Aos que lhe cobravam (e foram muitos) dedicação total à literatura dita séria, José Carlos Oliveira sempre respondia às gargalhadas: ''Eu sou Carlinhos Oliveira, a grande-promessa-não-cumprida. Meu grande romance está sendo escrito dia-a-dia no jornal''.
Pois é fácil, mesmo a quem não teve acesso às mais de 3.500 crônicas que ele deixou, concordar com a blague. Basta ler O homem na varanda do Antonio's - principalmente um texto como A volta de Carlinhos Oliveira, de forte teor confessional -, apesar de o volume ser uma antologia temática, cujo subtítulo é Crônicas da boemia carioca nos agitados anos 60/70.
É uma viagem àqueles tempos, às vezes alegre, outras triste, muitas patética. O começo é no bar Vermelhinho que, localizado em frente à Associação Brasileira de Imprensa, no Centro do Rio, era nos anos 50 o ''quartel-general do existencialismo verde-amarelo'', na definição do cronista. O texto é uma reportagem-crônica sobre o bar, em estilo que deixa nítida a influência que sempre deveu ao seu conterrâneo Rubem Braga.
Fala de freqüentadores famosos, como o próprio Rubem, Vinicius de Moraes, Danuza Leão, a atriz Ruth Rocha, e anônimos, como as garotas do Teatro Folclórico, que ''moram em Caxias, vivem sorrindo e algumas vezes se irritam'', o que aconteceu em relação ao repórter. O que Carlinhos teria lhes dito? Sabe-se que, neste departamento, ele não media palavras, tendo deixado inúmeras mocinhas vermelhas de vergonha ou de ira. Paquerava ostensivamente até mulheres de amigos e, desnecessário dizer, volta e meia levava uns tapas.
- Ele não era cafajeste. O que acontecia era que se apaixonava toda hora - lembra-se Wilson Figueiredo, ex-vice-presidente do Jornal do Brasil.
Figueiredo guarda do cronista mais o seu rastro do que sua presença no jornal. Ele passava por lá como um relâmpago. Chegava. Sentava-se. Escrevia. Ia embora.
- Sua cabeça estava sempre fora. Embora não tivesse muitos recursos nem para se vestir bem nem para sustentar a boemia, era na noite mesmo que ele funcionava.
Uma crônica tristemente atual é Rio, cidade atrasada, publicada neste Caderno B em 1º de julho de 1964. Depois de lamentar que uma festa na boate Black Horse tivesse sido encerrada pela polícia, Carlinhos escreve que as denúncias que motivaram a ação truculenta ''falavam em 'barulho que não deixa ninguém dormir' (o que é mentira) e menores 'tomando entorpecentes'. Ninguém pode esperar silêncio e quietude numa boate: todas as músicas da moda são atordoantes. Quanto aos entorpecentes, não vejo por que alguém iria procurar cocaína no Black Horse quando em qualquer esquina de Copacabana, a qualquer hora do dia, qualquer pessoa com algum dinheiro no bolso pode adquirir quantos gramas queira do pó que não faz espirrar. O tráfico de cocaína, atualmente, é de tal modo flagrante que seguramente há policiais tirando lucro com isso''. Em 1964!
Era intenção de Carlinhos - das muitas que ficaram só na intenção - escrever um livro sobre a vida noturna do Rio, um romance-painel do tipo que fazia o norte-americano John dos Passos, começando no já citado Vermelhinho e terminando em 1983. A ação passaria pelo bares Vilarino, Juca's, Amarelinho, na fase do Centro; e Lamas (Largo do Machado), Taberna da Glória, Sacha's, Fiorentina, Le Roind Point, Alcazar, Lucas, Jangadeiro, Veloso, Mau Cheiro, Degrau, Luna e Antonio's, entre outros da Zona Sul. Haja história de bar e haja porre. Ele não o fez, mas somente Carlinhos possuía cabedal para escrever um livro desses.
- Ele viveu o último período de prestígio social do uísque, sua bebida favorita, que depois deu lugar ao chope - diz Wilson Figueiredo.
O que ele não tinha era resistência física para viver tão desbragadamente: com 1,59m e 54 Kg (em época mais agudas da doença chegou a pesar 48 Kg), era, como atesta Jason Tércio, ''um ciclotímico em tempo integral que alternava estados de depressão e euforia, agressividade e fraternidade, ânsia de ser amado e medo do contato humano, momentos de paranóia e uma incapacidade quase absoluta de lidar com atividades práticas corriqueiras''.
Antes da doença, ele publicara apenas o romance Pavão desiludido, ignorado por crítica e público, e as coletâneas de crônicas Os olhos dourados do ódio e A revolução das bonecas. Durante, saíram Terror e êxtase, best seller que virou filme (em 1979, dirigido por Antônio Calmon) e associa a juventude de classe média com a bandidagem dos morros; Um novo animal na floresta, um coquetel que mistura esquerda festiva e guerrilha urbana; e Domingo 22, trama autobiográfica de mistério que transcorre no Rio dos anos 50.
Como um trecho no prefácio esclarece, para evitar possíveis constrangimentos, foi mantido no texto do diário (repleto de descrições de sexo) o anonimato de pessoas citadas ''de maneira condenável pela sociedade cristã ou em situação controvertida'':
- As iniciais são um recurso utilizado até por advogados criminalistas em seus livros sobre processos judiciais, para proteger a identidade de ex-clientes. Evidentemente as pessoas muito próximas das que são citadas, ou que conhecem a situação mencionada, podem saber de quem se trata ou desconfiar - explica Tércio.
Além da brincadeira (às vezes desagradável) de descobrir quem é quem, e quem deixou que Carlinhos fizesse isto ou aquilo com ele ou ela, o livro guarda outros atrativos e curiosidades. A tantas páginas, o cronista se define como ''tecnicamente morto'', expressão que também seria usada anos mais tarde por Paulo Francis antes de, de fato, morrer. O mesmo Francis que acusava Carlinhos de ter forjado uma mitologia de Ipanema e ter sido o causador da especulação imobiliária no bairro a partir dos ano 70. E quem pensa que o verbo caetanear é uma criação de Djavan, está enganado. É só conferir na página 72 do Diário, a mesma em que ele conclui a narração de uma rixa histórica que teve com o poeta Ferreira Gullar.
Os dois livros são apenas uma amostra de uma coleção do autor. Estão previstos volumes específicos sobre política, humor, Rio de Janeiro e outras cidades, cultura e costumes, mulheres e reflexões existenciais. A posteridade poderá julgar se Carlinhos estava certo ao dizer às gargalhadas que seu grande romance foi escrito nas páginas do Caderno B.