Bresson, a precisão do instantâneo

Em quase 70 anos de fotografia, Cartier-Bresson ensinou que a fotografar é lutar com o tempo e capturar o acaso

Zeca Linhares

[07/AGO/2004]

Em 22 de agosto, Henri Cartier-Bresson, que morreu segunda-feira na França, completaria 96 anos de vida, dos quais quase 70 foram dedicados à fotografia, ou ao ''foto jornalismo de imprensa'', como gostava de definir. De sólida formação burguesa, e contrariando a vontade de seu pai, que gostaria que fizesse carreira na indústria têxtil, optou pela relativa tradição visual familiar se aproximando do seu tio Louis, pintor com o nome inscrito no monumento aos mortos da Escola de Belas Artes. A admiração pelo tio duraria toda a vida e o levaria, muito cedo e jovem, a descobrir a sua vocação: viver num mundo com cheiro de tintas e de pincéis.

Artista e amigo de todos os artistas de vanguarda da época, como André Bréton, mentor do grupo surrealista, dos poetas André Pieyre de Mandiargues e Artaud, dos pintores Matisse, Pierre Bonnard e Max Ernest, entre outros, Cartier-Bresson descobriu, em 1932, a máquina fotográfica Leica, um pequeno engenho mecânico, silencioso, todo acionado por engrenagens, preciso como um relógio, compacto o suficiente para caber num bolso de paletó, que fotografava continuamente 20, 30 ou 40 imagens e não dependia de chapas individuais, complexas de carregar e lentas para a realização de instantâneos.

Nunca um fotógrafo foi tão associado a uma máquina fotográfica quanto Bresson e a sua Leica. Assim como o Ford T, que deu início à verdadeira indústria automobilística com a idéia da linha de montagem, ou ainda, as rotativas, que permitiram a aceleração da produção de jornais e periódicos, a máquina fotográfica Leica marca o início de uma nova era na fotografia, provocando mudanças radicais na arte e na maneira de fotografar. A fotografia deixou de ser prioritariamente o espaço do retrato e ganhou as ruas, atrás do instantâneo e do fato. Deixou de ser um produto final para ser um suporte desse produto final. Perdeu peso e o tripé e se transformou numa verdadeira caneta de imagens, com o poder de contar uma estória, narrar um acontecimento e guardar um momento.

Porém, foi no atelier de André Lhote, pintor e teórico da composição, que Bresson desenvolveu o seu sistema gráfico, como declarou para Montier em 1995: ''ele (Lhote) me ensinou a ler e a escrever'', ou seja, a fotografar. Conheceu Paris e a Europa na companhia desses artistas múltiplos, como um andarilho sem uma residência fixa, silencioso com a sua Leica e registrando sem parar.

Ao longo de sua vida fotográfica, aprendemos com ele a respeitar os sujeitos fotografados e a linha de equilíbrio entre o estilo e os elementos de linguagem. Nessa época, entre 1932 e 1935, quando descobre a Leica, declara ter encontrado o instrumento perfeito para o desenho acelerado e o exercício do olhar sobre a vida.

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