer, que também se formou e trabalhou como professor primário. Segundo ele, a opção por ambientar a série de seu menino delinqüente em um mundo cheio de truques tecnológicos e de levar sua história de órfãos para o futuro tem a ver com criar interesse pela ciência:

- A garotada sempre se interessou por sci-fi e fantasia. Quando criança eu era fanático por isso. Mas esses temas são certamente mais populares agora do que jamais foram. Eu gostaria que isso conduzisse a um interesse em ciência e tecnologia reais. Um bocado da ciência que uso em minha história é real ou está em desenvolvimento.

Colfer torce o nariz (virtualmente, claro) quando se faz uma comparação entre seus personagens e Harry Potter. Cansou-se um pouco dela. Limita-se a dizer que eles são diferentes, quando é solicitada a versão dele da comparação. Mas em um traço confessa esperar alguma comparação com Potter: no sucesso do filme que está sendo feito com Artemis. Dirigido por Lawrence Guterman (o mesmo de O filho do Máscara) e produzido por Robert De Niro, o filme está em fase de pré-produção e ainda não tem elenco. Era para ser feito este ano, mas foi postergado (por conta do orçamento em euro, que subiu muito diante do dólar) e deve chegar daqui a dois anos aos cinemas:

- Deus, está sendo um processo lento!


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[30/MAI/2005]


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