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Conversa de botequim

Duas coletâneas de crônicas de Carlinhos Oliveira, a maioria delas publicada no JB nos anos 60 e 70, lançam luz sobre o arauto maior da boemia carioca

Álvaro Costa e Silva e Alexandre Werneck

Numa explosiva entrevista ao Pasquim em 1978 - faltou pouco para o pau quebrar -, o jornalista José Carlos Oliveira narra sua chegada ao Rio, em 1952, vindo de Vitória (ES), já com fama de enfant terrible das letras. Aos 18 anos, perdido, sem dinheiro e com fome, carregando uma mala de papelão e em seu passo de passarinho - os conhecidos diziam que ele saltitava -, teve o primeiro susto com a cidade grande: mulheres ao volante!

Nesse episódio, estão dois dos principais temas do cronista: as mulheres e o Rio, sobre os quais ele não se cansaria de falar quatro vezes por semana no Jornal do Brasil durante 23 anos ininterruptos, entre 1961 e 1984, sem contar os tempos da sua colaboração no histórico Suplemento Dominical que o JB manteve entre 1959 e 1961. Também trabalhou regularmente em Manchete, Fatos & Fotos e Tribuna da Imprensa, até morrer, em abril de 1986, vítima de pancreatite devido ao crônico alcoolismo que vinha como acessório de sua intensa vida boêmia.

Mas Carlinhos Oliveira, como era conhecido, não se limitou à dobradinha mulher-Rio. O jornalista Jason Tércio, seu biógrafo e organizador de duas coletâneas de crônicas que estão sendo lançadas pela Civilização Brasileira (Record) - O homem na varanda do Antonio's e Diário selvagem - lembra que os textos de Carlinhos, leitura obrigatória de toda uma geração, anteciparam debates e causaram polêmica ao tratar de praticamente tudo: política, boemia, liberdade, sexo, futebol, terrorismo, costumes, violência, drogas, solidão, amizade, amor e morte.

Tudo isso está descrio por Carlinhos de maneira crua e desapiedada de si, sobretudo no Diário. O material serviu de fonte para Jason Tércio escrever a biografia Órfão na tempestade, publicada em 1999 pela Objetiva.

- O texto é um documento literário e histórico, absolutamente inédito, sobre a vida social e cultural carioca nas décadas de 70 e 80. Quando fiz a biografia, eu só tinha uma parte dele. Consegui o restante depois que o livro saiu, com a pessoa que cuida do acervo dele em Vitória, Regina Egito - conta Tércio.

O período relatado no livro - de novembro de 1971 até poucos dias antes da sua morte - é o da maturidade intelectual e criativa do escritor. Foi a fase áurea de uma militância que não escolheu a sede do jornal como local de apuração.

- Naquela época, as coisas aconteciam na rua e, até por isso, as pessoas ficavam o dia inteiro na rua. Eu mesmo, naquele tempo, não tinha nem televisão. As pessoas não ficavam na mesa do bar falando de televisão - lembra-se o escritor Ruy Castro, contemporâneo de Carlinhos e admirador confesso de sua obra.

O que leva o autor a proclamar:

- Hoje em dia, não há mais cronistas. Há articulistas, que dão opiniões. Cronista era o Carlinhos, que falava do seu dia-a-dia. Era o protagonista de si mesmo.


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[25/FEV/2005]


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