E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Especiais
Fashion Rio 2004
Chico Buarque

Colunistas

Pedro, o tempo e os espelhos do Lamas


Pedro estava comendo um franguinho à francesa entre os reflexos do Lamas. Antes que pudesse pedir ao garçom que lhe guardasse as sobras numa quentinha, irrompeu no salão um senhor muito alto - tão alto que teve que ficar de gatinhas para ultrapassar o túnel que dá caminho ao restaurante. Esse imponente senhor que vestia branco dos pés à cabeça (literalmente, grisalho que era), ocupou uma mesa no corredor e pediu três águas minerais, assim, de uma vez só. Vamos chamá-lo Dr. Olavo. Acendeu um cigarro mentolado e acenou para Pedro. O jovem fez-se de desentendido, olhou para os lados e apontou para seu próprio peito, como dizendo: ''é comigo?''. Era.

O Dr. sentou-se à frente de Pedro e foi direto. ''Vê toda essa gente, meu filho?'' O rapaz, estupefato, crispou a testa e nada respondeu. Olavo continuou. ''Eles só nasceram, foram educados, arrumaram empregos, saíram de casa hoje de manhã para trabalhar, sentiram fome e tiveram a idéia de almoçar aqui no Lamas para que você olhasse para eles agora.'' Pedro não fazia idéia do que significava aquilo. Mas o homem não deu pausa. ''E o seu prato? Estava de agrado? Pois então! O garçom e o cozinheiro legitimaram suas vidas no momento em que lhe prepararam e serviram o frango. O rapaz entende isso? Eu, por exemplo, só existo na medida em que chego ao Lamas, entro no seu campo visual e faço você gastar um ou dois pensamentos sobre mim.''

O rapaz, assim como o leitor da crônica, não entendeu chongas. Veio o garçom e perguntou, com a intimidade que os clientes antigos têm, se o Dr. gostaria de alguma coisa para comer. Fez duas recomendações, ouviu o pedido e foi-se em passos de debutante. O Dr. continuou. ''Há quem diga que é impossível perceber e mensurar todos os fenômenos do universo, encontrar o propósito oculto em cada um deles e colocá-los em ordem, Pedro. Alguns colegas chegam a pensar que o homem jamais poderá alcançar essa compreensão. Mas eu refuto tudo isso, meu filho! Eu tenho as explicações para você.''

Dr. Olavo pediu mais três garrafinhas d'água (bebeu as outras durante os últimos dois parágrafos) e três torradas Petrópolis para forrar a pança enquanto o pedido não chegava. Pedro aproveitou a pausa para perguntar o porquê do papo, e justamente com ele, que tinha mais o que fazer: supermercado e mulher - nessa ordem. O Dr. interrompeu, vaticinando. ''Porque é a minha missão. Eu acabo aqui. Eu só existo para esse momento. É o ápice da minha existência, Pedro. Depois que você deixar o Lamas, eu vou sumir. Pedro, eu vou te contar um segredo: só existe o que você vê.''

Tomou fôlego entre goles d'água e continuou. ''Durante muito tempo os astrônomos não entenderam por que a noite é escura, Pedro. Se imaginarmos um espaço infinito, preenchido uniformemente por estrelas, haveria uma em qualquer direção que você olhasse, fazendo o céu brilhar dia e noite. No entanto, o céu é escuro à noite, Pedro! Por quê? Eles dizem que a noite é escura porque o universo tem uma idade finita, e a velocidade da luz também é finita. Como o universo não existiu por todo o sempre, a luz das estrelas mais distantes não teve tempo de chegar até você. As estrelas que estão fora do seu alcance não brilham no céu, Pedro. Mas na verdade elas não existem. Só existe o que você pode ver. A noite é escura porque você não vê todas as estrelas. Porque elas nascem e morrem a partir de você. Porque o universo nasceu e vai morrer, assim que você fechar os olhos e não os abrir mais.''

Dr. Olavo levantou-se e, atrapalhado com toda a sua estatura, misturou seu corpo pesado ao reflexo dos espelhos do Lamas. Desapareceu num átimo. Pedro pediu a conta (teve que pagar os pedidos do Dr.) e, aborrecido com o tempo perdido, ganhou a rua. O que Pedro não percebeu foi que, no momento em que pisou fora do restaurante, as cadeiras, mesas, toalhas, espelhos, garçons e clientes imergiram num caldo escuro. À medida que Pedro foi andando pela Marquês de Abrantes, os carros, prédios e calçamento atrás de si também desapareceram. Quando o cronista deixar de contar a história de Pedro no Lamas, também desaparecerá. Assim como os leitores da crônica, quando se esquecerem de Pedro. E assim como o jornal, quando publicar e distribuir todos os exemplares deste sábado. Até que Pedro volte novamente a olhar para nós.


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[09/OUT/2004]


   Home > Caderno B


Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | JB Barra | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem
Acelera | Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas



Promoções

Serviços




Área do leitor



Assinaturas


Rio:
(21) 2323-1000

Demais estados:
0800-707-2000

Horário de atendimento:

• Segunda à sexta-feira de 6h30 às 18h

• Sábados, domingos e feriados de 7h às 14h