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O mano do Los Hermanos

O cineasta Eduardo Valente, que viajará a Paris para fazer residência pela Cinéfondation, lança em março DVD com show da banda carioca

Alexandre Werneck

O jovem cineasta carioca Eduardo Valente, de 28 anos, já está se preparando para viajar para a França, em março, onde participará da residência da Cinéfondation, entidade ligada ao Festival de Cannes que fomenta o surgimento de novos diretores. Ele ficará em Paris por quatro meses, nos quais começará a preparar o que seria seu primeiro longa-metragem. Com o cineasta prestes a rodar ainda seu terceiro curta, antes de partir para a Europa, este momento poderia ser considerado um rito de passagem. Poderia, se Valente, na prática, já não tivesse feito um longa. É que ele é o diretor de Los Hermanos no Cine Íris – 28 de junho de 2004, ou seja, da filmagem do show do grupo de rock que chega em breve às lojas em DVD. O primeiro longa de Valente, então, é um documentário, dura cerca de 80 minutos, foi rodado em película (16mm) e tudo o que é necessário para ser exibido em um cinema.

A produção serve para coroar uma relação estabelecida ainda no começo das carreiras da banda e do diretor, que em 2002, no Festival de Cannes, ganhou o prêmio de melhor curta-metragem estudantil com o filme Um sol alaranjado, láurea que recebeu das mãos de ninguém menos que Martin Scorsese, presidente de um júri que trazia, entre outros, o diretor iraniano Abbas Kiarostami.

– Sempre houve uma proximidade entre as visões artísticas do Los Hermanos e a minha, sobretudo pela total falta de preconceito a toda e qualquer coisa: eles, por exemplo, colocam letras românticas em rock pesado. E essa sempre foi minha relação com o cinema: gosto de As panteras e de Jean-Luc Godard – diz o cineasta, que, quando era estudante, no curso de cinema da UFF, ia aos shows da então desconhecida banda Los Hermanos nos idos de 1998 e andava com fitas demo do grupo no carro.

A relação mais próxima entre eles começou quando Valente fez seu primeiro curta como diretor, justamente Um sol alaranjado, que chegou a ganhar, antes de Cannes, o prêmio de melhor diretor de curta no Festival de Brasília. O diretor queria encerrar seu filme, um drama denso rodado em preto-e-branco, com uma faixa de rock. Não deu outra: foi atrás de Rodrigo Amarante, vocalista e compositor da banda ao lado de Marcelo Camelo, e lhe pediu para usar Quem sabe, composta por ele e gravada no primeiro disco do grupo, de 1999.

A autorização de Amarante veio com um “Não há nenhum problema em você usar nossa música nas suas imagens, desde que você nos deixe algum dia usar as suas imagens na nossa música”, que hoje soa até profético. O fato é que funcionou tão bem a junção de melancolia com som hardcore, que o segundo curta de Valente, Castanho, de 2003, foi feito como um musical. Na trilha, Los Hermanos. As músicas foram compostas por Camelo e Amarante especialmente para o filme. Uma das de Camelo, apenas instrumental, acabou ganhando letra mais tarde e virou Conversa de botas batidas, uma das mais elogiadas faixas do último álbum do grupo, Ventura, do ano passado. O disco, aliás, poderia ter gerado dois videoclipes de Valente para o grupo, mas as agendas de ambos impediram. Dali ficou a vontade de trabalhar com os amigos.

– Onde acho que mais nos aproximamos é que eles têm uma relação com a música bastante semelhante com a que eu tenho com o cinema, que é pensar que se há uma indústria desses segmentos e se é necessário que as obras cheguem às pessoas, é preciso dialogar e trabalhar com essa indústria. Se faço isso, é porque gosto de cinema e quero fazer meus filmes, assim como eles gostam de música e querem fazer o som deles. Mas nenhum de nós chama pessoas para trabalhar porque são do mercado, e sim porque queremos poder chamar amigos, pessoas com quem nos afinamos artisticamente – diz Valente.

Quando recebeu o convite do grupo para filmar o show, o cineasta teve que confessar a eles: não sabia fazer aquilo. Mais uma vez foi brindado com uma resposta espertinha de Rodrigo Amarante, que lhe disse que também não sabia fazer um DVD e que eles não queriam fazer algo como se sabe. Aceitou, desde que pudesse escolher sua equipe e que pudesse ter pessoas experimentadas em filmagens de shows na produção e na fotografia. Convidou, então, o renomado fotógrafo Mauro Pinheiro e com ele partiu para o desafio de transformar o Cine Íris, no Centro, cinema pornô onde esporadicamente é feita a concorrida festa Loud!, em um espaço para um show de rock. Tiveram que retirar um pedaço do palco do cinema e, em um dia, preparar toda a casa para a infra-estrutura da filmagem.

– Havia um pressuposto importante: a idéia do DVD ser o filme de registro documental do que é para os artistas fazer um show do Los Hermanos em julho de 2004, na turnê Ventura – conta o cineasta, que se assume como um diretor contratado, a serviço de um projeto autoral que não é seu, mas no qual ele acredita.

O desafio do primeiro longa, nesse caso, para o diretor, foi o de definir como fazer a filmagem em um espaço de certa forma limitado (que estaria lotado de gente), e com um outro determinante: o grupo fazia questão que o filme fosse feito em película, o que limitou o número de câmeras. Foram cinco – quatro fixas e uma móvel –, no meio do público.

– Isso exigia que quem estivesse filmando tinha que acertar sempre – diz ele, que escolheu quatro figuras de primeiríssimo time para a operar as câmeras: Lula Carvalho (filho e assistente habitual de Walter Carvalho), Jacques Cheuiche (fotógrafo dos mais recentes filmes de Eduardo Coutinho), Marcio Menezes (um dos mais ativos fotógrafos de curtas-metragens do país) e Fabrício Tadeu (um dos mais solicitados steady-cams do Rio e um dos criadores do personagem Capitão Zum, cujos filmes são exibidos no Cine Buraco).

A corda bamba da direção, com duas câmeras de frente e duas na lateral do palco ligadas a monitores, que exigiram que o diretor rapidamente aprendesse a se coordenar na confusão de um show de rock, fez com que ele ainda exercitasse as possibilidades de um olhar criativo em um filme “de encomenda”.

– Não queríamos aquele ritmo frenético de edição habitual dos DVDs. Em um show, as pessoas estão tocando instrumentos juntas. O essencial é a interação entre os instrumentos. Se você filma só com closes e com edição rápida, perde o que há de mais essencial no show, que é essa interação. Na maior parte do tempo, trabalhamos com planos mais abertos, para mostrar os músicos tocando juntos, vibrando, vivendo aqueles momentos.


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[01/FEV/2005]


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