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''O carro falhou, mas a gente deu certo''


Maior vencedora do carnaval carioca, a Portela corre o risco de cair pela primeira vez na história para o Grupo de Acesso devido a sucessivos problemas nos enormes carros alegóricos. Se o desfile da azul e branco de Osvaldo Cruz já iniciara desfalcado de um carro acoplado ao abre-alas, as coisas começaram a se tornar ainda mais turvas a partir da terceira alegoria, que lembrava o universo infantil em um ambiente lúdico, onde a brincadeira e o aprendizado eram representados por lápis, palhaços, pincéis e livros. Por conta de uma manobra malfeita, prejudicada, é fato, pela quebra de uma alegoria da Viradouro que atravancava a armação da escola, o carro entrou errado na avenida. Enquanto os integrantes da harmonia consertavam a barbeiragem, algumas alas tiveram de passar à frente da alegoria para que não se formasse um buraco. Mas era só o começo. O pior ainda estava por vir.

O último carro, que levava a Velha Guarda, iniciou a trajetória dramática ainda antes do viaduto. Para atravessar uma passarela da Avenida Presidente Vargas, na altura do edifício Balança Mas não Cai, teve uma parte retirada, a cabeça do rei Momo. Depois, ficou preso por alguns minutos em uma grade de ferro, o que o condenaria definitivamente a não desfilar. Ainda assim, empurrado com muito esforço pelos componentes da escola, comandados pelo compositor Marquinhos de Osvaldo Cruz, apontou na avenida, mas nem chegou a completar a curva. Nessa hora, temendo o estouro do tempo, veio a ordem do presidente Nilo Figueiredo para que o portão que encerra a entrada da escola fosse fechado.

- Era melhor perder um ponto pela falta da alegoria do que perder um ponto por minuto de atraso - explicou.

Iniciou-se, então, o pranto generalizado dos integrantes da Velha Guarda que estavam no carro. Os baluartes da escola misturavam fisionomias entre a agonia e a tristeza. Abateu-se a consternação e quatro deles tiveram que ser atendidos no posto médico.

- Não estou bem. Fiquei assustada quando vi que o carro não entraria na avenida. Tomamos um grande susto. Estou há 65 anos na Portela e nunca, nunca vi nada igual - lamentou Tia Lúcia.

Muito emocionado, Wilson da Cruz, de 70 anos, lamentava por não ter desfilado, ritual que ele repete desde os 16 anos.

- Não deixei de desfilar nem quando minha mãe morreu. O incêndio já foi uma ducha de água fria e agora ainda aconteceu isso. Mas se a Portela descer vamos buscá-la lá no buraco - disse o veterano, com lágrimas nos olhos.

Quando os integrantes da Velha Guarda cruzaram a avenida a pé, foram ovacionados.

Só restou a beleza da inocência infantil. A pequena Luana Garrido, de 11 anos, chegou aos prantos à Apoteose. Fantasiada de anjinho, era a primeira vez que saía na Portela, mas sua ala, que desfilaria no último carro, não passou pela Passarela do Samba.

- O carro falhou, mas a gente deu certo. Terminamos o desfile - resignou-se a pequena. Agora, Luana e toda a comunidade portelense torcem pela clemência dos jurados. (B. A.)


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[09/FEV/2005]


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