Gilberto Chateaubriand faz 80 anos e recebe homenagens dos artistas que promoveu em meio século como colecionador
O que há em comum entre a marinha
Paisagem de Itapoã , pintada por Pancetti em 1953, e a escultura que mostra dois burros em madeira carregando livros de arte, feita este ano por Jorge Duarte? Ou ainda, o que aproxima a fotografia da gaúcha Denise Gadelha, o desenho do paraesense Marinaldo Santos, a pintura do mineiro André Burian, a escultura do cearense Eduardo Frota e o vídeo do pernambucano Paulo Meira? O elo que os une é um ilustre cidadão carioca que vende laranjas plantadas na fazenda de Porto Ferreira, interior paulista, para comprar obras de arte pelo Brasil afora: o colecionador Gilberto Chateaubriand. Esta semana ele está sendo festejado por artistas e instituições no circuito Rio-São Paulo, pelos 80 anos que completa hoje - cheio de vigor e disposição, diga-se.
As comemorações começaram ontem, com um coquetel no Parque Lage, prosseguem hoje em outra festa no Museu de Arte Moderna, no Rio, e se estendem até o MAM de São Paulo, onde Gilberto será homenageado pela presidente da casa, Milú Vilella. A data é mesmo digna de fanfarras e foguetórios. Afinal, o aniversariante é o grande mecenas (ou como ele prefere ''ajudante de mecenas'') da arte brasileira. Constituiu a mais abrangente coleção de arte do país, que já beira as 7 mil peças em diferentes meios e linguagens, desde que ganhou de Pancetti a citada marinha - que representa sua moeda número 1 do Tio Patinhas. Até chegar à escultura de Jorge Duarte (a mais recente obra a integrar a coleção), traçou a história da arte brasileira de meados do século 20 ao início do 21. A rica coleção Gilberto Chateaubriand, cedida em regime de comodato ao MAM-Rio, há 12 anos, abriga peças de nomes consagrados como Tarsila do Amaral. A modernista está representada pela tela Urutu, que pode ser comparada ao Abapuru, um ícone brasileiro comprado, sob protestos dos admiradores, pelo empresário argentino Eduardo Constantini por U$ 5 milhões. Além dos consagrados, o coleção reúne obras de artistas, ainda anônimos nas grandes capitais, adquiridas em périplos por ateliês e galerias de diferentes regiões do país. Para tanto, Gilberto obedece a um critério: o olho treinado para reconhecer um bom artista.
Amigo pessoal de longa data e ex-curador da coleção de Chateaubriand, o diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Reynaldo Roels conta que ninguém dá pitaco nas aquisições. Mas Gilberto aceita sugestões quando lhe apontam alguma falha no conjunto das obras.
- Preferências? Em primeiro lugar, pelos amigos - diverte-se Reynaldo.
Ele conta que já viu o colecionador fazer compras redundantes para ajudar artistas doentes ou precisando de ajuda.
- Nos anos 70 muitos sobreviveram graças às aquisições dele, como o Cildo Meireles, o Arthur Barrio, o Waltercio Caldas. Todos bons artistas - nomeia.
Segundo ainda Reynaldo, quando encontra um trabalho que só poderia ter sido feito no Brasil, Gilberto logo se apega.
- Em segundo lugar, ele prefere aquilo que tenha caracteristicas específicas da arte local. Não podemos nos esquecer de que Gilberto foi educado sob a égide do modernismo.
Da mesma forma que o colecionador prestigia os bons artistas, os bons artistas reconhecem o papel fundamental que ele exerce na produção do país há cinco décadas.
- O que seria da arte brasileira se não fosse Gilberto Chateaubriand?