No megalançamento de seu novo romance, 'O Zahir', Paulo Coelho diz que quer ficar onde está
A cada lançamento de um livro do carioca Paulo Coelho, 58 anos, um enorme circo de mídia é montado. ''Maior vendedor de livros no mundo em 2003'' e ''autor brasileiro que mais vendeu livros na história'', como os textos de divulgação estão repetindo, Coelho é uma das poucas personalidades capazes de emplacar ao mesmo tempo as capas de
Veja,
Isto É e
Época, as três grandes revistas semanais brasileiras. Hoje, deve ser capa também de alguns cadernos de cultura nacionais, a julgar pelas nove entrevistas dadas ontem (esta entre elas) e das nove hoje (o Brasil é o único país para o qual ele está dando mais do que duas entrevistas, exigência dele).
Pois bem, Coelho está lançando (pela Rocco) O Zahir, seu décimo romance, em uma primeira edição sem precedentes na história mundial: de 320 mil exemplares. Só no Brasil! Espera-se que venda 1 milhão de livros por aqui, em várias edições. Ao todo, em 36 línguas em 60 países, a primeira edição, igualmente incomparável, é de 8 milhões de exemplares. Criticado por muitos, Paulo conseguiu até ser aceito entre os círculos mais sisudos da Academia Brasileira de Letras e entrar para a casa, em 2002. Talvez falte a ele apenas o Nobel de Literatura. É impossível não proclamar: Paulo Coelho está sentado no topo do mundo.
- No topo do mundo venta muito. Você tem que estar muito bem ancorado em suas crenças e valores para seguir naquilo que lhe dá prazer e entusiasmo - diz ele, por telefone, de seu refúgio no vilarejo de Saint-Martin, próximo a Tarbes, nos Pirineus franceses.
A metáfora cabe-lhe como uma luva. Não só porque símbolos como esse são sua marca. Mas sobretudo porque ele se acostumou a ficar de pé diante de vendavais. Da crítica, que em geral não o leva a sério, ou da história, que o cerca e sopra forte, obrigando-o a posturas, como a que gerou seu texto mais lido até hoje, a carta de repúdio Obrigado, presidente Bush, vista na internet por 450 milhões de pessoas logo depois da invasão do Iraque. Os ventos ajudam a escrever. Fazem-no olhar para o interior.
- Um escritor é feito de escrever livros. O que eu procurei foi não me deixar paralisar pelo sucesso. O que quero agora é justificar minha vida fazendo aquilo que me julgo talhado para, que é escrever.
Pois foi de olhar para o interior que nasceram livros como O alquimista, Brida, Verônika decide morrer e O Zahir (a palavra, árabe, significa algo como ''idéia fixa''). O livro é uma história-espelho do escritor: conta a saga de... um escritor brasileiro de grande vendagem, cuja carreira nasceu de uma peregrinação a Santiago de Compostela. Todos sabem que esta é a biografia do próprio autor.
- Eu precisava fazer uma reflexão sobre a minha própria carreira. Poderia fazer aos 80 anos, mas não queria fazer um livro de memórias e sim ver quem sou agora e como estou cumprindo minha missão.
Sua missão parece ser a de se construir como escritor.
- De me construir, me destruir e me reconstruir novamente - completa, metafórico.
Como em vários romances contemporâneos, em O Zahir Coelho recorre ao mito da mulher que desaparece e do homem que mergulha em uma viagem em busca dela e, ao mesmo tempo, dele mesmo. O autor justifica o recurso ao clichê como inevitável:
- Só existem quatro histórias, como dizia Jorge Luis Borges: o amor entre duas pessoas, o amor envolvendo três pessoas, a busca pelo poder e uma viagem. Todo livro é sobre um desses quatro temas. Uma vez perguntaram a Paul McCartney se ele poderia resumir a mensagem dos Beatles em uma frase. Pensei que a pergunta era totalmente absurda. E o Paul McCartney, para minha surpresa, disse que podia: ''All you need is love'' (título de uma das canções mais importantes do grupo). É claro que tinha que escrever sobre o amor também.