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Miele e Lan no Salão de Humor

Papo informal em noite descontraída entre craques do traço e da palavra na Laura Alvim

Ricky Goodwin

Rafael Andrade
Miele e Lan

Miele (à dir.), o entrevistador, e Lan, ‘o anarquista nato’: bate-papo e gargalhadas

Quem conhece o Lan como o homem das mulatas, o apaixonado pelo carnaval e o desenhista das cenas cariocas, quem conhece o Lan como o cavalheiro finíssimo e educado que é, não imagina que ali havia um fervoroso revolucionário disposto a largar tudo para se juntar à guerrilha de Fidel Castro em Sierra Maestra.

Em 1952, quando publicava caricaturas de atletas numa revista esportiva de Buenos Aires, foi procurado por um certo Ernesto Guevara, pedindo a publicação de nota sobre um rally de motociclismo. Através dos anos, foi estreitando o relacionamento com Che e seus ideais e planejou ir a Cuba juntar-se à revolução que tomaria o poder em 59. Mas ocorreu outro tipo de revolução em sua vida: conheceu a Olívia, uma das bailarinas Irmãs Marinho, com quem está casado há 44 anos.

Como define o próprio Lan:

- Minha vida sempre foi cherchez les femmes! E bota cherchez nisso!

Histórias saborosas como esta foram contadas no encontro de anteontem à noite entre o show-man Miele e o desenhista Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini, em mais uma atração do 16º Salão Carioca de Humor, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Lan estava à vontade e falou até de sua fase de chargista político - assunto que costuma evitar - lembrando os três anos que teve que passar longe do Brasil após publicar uma charge, em 64, em que um oficial militar se admirava no espelho. No lugar das quatro estrelas do generalato, o espelho refletia quatro bananas.

Aí Lan citou outra autodefinição:

- Sou um anarquista nato. Ultrapasso a esquerda. Todo camarada que botar a mão sobre minha cabeça é um usurpador. Hay gobierno, soy contra. Todos os governos são decepcionantes.

No clima informal do encontro, Miele foi um show à parte. Contou piadas de argentinos, imitou de Tom Jobim a Roberto Carlos e relembrou histórias do tempo em que ele e Lan eram companheiros do Beco das Garrafas. O papo contou com a participação de outros desenhistas: Chico Caruso revelou que a paixão de Lan pelas mulatas começou já na Itália, com sua ama-de-leite brasileira. Jaguar lembrou a aventura de Lan num bordel chileno, quando consultou o cardápio e arriscou pedir ''amor à inglesa'', para ser surpreendido no quarto por uma dominatriz armada de chicote.

Houve momentos políticos, momentos engraçados e também momentos de lirismo. Em fevereiro, Lan retornou a Buenos Aires, a propósito de uma exposição, e quis rever uma grande paixão de sua fase argentina, mulher belíssima que trabalhava como modelo vivo. Não quis, porém, macular suas memórias reencontrando-se agora com uma anciã, ou descobrindo que falecera. Lembrou-se que na época ela havia posado nua com seu corpo escultural para um monumento em determinada rua. Saiu então sozinho, no meio da noite, para encontrar a tal estátua e prestar uma homenagem silenciosa à antiga paixão.

Sobre o segredo de seu longo casamento com Olívia, Lan foi poético:

- Vou citar uma frase uruguaia: o que amas, deixa livre, pois se for teu, voltará a ti. Se não voltar, é porque não te pertencia.

E diante da pergunta inevitável - para quem acaba de completar 80 anos - sobre sua receita de longevidade, emendou de primeira:

- Alegria... Não me dou o direito de me queixar de coisa alguma. Na minha memória, as coisas amargas não existem. É importante também gostar do homem - e principalmente das mulheres!


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[17/MAR/2005]


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