Apresentando um enredo sobre energia, a Mangueira, quarta escola a entrar na Sapucaí no domingo, abriu o desfile com uma comissão de frente emocionante. Formada por uma animada trupe de 13 senhores e senhoras, com idades entre 70 e 104 anos, simbolizava a força vital. À frente, sentada em uma poltrona, vinha Vovó Lucíola, a mais velha do grupo, que arrancou aplausos e lágrimas do público. Emocionado, o bailarino Carlinhos de Jesus, responsável pela comissão de frente da verde-e-rosa, reuniu representantes de diversos setores da escola, como Xangô da Mangueira, Delegado, Nelson Sargento e o ex-presidente Ed Miranda.
- Queria mostrar que não importam os movimentos, mas a energia. E isso, eles têm de sobra. Alguns até ficaram inibidos, achando que apresentar a escola era muita responsabilidade. Afinal, eles estão acostumados a vir no final. Nem sei o que falar. Nunca fiquei tão emocionado em um desfile. E mesmo com a idade avançada, eles mostraram samba no pé, não? - celebrou o coreógrafo, destacando a presença de Edmilza, uma boneca trazida no colo de Vovó Lucíola carregada de simbolismo: tem 76 anos, mesma idade da escola.
Logo atrás, o bem resolvido carro abre-alas: um surdo gigante que se abria e fechava, transformando-se em palco para evoluções precisas de Delegado, um dos grandes passistas da história carnaval. Simulando uma favela, o interior do instrumento tinha mesas de bar com integrantes históricos da Mangueira, como Cartola, Dona Zica e Nelson Cavaquinho.
Depois do início empolgante, a energia diminuiu. Jamelão, embora tenha cantado de pé até o fim, pouco foi escutado. Coube aos outros puxadores carregar o samba. Embora saudada com a empolgação de sempre pelas arquibancadas, a escola - que recebeu verbas de empresas do setor energético - fez um desfile apressado, devido à demora na passagem da comissão de frente. Já quase na Apoteose, diretores pediram para Carlinhos de Jesus apressar o ritmo. Foi o início da agonia dos responsáveis pela harmonia e evolução da escola.
Entre muitas alas coreografadas e a bateria - que não só quebrou a tradição e fez paradinhas (bem executadas), como também realizou alguns movimentos ensaiados -, o que se viu foi a escola passar em ritmo frenético. Com um desfile lotado pelo excesso de integrantes, mal pôde o público admirar a beleza dos carros alegóricos, que abusavam do prateado em vez das cores tradicionais.
Com destaques suspensos, presos por mosquetões, a segunda alegoria empolgou, assim como as alas divididas por cores, simbolizando as energias positiva e negativa - que eram demarcadas por diretores da escola conectados por fios de alta tensão. Mas pode até ser que os jurados tirem alguns pontos da escola em evolução, pois foram visíveis alguns buracos e a pressa dos integrantes.
Enquanto belas alegorias passavam como foguetes, a tensão tomava conta da diretoria da escola. Os gritos nervosos para acelerar o passo só terminaram quando o último integrante cruzou a linha que delimita o fim da apresentação. Foi quando o relógio cravou 1h20, o tempo máximo permitido a uma escola. Alívio geral. Abraços, beijos e gritos de ''é campeã'' tomaram conta da Apoteose.
- Carnaval é emoção. Senão, não tem graça. Fizemos uma apresentação primorosa. A bateria se exibiu, as alas fizeram coreografias. Até o atraso foi calculado - brincou, na fronteira entre o alívio e a emoção, o diretor de Harmonia da Mangueira, Elmo dos Santos.
Em seguida, mais nervosismo na hora de tirar os carros da dispersão, o que também pode tirar pontos. A saída da escola foi prejudicada por um princípio de incêndio em um dos carros. Um dos últimos a deixar a área foi o carnavalesco Max Lopes, que desfilou no último carro, fantasiado de Buda.
- Foi lindo, mas daquela altura nunca mais desfilo. Mas dali deu para sentir bem a reação do público. E ela foi ótima. Viemos para ganhar - afirmou.