Para o fotógrafo Ernest Haas, já falecido, na fotografia de Henri, ninguém é pobre, mas todos são simples: a dignidade do homem não se perde para esse sociólogo lírico.
Em 1994, aos 86 anos, Henri Cartier-Bresson gravou em vídeo uma longa entrevista para a fotógrafa Sarah Moon. Na versão editada no formato de um programa de televisão de 38 minutos, pela Take Five/Paris/França, vemos surgir na parte final, numa lenta panorâmica para a direita, como uma epígrafe de conclusão, uma frase manuscrita e assinada por Cartier-Bresson: ''Photographier c'est mettre sur la même ligne de mire la tête, l'oeil et le coeur'' (traduzindo: fotografar é colocar na mesma alça de mira a cabeça, o olho e o coração).
Quando nos aproximamos da fotografia, da vida fotográfica e dos escritos de Henri Cartier-Bresson, percebemos a importância da sua frase e o seu sentido como o resumo de uma experiência. Por olho devemos entender uma organização rigorosa do espaço e, no seu caso, a impressão integral do negativo, uma das características centrais de sua fotografia. Imprimir para o papel fotográfico a totalidade do negativo 35 mm significa para Henri Cartier-Bresson um respeito absoluto pelas medidas renascentistas.
Quando Oskar Barnack, mecânico da empresa ótica Leitz Weztlar/Alemanha, inventou a câmera 35mm em 1913, aceitando um pedido da indústria cinematográfica alemã, idealizou, dentro do filme cinematográfico perfurado pelos dois lados com 35 mm de largura, um retângulo com 2,4 por 3,6 cm, múltiplo do triângulo egípcio de doze nós e parte integrante da divina proporção de Leonardo Da Vinci ( a divina proporção é a conjugação de duas figuras geométricas, o retângulo áureo e o triângulo egípcio, capazes de representar matemática e geometricamente todas as formas encontradas na natureza). Como o olho do fotógrafo é a lente da sua máquina, ver como um renascentista significa ter uma lente que capture a visão de um olho humano. Ao idealizar a divina proporção, Leonardo Da Vinci partiu desta visão, revolucionando a representação pictórica por apresentar figuras nas proporções que estamos habituados a ver. Cartier-Bresson produziu imagens próximas de nós por imprimir a totalidade do negativo, concebido como parte da divina proporção, e capturadas com o grau de visão de um olho humano.
Em segundo lugar, para Henri Cartier-Bresson o instante de captura representa o momento mágico da fotografia. É a fração de segundo entre o desenvolvimento da ação e a confirmação da captura da imagem: o clic fotográfico. A busca por essa fração na realização do clic significa, para o fotógrafo, a busca por algo superior, mágico e, até certo ponto, febril. Por ser dependente do tempo, esse ato de captura se transforma numa espera intensa, numa busca pelo ritmo e pelo tempo certo do desenrolar da ação. A mágica dessa caça se encontra no ''orgasmo'' de ter acertado, de estar no tempo certo e de ter organizado na fração do segundo o espaço, as perspectivas, as proporções, o domínio da luz e a formação dos volumes. Assim, por coração devemos entender a essência da fotografia de Cartier-Bresson, qual seja: o seu instante decisivo. Para ele, a fotografia era simplesmente uma luta com paixão e angústia contra o tempo.
Imprimir a totalidade do negativo e procurar pelo instante mágico e decisivo, dependia, para Henri Cartier-Bresson, do que ele classificava como a justeza de propósitos. Por cabeça devemos então, e em terceiro lugar, compreender que não há uma visão neutra e isenta. A aparente neutralidade física do fotógrafo perante a cena e o objeto não deve estar desvinculada do necessário engajamento a uma idéia e a uma causa. A fotografia é o resultado de um conjunto de definições políticas e ideológicas, e a sua feitura será, portanto, dependente da formação familiar e escolar, social, histórica e política do fotógrafo.
Por último, Cartier-Bresson nos indica que a fotografia tem uma mira e, portanto, um alvo a ser acertado. Ao transformar o objeto num alvo, o fotógrafo deve, por sua vez, transformar a sua máquina num arco e o seu clic numa flecha. Acertar o alvo significa colocar na mesma alça de mira uma representação gráfica sem distorções, ou renascentista, por ser idealizada a partir do ângulo de visão de um olho humano, e ainda, pensar no alvo como algo preso ao tempo. A flecha só é disparada quando o alvo e o arqueiro se unem com um mesmo propósito: acertar e ser acertado.
Ser bressoniano, portanto, é perceber que não há neutralidade emocional na fotografia. O seu fazer significa um engajamento e o fotógrafo, invariavelmente, deverá escolher e optar por um lado na guerra cotidiana da vida. Como a fotografia se resume na organização rigorosa do espaço dentro de um visor, uma imagem ''feita para o futuro'' deverá ser sempre captada na perspectiva de um ângulo de visão ''natural'', representando as formas encontradas na natureza e que são percebidas pelo nosso olhar. Não há ''meditação'' na fotografia, tal como no desenho, quando apagamos o que não nos agrada, mas somente uma intenção de captar o momento e organizar o espaço. O fotógrafo estará sempre lutando contra o tempo, pois o instante é único e movido pelo acaso. Por isso, será sempre objetivo.