Os cartunistas Allan Sieber, Arnaldo Branco e Leonardo lançam a revista de quadrinhos humorísticos 'F.', que tenta sucesso em um mercado no qual já passaram publicações como 'Chiclete com Banana', 'Piratas do Tietê' e 'Bundas'
Parece piada, mas no Brasil fazer rir virou um mau negócio. Ao menos para quem faz revistas em quadrinhos. No início dos anos 90, qualquer banca tinha um Chiclete com Banana ou uma Piratas do Tietê, clássicos da linha escrachada. Hoje extintas, essas revistas formaram uma geração de leitores, fanáticos por Angeli, Laerte, Nani e outros emblemáticos cartunistas. Hoje parece que a esperança do gênero reside nas agigantadas páginas de F. (Gibiteca Editora), dos desenhistas Allan Sieber, Leonardo e Arnaldo Branco, idealizada para aplacar a carência de piadas adultas de quem já está crescidinho demais para rir com o Cebolinha tlocando letlas.
Produção independente (“Somos pessoas físicas, pondo dinheiro do próprio bolso”, lembra Sieber), F. será lançada hoje, às 21h, em festa no Teatro Odisséia, na Lapa, com som dos DJs Feijão, Fred Leal e Lia e exibição dos curtas-metragens de Sieber. No número 1 da revista, que tem 36 páginas e custa R$ 4, tiras do trio e dos convidados Fábio Zimbres e Schiavon.
– Antigamente, podia-se comprar gibi com a grana da merenda. Lia-se mais. Hoje, os editores ficaram gananciosos. Mas a idéia é a F. custar barato mesmo. Todo mundo está pobre. Inclusive eu – diz o gaúcho Allan Sieber, 32 anos, animador premiado pelo curta Deus é pai e que finaliza o desenho Santa de casa, baseado em conto de Aldir Blanc.
Como seus colegas de F., Sieber, que é cineasta, não tira dos quadrinhos o pão de cada dia. Arnaldo, 32, é webmaster e Leonardo, 31, faz ilustrações para diversas publicações. Mas os três desenvolveram o projeto – cuja tiragem inicial de 6 mil exemplares, mais custos de confecção, chegou a R$ 7 mil – para atender a uma demanda de quem milita no cartum.
– Talvez a gente esteja com um facão na mão abrindo uma picada numa mata virgem para outros cartunistas. A classe e os leitores sentiam falta de uma revista de humor. Daí essa iniciativa de raspar o bolso e vender algo que quem curte ler quadrinho sente falta. Mas não sei dizer se a F. vai virar a Carlota Joaquina do quadrinho nacional – diz Arnaldo, referindo-se ao filme de Carla Camurati que, em 1995, impulsionou a chamada “retomada” da produção cinematográfica no país.
Mas, ao contrário do cinema, que utiliza o espaço antes reservado apenas a trailers para veicular publicidade, o quadrinho ainda não dispõe de anúncios. O que é um problema, segundo outro militante da seara do gibi bem-humorado, o cartunista Otacílio d’Assunção, o Ota, editor da versão brasileira de Mad.
– Os anunciantes ainda não descobriram o poder das HQs no mercado editorial. Será que ninguém percebeu que um anúncio de Bombril, por exemplo, que sempre é engraçado, caberia perfeitamente nas páginas de um gibi? – questiona Ota, colecionador e pesquisador de HQs que lembra o fenômeno de Chiclete com banana, bíblia do quadrinho underground nacional que estreou em 1985 e fechou em 1991.
– A Chiclete chegou a ser auto-sustentável por um tempo porque agradou a toda uma geração que começava a descobrir os quadrinhos brasileiros. Mas hoje, por mais que haja gente criativa, falta espaço. E divulgação.
O cartunista Leonardo, que na F. assina a tira Vandik, o pansexual, na qual não mede o palavrório nem censura os fetiches, acredita que a maior censura que existe a um artista é a censura econômica:
– O que não dá dinheiro é imoral, assim é o mercado.
Leonardo perde a compostura, mas nunca a piada. E sabe que o tão debochado humor gráfico nacional, cultivado desde os tempos do Pasquim, com Jaguar e outros bambas do traço, pesa na cabeça do anunciante.
– Na TV, às vezes, passa coisa muito mais escrachada do que o que se lê em um quadrinho. Mas, na telinha, tudo passa rápido. No papel, não. Está escrito, desenhado. Há o registro. Então, vira documento – analisa.
Mas o adversário do quadrinho não é apenas a carência de anunciantes. Pesa também em sua performance comercial o preconceito dos que ainda chamam HQ de “coisa de criança”. Problemas que no caso das HQs humorísticas se conjugam.