Se não tivesse sofrido um processo autofágico por conta da inépcia da indústria musical do país, a linha evolutiva da MPB já teria reservado um lugar de maior ressonância para a obra minimalista e elaborada do compositor paulista José Miguel Wisnik. Ela pode ser melhor avaliada agora em
José Miguel Wisnik - Livro de partituras (Gryphus), que o autor lança com palestra, no próximo dia 24, no Sesc Copacabana. O livro traz 33 canções de seus três CDs,
José Miguel Wisnik (1993),
São Paulo - Rio (2002) e
Pérolas aos poucos (2003).
Versado na obra do compositor, o violonista Kristoff Silva foi o responsável pela transcrição das partituras, trabalho árduo que exigiu um curioso processo. Wisnik foi filmado ao piano, o que possibilitou ''a visualização das notas e sua distribuição pelas mãos esquerda e direita'', como o próprio José Miguel Wisnik explica na abertura do livro. ''Chegar à canção é uma tarefa e tanto, nada menos do que uma forma de entender o Brasil'', comenta o crítico erudito Arthur Nestrovski no prefácio.
Nestrovski analisa o trajeto pouco usual de Wisnik, professor de literatura da Universidade de São Paulo de formação musical erudita e ensaísta de teses brilhantes como O som e o sentido - Uma outra história das músicas (Companhia das Letras, 1989), em direção à prática da música popular.
''Paulista do mar'' (ele nasceu na cidade litorânea de São Vicente), como se denomina, José Miguel filia-se de muitas formas ao pós-tropicalismo baiano, já escaldado por escolas paralelas como a do zen-vanguardista Walter Franco, o dodecafunk de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção e mais Luiz Tatit (também dublê de ensaísta e compositor, filiado inicialmente ao Grupo Rumo) e o titã concretista Arnaldo Antunes. Mas sua matriz de abordagem da MPB parece ser Caetano Veloso, que lhe dedicou (junto com David Byrne) o autobiográfico livro Verdade tropical (Companhia das Letras, 1997).
As composições de Wisnik, como boa parte da obra de Caetano, constituem também um recorte crítico do universo da MPB onde estão inseridas. Essa simultaneidade de ações ocorre, por exemplo, em Assum branco (que remete ao clássico Assum preto, de Luiz Gonzaga) ou Se meu mundo cair (idem ao samba canção emblemático de Maysa, Meu mundo caiu).
Em Sou baiano também, ele confirma sua filiação musical (''foi Gilberto Gil que viu/ o sertão de Luiz Gonzaga/ virar praia e mar aberto de Caymmi''), mas alista ainda outros laços estéticos em São Paulo Rio (parceria com Paulo Neves) e Efeito samba, com Vadim Nikitim (''Adeus meu Rio de Janeiro/ eu vou me embora pra Moscou/ queimar no frio de fevereiro/ os raios deste sol enganador'').
A obra pequena mas abrangente de JMW espraia-se por outras parcerias. De Luiz Tatit (Para Elisa, Mestres cantores, Baião de quatro toques) a Alice Ruiz (Sem receita), comparsa de Itamar Assumpção. Ou com os tropicalistas históricos Jorge Mautner (Tempo sem tempo) e Zé Celso Martinez Corrêa (Comida e bebida). Não falta ainda a contundência do Soneto do olho do c..., traduzido por Zé Celso e Marcelo Drummond, do poema original de Rimbaud e Verlaine, e a busca do despojamento na litania de Mais simples (''a vida leva e traz/ a vida faz e refaz''). Artifícios de quem destila Pérolas aos poucos, como Wisnik autodefine sua arte em outra magistral composição, parceria com Paulo Neves.