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Suspensão da vida com olhar crítico

MAC-Niterói exibe as naturezas-mortas contemporâneas

Elvira Vigna

O Museu de Arte Contemporânea de Niterói apresenta, com o British Council, uma exposição de natureza-morta, gênero ultrapassado na arte contemporânea. São 35 obras de 17 artistas ingleses e 40 de 33 brasileiros. Nenhum deles é praticante habitual do gênero. Estão lá para comentá-lo. O comentário não é nem um pouco ultrapassado.

É o termo anglo-saxão, Still life, o que mais se aproxima do sentido dessas pinturas que retratam não exatamente a morte na natureza mas um momento de suspensão da vida. São sempre morais. Lembram a quem janta bem na sala que jantar bem um dia acaba. Tiveram seu auge na Holanda do século 16, quando se inventa o lucro bancário mas também o protestantismo ascético. Em Pompéia, Sodoma e Gomorra, onde não se inventa nada de novo mas onde esse nada é feito em salas de adoração a deuses. E no barroco, que, exacerbado, pôs caveiras perto dos vinhos e flores - as vanitas. Ou seja, em sociedades que juntaram preceitos religiosos rigorosos e atitudes que estes mesmos preceitos condenariam. Esta a relevância da exposição - os atuais terroristas do Islã, os evangélicos de Bangu II. E o católico Bush.

A curadoria é de Kátia Canton (com a inglesa Ann Gallagher), do MAC de São Paulo, de onde a exposição veio. Elas obedecem à divisão barroca. Há o setor de caveiras, de flores e de garrafas. Um outro sobre o desejo. E todos são permeados pela morte, ou suspensão da vida. Há, contudo, uma outra divisão, esta involuntária. Brasileiros e britânicos diferem no humor. O dos brasileiros é mais britânico.

Ernesto Neto, com um feminino agressivo - uma meia de seda cheia de chumbinho de caça; Nina Moraes com seu Infância, um útero de plástico contendo não a criança mas o que a criança joga fora: bonequinhas quebradas, pedacinhos de brinquedos. Julio Schmidt, que sai da representação do bem-estar e do luxo, comuns no gênero, e enlata uma proletária sardinha.

Pazé, também pop, faz camadas geológicas de canudinhos de plástico. Luiz Zerbini ocupa espaço nobre com a pintura E aí brother - caveira no melhor estilo vanitas cercada de cristas-de-galo, que, além de flor, é nome popular de um tipo de verruga genital masculina.

Dos sérios ingleses, um dos destaques é Patrick Caulfield, que já esteve no Brasil na década de 80. Outro é Simon Starling. Traz fotos onde documenta o retorno à Espanha de árvores espanholas plantadas na Escócia. Não consegui uma visão positiva desta instalação. Ao substituir ''árvores'' por imigrantes, o trabalho fica esquisito.

O terceiro grande nome dos ingleses é Mike Nelson, que trouxe uma mesa de trabalho. Não a representação de uma mesa de trabalho, mas a própria, com seus vários objetos e lixos. Mas tudo um pouco artificial, o que torna esta natureza-morta bastante eficaz, já que quase-real.

E tem também o Grupo Bank. Estes artistas - Simon Bedwell, John Russell e Milly Thompson - substituíram os pichadores-artistas nos anos 90. Trabalham com stencil ou com pequenos cartazes feitos de clip-art (arte computadorizada). Cobrem com isso os muros e postes das cidades inglesas. Usam a linguagem publicitária ou de símbolos urbanos para atacar a publicidade e os símbolos urbanos. Nas obras da exposição, uma surpresa. Nada há do que os fizeram famosos. São três naturezas-mortas. Exatamente naturezas-mortas, convencionais. Usam o título de Dead life, acentuando a morte do gênero ao mimetizar, com apuro, o gênero. Como sempre, portanto, bem críticos e eficazes.

E mais: Emma Kay e sua lista de 2.717 objetos presentes na Bíblia; Nigel Cooke e o hiper-realismo empregado só no chão, sujo, de sua pintura (o que dá ao ''chão'' a idéia de real, e de irreal a todo o resto); Flávia Ribeiro, onde o passar do tempo vem pela sobreposição de desenhos em papel vegetal, os de cima cobrindo os anteriores. Cristina Rogozinski tem colheres vazadas, seu conteúdo é o nada.

A paulista Laura Vinci dá outro sentido à morte ao usar o imaterial: a luz cria formas refletidas por uma bacia de metal. E mais Catunda e Milhazes, um dos diálogos da exposição: suas flores, decorativas e grandes, estão uma em frente à outra. Guto Lacaz tem Nabo, em outra demonstração do humor dos brasileiros. Jac Leirner trouxe Pulmão, um invólucro de celofane, por onde o ar passa.

Elias Muradi mostra uma mesa e dois banquinhos e esta mesma mesa e banquinhos pintados em um quadro. No quadro, porém, aparecem duas mulheres nos banquinhos. Isso faz com que a ''natureza-morta'', o quadro, seja na verdade ''natureza-viva''. E o que o quadro representa, a mesa e os banquinhos reais, seja a verdadeira ''natureza-morta'', já que sem as mulheres.

Há vídeos também. No de Wood e Harrison, um balde de tinta cai sobre os artistas. É uma visão prática e de raro humor entre os ingleses de como sobreviver a acidentes caseiros. Não é uma Still Life, é um Still alive.

A impressão que se tem, ao vê-los todos juntos, é de riqueza. Mas é riqueza feita de materiais baratos. Um dos subprodutos da exposição é essa reflexão sobre o consumismo.

No final há um espaço educativo. Duas mesas baixas com frutas de cera, lenços, um tubo de vasenol, uma lata de ervilhas Jurema, bonecos. A idéia é usar estes objetos para montar naturezas-mortas que serão documentadas por monitores do MAC-Niterói. Não é só para crianças. As pessoas olham de longe. Depois pegam os objetos com respeito, uma estranheza, ervilhas Jurema?!, e baixam a cabeça antes de rir sem graça, desestabilizadas. É um bom começo, a desestabilização. Aliás, um bom recomeço. O espaço do MAC-Niterói é circular e as mesinhas, convite para mais uma volta. Desta vez entre colegas.


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[04/DEZ/2004]


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