A receita da Mocidade era simples, mas faltou tempero para torná-la irresistivelmente saborosa. A escola que abriu, no domingo, os desfiles do Grupo Especial misturou, no caldeirão da Sapucaí, cultura italiana com pitadas de Brasil, passeando pelas manifestações artísticas, pela gastronomia e pela moda da terra de Vivaldi, de Versace e da pizza. Sem contagiar o público, a escola de Padre Miguel mostrou o enredo
Buon mangiare, Mocidade! A arte está na mesa com suntuosas alegorias, o ponto alto do desfile. O destaque foi o carro da Capela Sistina, no Vaticano, obra-prima de Michelangelo.
De entrada, a Mocidade serviu a arte do teatro. O abre-alas, na verdade, eram três carros. A bonita alegoria que homenageava a Comédia Dellarte quase salgou o início do desfile. Na entrada da Sapucaí, o carro teve problemas e por pouco não conseguiu fazer a curva, mas a escola acabou entrando luxuosa na avenida. Fantasias e alegorias abusavam de plumas e detalhes aveludados, tudo bastante colorido e elegante. O carnavalesco Paulo Menezes mostrou bom gosto nas alegorias e fantasias.
Recheando o desfile, um molho frio: o samba não empolgou. Mas, certamente, os jurados ficarão satisfeitos com as alegorias e fantasias e com a performance correta. O que pode prejudicar a Mocidade, além da frieza do público e do samba vacilante, foi o buraco formado na evolução do casal de mestre-sala e porta-bandeira.
Excepcionalmente, a bateria de Mestre Bira não executou a paradinha. Preferiu uma manobra ousada. Deixou o recuo, entrou na avenida e se exibiu para o público, para depois retornar. Para finalizar, a bateria liderada pela cada vez mais turbinada Viviane Araújo arrancou aplausos do público, confirmando a tradição de que sempre é um espetáculo à parte.
O segundo carro, remetendo ao carnaval de Veneza, trazia o bombeiro José Albucacys, que, para a tristeza do público feminino, mal exibia a barriga.
Sucederam-se, pela ordem, os setores que apresentavam a música, o Renascimento, a ciência, a gastronomia e a moda, até chegar ao Modernismo brasileiro.
O tema do penúltimo carro representava a moda. A alegoria trazia uma dezena de modelos - tão magras e lindas quanto sem jeito para sambar. Entre elas, as deslumbrantes Ellen Jabour e Mariana Weickert. Como destaque principal vinha o estilista Tufi Duek. A Mocidade não empolgou. Mas caso não perca pontos em evolução, certamente vai estar na briga pelos primeiros lugares.