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Muitos amores
Livros com inéditos de Hélio Pellegrino revelam em poesia, psicanálise, política e religião a constituição do intelectual humanista
Cecilia Giannetti
[25/JUL/2004]
Não espanta o fato de Hélio Pellegrino nunca ter tomado a iniciativa de organizar seus poemas, ensaios e artigos em livros. Como ele mesmo definiu, era um ''homem de muitos amores'' - isto é, de muitos interesses - e, ''para tão longos amores, tão curta é a vida''. O poeta e psicanalista mineiro dedicava-se a produzir para jornais e revistas, escrevia em cadernos de anotações e encarnava o ''homem-comício'', como o chamava o historiador Francisco Iglésias, falando com as mãos e brilhando como orador quando um assunto lhe despertava a paixão. Era bibliófobo, como definiu Otto Lara Resende, que formava com Hélio, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino o quarteto de mineiros inseparável no imaginário da literatura brasileira.
''Sou um homem disperso pela imprensa desde sempre'', afirmou Hélio, certa vez, em entrevista à Rádio JB. Não viveu o suficiente para mudar a situação: faleceu em 1988, aos 64 anos, deixando noutras mãos a tarefa de reunir seus textos. Em 2004, Hélio completaria 80 anos e a data é marcada por dois lançamentos: Arquivinho Hélio Pellegrino (Bem-Te-Vi) e Lucidez embriagada (Planeta), que trazem textos inéditos e outros publicados na imprensa que, até então, permaneciam nos acervos da Casa de Rui Barbosa (Ministério da Cultura, no Rio de Janeiro) - onde haviam sido depositados pelo psicanalista Pedro Pellegrino, filho de Hélio -, e de Otto Lara Resende no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.
Assim como muitos leitores de sua idade, Antonia Pellegrino, 24 anos, desconhecia esse material. Em janeiro de 2003, decidiu pesquisar os acervos e passou cerca de um ano lendo e relendo o avô. A partir deste trabalho, organizou Lucidez embriagada.
- Em vários momentos, reconheci nas palavras dele coisas fundamentais da minha educação e que moldaram a minha personalidade, o meu jeito de pensar o mundo, de me colocar nele. Coisas que eu não sabia que tinham sido passadas de pai pra filho, e daí pra mim - conta Antonia, cujos gestos largos com as mãos enquanto fala não negam sua origem.
De acordo com Antonia, o critério de seleção dos textos foi pensado a partir dos temas mais recorrentes. A divisão insinua um encadeamento de questões primordiais para Hélio Pellegrino: o primeiro capítulo, Hélio, inclui uma entrevista concedida à escritora Clarice Lispector e um ensaio sobre si mesmo. Apesar de as três partes do livro contarem com bilhetes, cartas e poemas, esta é a mais autobiográfica. No segundo capítulo, Outro, artigos sobre Nelson Rodrigues, Mário de Andrade, Che Guevara e Alceu Amoroso Lima. Fala também de sua analista, Iracy Doyle, e de Lacan. Encontro é a terceira parte, em que Hélio discute política e joga sua eloqüência contra a ditadura; acabaria preso após o AI-5 como líder comunista, dividindo cela com o jornalista Zuenir Ventura, que assina a orelha do livro. Trata de psicanálise e das possibilidades do que considerava o principal trabalho do ''homem que merece seu nome'': o encontro com o outro.
O lançamento da Bem-Te-Vi, segundo volume da Coleção Arquivinhos (o primeiro homenageou os 90 anos de Vinicius de Moraes em 2002), por sua vez, agrega uma biografia escrita pelo jornalista e editor Paulo Roberto Pires, autor de Hélio Pellegrino - A paixão indignada, publicado em 1998 na série Perfis do Rio (RioArte/Relume-Dumará) e a cronologia com toques literários escrita por Antonia. Do baú de Hélio, há oito poemas extraídos de O livro da amiga, enviados pelo autor a Otto Lara Resende em 1947. Inéditos, os versos foram inspirados em Maria Urbana Pentagna Guimarães, mulher da alta sociedade de Belo Horizonte com quem Hélio foi casado por mais de 20 anos e teve sete filhos.
O Arquivinho traz outros inéditos, como uma carta do escritor paulista Mário de Andrade, de 1944, para o futuro poeta-psicanalista (que, na época, ainda era um estudante de medicina) e uma de Hélio, datada de outubro de 1967, para Otto. Completam o livro A ressurreição da carne, extraído de Hélio Pellegrino A-Deus, organizado por João Carlos Moura em 1988, e Abençoada esquizofrenia, sobre Fernando Diniz, paciente da psiquiatra Nise da Silveira e artista plástico.
A radiografia apresentada pelos dois livros mostra literatura, psicanálise, política e religião como obsessões indissociáveis em Hélio. Em vez de cindi-lo, esses interesses difíceis de serem conciliados definiram um intelectual.
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