Mesmo partindo da dúvida para a loucura e transformando cada passo em um jogo, um labirinto, em descrença e mentira, Gregório permanece em seu ponto de partida, igualmente sem respostas, mergulhado numa absoluta negação. Esse texto paralisante, que experimenta as oscilações de um pensamento sombrio, é visto cenicamente por Antunes Filho no mesmo registro desiludido do autor. A luz de velas e a iluminação baixa, os figurinos pretos, de juízes e religiosos de uma soturna Europa Central, e os bonecos ambientam a sala semi-obscura, onde os atores cumprem ritual de interpretação com a marca de Antunes Filho.
A inversão de gênero - Gregório é interpretado pela atriz Arieta Corrêa -, a figura dos bonecos se confundindo com o elenco e os movimentos e ruídos produzidos por blocos de atores parecerão familiares na gramática cênica do diretor.
A secura e a aridez de um texto que expõe um quadro aniquilante, de modo tão pouco condescendente com as técnicas dramatúrgicas, se transformam numa encenação que utiliza os elementos essenciais para acentuar um mundo sufocante. O espetáculo não dá tréguas no seu racionalismo e em sua dialética cênica, propondo ao espectador argumentos em cascata diante dos quais a única emoção que provoca é o seu abissal pessimismo.