Mas o livro, claro, não conta apenas os casos de sucesso da W/Brasil, como seus 902 prêmios - cujas cópias ficam comprimidas em um totem de vidro apelidado de ''lixeira'' na recepção da agência - ou campanhas antológicas como a do slogan ''O primeiro sutiã a gente não esquece'' ou a de personagens como Carlos Moreno, o garoto-propaganda da Bombril, ou das várias versões do Casal Unibanco. Há também erros de cálculo e algumas trapaças (que merecem ser vistas no livro mais do que antecipadas aqui), o que, claro, não deixou Olivetto feliz na primeira leitura:
- O livro tem de 70% a 80% dos meus erros e só 30% dos meus acertos. Há inclusive versões de pessoas que não são tão verdadeiras quanto as minhas. Mas tenho a consciência de que meu incômodo é oriundo de eu superestimar minha capacidade de falar e de subestimar a capacidade de o Fernando escrever - diz Olivetto, que se entusiasma nos elogios ao texto do amigo Fernando Morais.
O escritor, por sua vez, diz que perseguiu a isenção:
- Não é um livro chapa-branca. Há os problemas, as trocas de insultos entre empresários. Até porque são três personagens de histórias pessoais muito marcantes: o Ciuret, que de pedreiro vira dono da Gelato [a fábrica de sorvetes]; o Zellsmeister, filho e neto de judeus vítimas de campos de concentração e com infância complicada; e o próprio Olivetto, que teve paralisia infantil. Isso ajudou muito a fazer um livro sobre pessoas e não sobre publicitários bem-sucedidos.
O contrato com a Planeta prevê um segundo livro. Morais propôs Hugo Chavez e começou a fazê-lo, mas ao se encontrar com o presidente da Venezuela soube dele próprio que o também jornalista Bob Fernandes está fazendo um.
Propôs, então, o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, João Pedro Stédile. A editora achou cedo para transformá-lo em livro. A alternativa de trabalhar com o MST em vez de com seu líder não agradou a Morais:
- Não sei se é por cacoete ou por achar melhor o resultado, mas ter uma pessoa que dê cara à história ajuda muito.
A cara sugerida pela Planeta foi a do escritor Paulo Coelho. Sujeito e objeto aceitaram a empreitada e Morais se encontra com Coelho em três semanas na Hungria. De lá vão ao Cairo, no Egito (para o lançamento de O Zahir, novo romance de Coelho, publicado aqui na semana passada) e, depois, sentam-se para conversar em Tarbes, nos Pirineus franceses, onde o mago tem casa. A idéia é que o livro esteja pronto no ano que vem.
- Um personagem que vende 80 milhões de livros é uma curiosidade para qualquer um. Para mim é, pelo menos - defende Morais, que diz já ter lido alguns trabalhos de Coelho e que O Zahir é seu melhor.
Enquanto isso, o projeto já de oito anos da biografia do senador baiano Antônio Carlos Magalhães continua, sem data para acabar:
- O problema é que ele produz um capítulo novo a cada semestre. Estou esperando que ele pare de gerar episódios. Não estou esperando ele morrer, como ele próprio já declarou. Estou aguardando a aposentadoria. Não posso fazer um livro datado, quero fazer a biografia completa.
Acostumado a desafios grandes como esse, Morais acostumou-se a algumas derrotas, como a das eleições para o governo de São Paulo (pelo PMDB, em 2002, quando renunciou à candidatura ao se desentender com o ex-governador Orestes Quércia) ou por uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (que perdeu em 2003, para o ex-vice-presidente Marco Maciel, na sucessão de Roberto Marinho). Para ele, males que vieram para bem:
- Eu não ter conseguido chegar ao governo foi até bom, porque foi uma razão forte para pular fora. Meu negócio é escrever. Gosto de política, mas meu lugar agora é outro. Na eleição da ABL eu entrei para ganhar. Gostaria muito de ter sido eleito. Custou caro para mim. Passei 40 dias no Rio e você não pode ficar em hotel vagabundo porque tem que receber as pessoas importantes. E perdi. E perdi feio. Nem quem prometeu votar em mim votou.
Segundo ele, talvez pelo fato de ter experiência política, está com o couro grosso e não tenha ficado deprimido:
- Não tentei de novo e não sei se vou tentar. Minha decisão no dia foi não tentar mais, mas não sei. O que sei é que não me candidato mais a cargo político.