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O chão de Vergara

Quadros do pintor Carlos Vergara remetem ao solo brasileiro

Elvira Vigna

Divulgação

Os quadros de Vergara são confeccionados com pó de carvão e dolomita

Sentado no banco da nova Arte 21 Galeria, o visitante terá a sua volta sinuosidades vagamente coloridas. São os 11 quadros que Carlos Vergara expõe. Nove deles vindos de uma grande retrospectiva patrocinada pelo banco Santander em Porto Alegre e depois em São Paulo. Dois, feitos este ano, são novos. Nenhum dos 11 ainda vistos pelos cariocas, com os quais Vergara convive há 50 anos, comemorados justamente anteontem.

A distância, a impressão é alegre. Amarelos, vermelhos. Vagas ''garrafas'' formadas pelas formas helicoidais, características do artista, ao serem cortadas e postas sobre linhas retas - suas ''mesas''. Ao chegar perto, a coisa muda. O fundo é negro, áspero. É dele que saem, quebradas, imperfeitas, as cores. Pó de carvão, o suporte que aparece aqui, ali. E dolomita. Dolomita é um calcáreo usado para corrigir a acidez da terra. De um branco transparente, jogado às camadas sobre o resto, dá profundidade, uma terceira dimensão.

O resto, no caso, é uma monotipia. É interessante a escolha dessa técnica. Monotipia faz aparecer o reverso, um avesso não visto na matriz que lhe deu origem, mas que é ainda assim a matriz, um sudário da matriz. A monotipia de Vergara é feita com lona de caminhão dobrada, jogada. Nos Zero zero e Zero zero II há galhos secos, marcas de pé calçado em bota pesada. Acho que vi um cocô de passarinho.

E agora voltamos ao Vergara. Nascido em 1941 em Santa Maria, Vergara tem e sempre teve essa relação de artesão, manual. Ele constrói sua obra. Com as mãos. É físico. Já fez jóias (expostas na Bienal de São Paulo de 1963), cenografia (para Plínio Marcos, em 1968). É sócio de uma empresa de arquitetura. Para criar, viaja, pega a terra do chão, usa pigmentos naturais que transporta para o ateliê de Santa Teresa, seu ambiente controlado.

Nunca definiram muito bem a que vertente, escola, pertenceria. Tentaram o rótulo de neofigurativo (lembram das ''garrafas'' citadas acima?). Foram para o abstracionismo sensível (as cores sinuosas). Chegaram ao conceitual.

Conceito existe, com certeza. Mais até. Quase uma ideologia de amor à terra. Que terra? A nossa.

Impossível não lembrar de um Brasil profundo, de caminhão parado em bar de beira de estrada. E é essa a terra que esse gaúcho do interior ''corrige''. Para que dela nasçam as sugestões de volume do Calor IV, a solidão do Sem título 6. Vergara joga uma pesquisa em novos materiais para que brote um barroco que está ali (e em nós), dormente como uma semente, desde sempre.

''Corrige'' a terra e ''corrige'' a vida para que o vivido não durma. A mó de São Miguel é a impressão em cor da pedra talhada pelos guaranis do século 17 nas ruínas de São Miguel de seu Rio Grande do Sul natal. Em São Miguel das Missões há fantasmas dos missionários, com suas túnicas pesadas. Vergara voltou lá ano passado. Os outros quadros se referem ao forno de sua usina de pigmentos, como em Piracicaba e Calor IV. Ou às viagens que fez, como a do projeto Expedição Langsdorff, patrocinada pelo Discovery Channel. Vergara e outros artistas brasileiros e alemães percorreram alguns dos caminhos trilhados pelo Barão Georg Heinrich von Langsdorff no século 19. É forte essa experiência: Langsdorff morreu amnésico depois de documentar a terra brasileira em 368 aquarelas e desenhos.

Carlos Vergara. Arte 21 Galeria. Shopping Cassino Atlântico. De segunda a sexta, das 14h às 20h, e aos sábados das 12h às 16h.


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[12/NOV/2004]


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