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Superando o passado
[07/JAN/2005]
- Há também uma razão pessoal para você ter escrito A verdadeira Odessa?
- Sim, vim de uma família de diplomatas argentinos. Não conheci meu avô, mas ele foi diplomata na Itália e na Bolívia durante a 2ª Guerra. Através de histórias de família, eu sabia da existência de uma ordem secreta proibindo a entrada de judeus na Argentina no período. Houve os que obedeceram, como meu avô, um antifascista mas obediente - e os que aceitaram propinas. Houve uma jovem judia que chegou ao seu escritório pedindo visto de entrada em troca de jóias. Diante da recusa de meu avô, ela tirou as roupas oferecendo seu corpo. Dizem que não aceitou...
- Você se sentia com um peso nas costas?
- Era uma informação que eu carregava comigo e que eu considerava tão importante que deveria se tornar pública. Membros da minha família ficaram furiosos, mas eu sentia que devia. Gastei seis anos da minha vida trabalhando nisso, destruí minhas finanças e minha vida pessoal. Tenho 51 anos e não quero fazer isso de novo. Já paguei qualquer débito que tivesse.
- O livro tem uma linguagem objetiva, que aponta fatos. Você se preocupou em não formar julgamentos?
- Entrevistei torturadores da ditadura, velhos nazistas, e realmente não julgo ninguém, nem o meu avô. Eu sei a diferença entre certo e errado, mas acho que posso ser mais útil como pesquisador objetivo. É um assunto tão sensível na Argentina que eu sabia que se incluísse qualquer julgamento em relação a Perón ou à Igreja Católica seria muito difícil de ser aceito.
- Como foi a repercussão?
- Bem maior no exterior do que na Argentina. Quando o livrou saiu nos EUA, no final de 2002, autoridades americanas me pediram para fazer uma lista de documentos importantes que deveriam ser revelados. Apontei 60 arquivos secretos que foram então solicitados ao governo argentino. Durante o atual governo do presidente Néstor Kirchner, apenas dois documentos foram revelados. Na Itália, foi instaurada uma comissão para investigar a participação da Igreja e fui processado por Erich Priebke.
- De que ele o acusou?
- Bem, Priebke era capitão da SS e alegou que o livro trazia inverdades sobre ele, que não tinha selecionado judeus durante a guerra para campos de concentração. Foi assustador, porque ele já tinha vencido outros processos semelhantes. Percebi que se não ganhasse perderia credibilidade, mas consegui provar que minha pesquisa estava correta.
- Mas os argentinos já sabiam das conexões de Perón com o nazismo antes do livro?
- Era uma idéia levantada pela imprensa e não por livros sérios de historiadores. Não havia evidências concretas. Meu livro então apresentou algumas provas inéditas. Uma delas foi o documento secreto de 1938 que proibia a entrada de judeus. Outra foram os documentos belgas que mostram como Perón se encontrou com criminosos depois da guerra, enviou espiões para a Itália e a Suíça e organizou e financiou uma operação de fuga. E ainda evidências do envolvimento do Vaticano na escapada de nazistas católicos.
- Você foi criticado por argentinos que consideram que você denegriu a história do país. Como responder a isso?
- A razão pela qual escrevi esse livro foi que a única maneira de remover esse veneno deixada na nossa história é contar esses fatos exatamente como eles aconteceram. Alguns diplomatas me diziam: ''não faça a Argentina ficar mal''. Mas o que pode fazer a Argentina ficar mal é a ocultação de informação. O que meus pais, avós e as gerações anteriores fizeram não podem me deixar mal, porque eu nasci depois da guerra. O que não posso é esconder a verdade.
- Ninguém gosta de saber que seu país ajudou nazistas...
- Mas a Argentina não foi o único. Quando diversos jornalistas italianos voaram para Buenos Aires para me entrevistar, eu perguntava: ''O que vocês estão fazendo aqui? Ninguém nunca escreveu sobre isso na Itália?''.
- Quantos nazistas entraram na Argentina?
- Se você estiver falando apenas dos criminosos de guerra que estavam sendo processados na Europa, encontrei cerca de 300 casos. Mas se forem contados simplesmente membros do Partido Nazista, pessoas cuja responsabilidade durante a guerra não são conhecidas, estamos falando de milhares. Algo entre 30 mil e 250 mil nazistas vieram para a Argentina entre 1945 e 1955. A comissão argentina identificou apenas 84, um número ridículo.
- Você provou ainda que muitos judeus vieram para a Argentina...
- Entrevistei judeus que vieram para a Argentina no mesmo navio que criminosos de guerra. Já havia uma comunidade alemã aqui bem antes da guerra. E nessa comunidade havia alemães-judeus e alemães não-judeus.
- De que maneira esse debate pode ser positivo?
- Se você nega o seu passado, como vai superá-lo? A Argentina é um país que nega a relação de Perón com os nazistas, os crimes cometidos durante a ditadura e a existência de corrupção. Esse senso de impunidade que permaneceu no ar, essa cultura do silêncio, criou um terreno fértil para o crime. Quando a Justiça não é eficaz em uma área, ela encoraja outras áreas.
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