CACÁ DIEGUES
Cineasta
Dirigiu Quando o carnaval chegar, em que Chico é ator. Diz que o artista é um dos brasileiros mais íntegros que já conheceu. Músicas favoritas? Joana francesa, Morro Dois Irmãos e Quem te viu, quem te vê. Livro? Budapeste. “Pena que ele esteja investindo tanto na produção literária. Sinto falta de não ter um disco novo do Chico a cada ano”. Cacá lembra Chico & Caetano: “Aquele foi o melhor programa musical da TV nos anos 80”. E, analisando o sucesso e a timidez do artista, define Chico assim: “Ele é um homem famoso em busca do anonimato”.
ANTÔNIO ADOLFO
Pianista, compositor
Elogia a simplicidade de A banda, gosta também da Ópera do malandro. Acha que Chico merecia, como presente, um “Brasil mais justo”. Há dois meses, jantava na Capricciosa com um produtor japonês, quando Chico entrou. O nipônico ficou histérico, uma tietagem só. Adolfo tocou com Chico em discos como Sinal fechado.
MARLENE
Cantora
Interpreta Uma canção desnaturada, na Ópera. Não vê o artista há tempos e lamenta: “Ele e Marieta iam às vezes à minha casa, mas desde a separação não o vi mais”. Marlene abriu o coração ao JB: “Chico não tem idéia do que eu sinto por ele. Acho lindos aqueles olhos de gato. Quem sabe ele me procura depois desta entrevista”. De presente pelos 60 anos, daria “um carinho no coração dele, mas nada de sexo, não”.
LEONEL KAZ
Jornalista, professor
É autor do livro Brasil: rito e ritmo, repleto de fotos da MPB. A primeira é de Chico, logo no sumário. “Tenho o maior ciúme, por causa das mulheres, que o adoram. De vez em quando o encontro no Celeiro, ali no Leblon, mas mantenho uma distância regulamentar de admirador”. Leonel Kaz não o vê como “gênio”, nem gosta da palavra. Fã incondicional é mesmo do pai de Chico, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda.
HELENA SEVERO
Presidente da Fundação Teatro Municipal
Fã de Beatriz, de Edu e Chico. “Ele sofreu com a ditadura, foi censurado, apoiou o regime de Cuba, mas nunca transformou isso em marketing”. Helena acha Chico bonito: “A beleza é um conjunto de circunstâncias”. Prefere as canções aos livros. E deseja que Chico tenha ainda outros netos. “Sei que ele os ama”.
FERREIRA GULLAR
Poeta, escritor
“Chico é uma pessoa ética, contra a qual ninguém pode dizer nada”, diz o autor do Poema sujo. Gullar gosta de Construção e Roda viva. Daria para Chico neste aniversário de 60 anos alguns desenhos e colagens, de lavra própria. Os dois eram mais próximos nos anos 70. Quando o poeta voltou de seu auto-exílio, Chico e Marieta lhe prepararam um almoço de boas-vindas.
EDSON SOARES
Porteiro
Trabalha no prédio colado no de Chico, numa sossegada rua do Leblon: “Sempre o vejo passar por aqui, quando sai para caminhar”. Tem 30 anos, é fã de Roberto Carlos, Caetano Veloso e Daniela Mercury. Não tem intimidade com músicas como Vai passar e Cálice. Acha a voz do vizinho parecida com a de Tom Jobim. O JB tentou ouvir o porteiro do prédio de Chico, mas ele não quis falar. Recomendação do síndico.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Ex-presidente do Brasil
Daria dois presentes ao artista: um violão e uma bola de futebol. Chico já fez jingles para FH. FH já criticou Chico. Em 1998, disse que sua obra estaria mais voltada para a elite, enquanto Caetano e Gil seriam, sim, revolucionários. Ao JB, há duas semanas, FH observou que Chico é unanimidade porque “é discreto, não
provoca sentimentos competitivos”. Melhores canções: Paratodos e Futuros amantes. Sobre a postura política de Chico, o ex-presidente da República afirma que o artista “sempre foi coerente”.
HERBERT VIANNA
Cantor, compositor
Cita a música Construção como obra de referência. Passou infância e adolescência sendo fã de Chico. Depois fundou uma banda de rock, virou artista, ficou famoso e de repente estava jogando futebol com o ídolo. “Foi uma celebração”. Herbert, que em vários momentos da conversa se referiu à “grande energia” da obra buarquiana, deseja “mais uns 60 anos de vida” ao artista.
LOBÃO
Cantor, compositor
Não gosta da obra de Chico. Entre amigos, costuma imitá-lo em tom de deboche. Fala que MPB em geral é “aquela coisa de badabauêra/ badabauá”. Talvez por isso mesmo, por ser visto como crítico mordaz, esteja cansado de falar sobre o assunto. Ao telefone, foi ríspido com a reportagem do JB: “Eu não quero falar. Mas dê a ele os meus parabéns pelos 60 anos”. E desligou.
LEANDRO KONDER
Filósofo, professor, colunista do Caderno B
“Sou um fanzoca histérico dos romances do Chico”, diz o filósofo. Ao comentar sobre a timidez do artista, Konder se lembra de uma reunião na casa de Chico, nos anos 80, época de Miro Teixeira candidato ao governo do estado: “Ele já não estava gostando muito do rumo da discussão, e ainda tinha de ficar escapando do assédio de uma moça”. Ele cita Apesar de você como a música mais marcante: “Naquela época eu precisava ouvir aquilo, que iríamos dar a volta por cima”. Leandro Konder daria o DVD de Milagre em Milão, de De Sica, de presente.
MARCELO YUKA
Baterista, compositor
“Sou fã, mas não acho que ele seja um gênio”, diz. Yuka observa ainda que Chico não atinge as camadas mais pobres da população. E daria, como presente, uma viagem ao Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo, local de duras disputas pela posse de terra e de ação intensa do MST. O objetivo seria despertar Chico para os grandes problemas nacionais. O ex-Rappa não deve conhecer Assentamento e Levantados do chão. “Nossos ícones dos anos 70 hoje parecem cansados”, diz Yuka, e cita Marcelo Camelo como o compositor da atualidade mais influenciado por Chico.
MINO CARTA
Jornalista e escritor
Um bom disco de Noel e uma imagem de São Francisco, como na letra de A Rita, seriam os presentes. Entre as suas músicas favoritas estão João e Maria, Pedro pedreiro e Rosa dos ventos. Mino Carta é fã, mas não se interessa pelo Chico escritor: “Acho que ele não precisava ter escrito Estorvo”.
CLÁUDIO GONÇALVES
Frentista
Tem 31 anos e não é íntimo da obra do artista. Cláudio conhece hits como Vai passar e A banda, mas credita a sua autoria a “não sei quem de Hollanda”. Não tem nenhum disco de Chico, mesmo assim diz gostar do cantor. É fã da banda Los Hermanos.
CARLINHOS LYRA
Cantor, compositor
Parceiro em só uma canção, Essa passou, Carlinhos afirma que Chico Buarque é tão bom quanto Cole Porter. Gosta mais da fase antiga e diz: “Chico e eu não temos produzido tanto por causa do mesmo mal. É que não existe mais mercado para a música boa”. E prossegue o seu discurso pró-estética: “Chico não é voltado para a elite, é voltado para o bom gosto. Se você pegar, no meio do povo, jovens com bom gosto, aposto que eles adoram estas canções”.
IVAN JUNQUEIRA
Poeta, escritor, imortal
O presidente da ABL faz restrições à literatura de Chico: “É um escritor menor, ainda mais se compararmos com o compositor”. Diz que é imprevisível afirmar se Chico um dia será imortal: “Esta casa é cheia de caprichos”. Define o artista como “o grande herdeiro de Noel Rosa e Ismael Silva”.
JUCA CHAVES
Cantor, compositor, humorista
Tem como música favorita A banda, gosta de outras tantas, mas afirma que o grande compositor brasileiro, maior que Chico, maior que todos, é Luiz Vieira, autor de Menino passarinho. Sobre o Chico escritor, responde com ironia: “Livro, passou dos 50, todo mundo faz”. Aproveita para contar uma piada. “Estavam Chico e Vinicius de Moraes, boêmios inveterados, num automóvel. Vinicius pede: pára o carro que eu vou descer. E Chico diz: não desce, não, porque é você quem está dirigindo”.
NELSON MOTTA
Jornalista, compositor, produtor musical
Acredita que Futuros amantes seja uma obra-prima, “do tipo jobiniana”, e diz que Construção, num certo sentido, é heavy-metal. Os dois são amigos há décadas e as filhas os uniram ainda mais. “Todos os sábados fazíamos um pacto. Eu levava as garotas para as festas e o Chico, que é mais noturno, é quem ia buscá-las”. Se Chico tem sucessor? “Não. Só se fosse uma mistura de três Marcelos (Yuka, Camelo, D2) com Moska e Francisco Bosco”. Se pudesse, Nelsinho compraria o time do Real Madrid para Chico pôr nas Laranjeiras.
LUIZ AYRÃO
Cantor, compositor
O sambista, autor de Meu caro amigo Chico, canção inspirada em Meu caro amigo, coloca a seguinte questão: “Chico teve sorte de nascer numa família rica. Não precisava da música para sobreviver e se deu ao luxo de ousar. Já eu e tantos outros, como Tim Maia e Roberto Carlos, tivemos que optar por uma música comercial. Só fazíamos poesia depois da sexta faixa do LP”. Daria a Chico uma flâmula do Flu.
BETH CARVALHO
Cantora
A sambista gravou O meu guri em 1990: “Até achavam que eu era a mãe do tal guri”. Diz que Chico canta bem, “mas não tem samba no pé”. Leu Estorvo, gostou. Acha que Chico é um dos maiores escritores do mundo. Observa que o artista parece sempre bonito, “não envelhece”. Daria de presente um CD com músicas de Nelson Cavaquinho.
FERNANDA MONTENEGRO
Atriz
Atuou em Suburbano coração, peça de Naum Alves de Souza, com músicas de Chico. “Ele tem olhos irresistíveis e bela dentadura branca. Às vezes a gente olha pra ele e ele, tímido, finge que não está nos vendo”. A atriz é fã do livro Benjamim. O que daria de presente? “Ficaria diante dele e diria: quero que você viva mais 60 anos. Mas o faria discretamente, para não perturbá-lo”.
EDUARDO BUENO
Jornalista, escritor
Autor de A viagem do descobrimento, Bueno tem 80 discos de Bob Dylan, mas nenhum de Chico Buarque. “Gosto dele, mas prefiro o pai. Sérgio Buarque de Hollanda é o meu historiador favorito. Como não posso mais beijar os pés de Sérgio, beijo as mãos de Chico. Mas tenho uma ligação maior com Caetano e Gil. Minha mulher vai ficar chateada quando ler isso. Ela é fã de Chico”.
ADRIANA DA SILVA
Caixa de supermercado
Gosta de O meu guri, também sabe de cor A banda. Aos 30 anos, confessa não ter discos de Chico em casa: “Se eu tiver alguma música dele em CD, só se for no meio de trilha de novela”. Possui vários discos de Caetano (cantarola Você não me ensinou a te esquecer) e idolatra Adriana Calcanhotto.
CHACAL
Poeta
Daria para Chico um chaveiro do Flu. Gosta de Beatriz e Paratodos. “As letras de Chico têm mais a ver com a poesia escrita. As de Caetano, com a poesia falada”, analisa o poeta, que segue o mote e diz: “Chico se mantém a uma certa distância da mídia, uma coisa olímpica, que o favorece, que cria uma imagem. Já Caetano e Gil são muito preocupados com a mídia. Se fossem comodistas, talvez fossem unanimidades também”. O poeta vê assim os dois mais conhecidos livros de Chico: “Estorvo é um labirinto; Budapeste tem uma estrutura mais simples”.
WASHINGTON OLIVETTO
Publicitário, escritor
Vota em Samba e amor e As vitrines. Usa uma lógica típica da publicidade para comentar a beleza do artista: “Milhões de mulheres não podem estar erradas. Ele deve ser bonito mesmo”. Conta que certa vez marcou um almoço no Antiquarius para pedir uma canção que usaria num comercial. Levou um não. Daria a Chico, de 60 anos, uma camisa do Corinthians. “Ou uma fita com todos os gols do Pagão. Aliás, isso podia servir de sugestão para as emissoras de televisão a cabo. Deixa como sugestão aí”.
PAULINHO DA VIOLA
Cantor, compositor
O depoimento do sambista foi, na verdade, um não-depoimento. Ele disse, ao telefone: “Eu não falo mais com a imprensa”. Não aceitou o argumento de que era para um caderno especial sobre os 60 anos de Chico. “Eu sei, eu sei. Você me desculpa, mas eu não dou mais depoimento algum”. Paulinho é autor de Sinal fechado, que Chico gravou em 1974, quando estava muito visado pela censura e preferia cantar música dos outros.
MUNIZ SODRÉ
Professor, escritor
“Chico é um sujeito de esquerda, mas que mantém atitude discreta”, diz. “Só li Estorvo até a página 10, me enchi logo. Também não gosto muito dele cantando, acho a voz anasalada, prefiro o João Bosco”, completa. Sodré às vezes critica, mas é fã: “Votaria nele para membro da ABL”.
AGNALDO TIMÓTEO
Cantor, compositor
Gravou Olhos nos olhos, de Chico. “Não adiantou nada, pois Agnaldo Timóteo não toca nas FMs”, diz o cantor, no melhor estilo terceira-pessoa. A melhor música? Pedro pedreiro. “Ela fala de maneira carinhosa sobre o trabalhador brasileiro”. Se Chico é unanimidade? “Não, nem Jesus foi, nem Roberto Carlos é”. Se é bonito? “É, sim. Seus olhos, principalmente. Djavan também já foi, era um negro muito bonito, mas hoje está meio desmantelado”. O presente de Timóteo a Chico seria uma bola, “a oficial da CBF”.
CAZÉ
VJ
O chefe da Megaliga dos VJs Paladinos diz que Chico não toca na MTV porque, afinal de contas, “ele não tem clipe”. “Mas Chico caberia muito bem num projeto acústico. Vou sugerir lá”. Cita um sem-número de canções prediletas, entre elas Feijoada completa, Trocando em miúdos, Pedaço de mim e Apesar de você. Daria um charuto cubano como presente de aniversário.
ZÉLIA DUNCAN
Cantora, compositora
Ela conta que certa vez esbarrou com Chico desavisadamente, e lá estava ele comendo manga em fatias, no balcão de um bar. “Aceita?”, ele perguntou. Claro que sim. “Eu aceitaria até se fosse a coisa que eu mais odeio, que é cebola crua”. Ela acha que Chico é um homem muito bonito, especialmente o seu sorriso, que Zélia define como “quase dentucinho”. Gosta da fase de Feijoada completa e Pedaço de mim. Daria de presente uma simples manga, para retribuir a gentileza.
FERNANDO MENDES
Cantor, compositor
É autor de canções populares, como Cadeira de rodas e Você não me ensinou a te esquecer, esta última reinventada por Caetano Veloso ano passado. Pobre na infância, ele pôde continuar os estudos graças a uma bolsa que ganhou por ter feito a melhor redação, entre seus colegas da aula de português, sobre a música Construção. “Uma das minhas canções favoritas é Valsinha, do Chico e do Vinicius de Moraes, que até tive o prazer de gravar. Adoro músicas que contam historinhas de meninas”, diz o compositor de Menina do subúrbio, Menina
da calçada e do hit
A desconhecida.
ROBERTO D’ÁVILA
Jornalista
“Um presente para o Chico? Bastaria devolver a ele tudo o que já fez de bom para o Brasil”, diz o jornalista, amigo velho, que lembra uma frase de Chico surgida num papo de bar, ainda no tempo dos generais presidentes: “O futebol é a minha terapia contra a repressão”. Ele afirma que Chico é “tudo o que um ser humano gostaria de ser” e aponta a “falsa timidez” como um dos seus traços mais marcantes.
ARNALDO NISKIER
Escritor, imortal
Vota na simplicidade de A banda. “Naquele momento, 1966, eu precisava de uma música assim”. O escritor, dono da cadeira 18 da ABL, diz que Chico não é “mercantilista”. Justifica: “Se fosse, lançaria um livro a cada três meses, e não de seis em seis anos”. Sobre a beleza do colega, Niskier é enfático: “Não faço distinção sobre cara de homem, mas reconheço que ele tem os olhos bonitos. Minha esposa acha que o Chico, em relação à beleza, só perde para mim”.
MAGRO
Cantor, músico, arranjador
Vota em Todo o sentimento, de Chico e Cristóvão Bastos. Mas teve muita dificuldade em escolher uma, pois “gosta de tudo”. Magro é integrante do MPB-4, grupo vocal muito próximo de Chico até o fim dos anos 70. Ele enxerga o show do LP Construção, em 1971, no Canecão, como um “divisor de águas” na música popular brasileira.
CARLOS BARROS
Camelô
Carlos vende quinquilharias no Centro, tem 26 anos e, mesmo muito jovem, canta todos os versos de A banda, marcha lançada por Chico em 1966. “Só comprei um disco do Chico Buarque na vida. E achei muito bom. Ouvi inteirinho e depois dei de presente para um amigo”, conta o vendedor ambulante.
JOSÉ DIRCEU
Chefe da Casa Civil
O ministro põe Chico Buarque no mesmo patamar de Noel Rosa, Tom Jobim, Ary Barroso e Pixinguinha. “Mas com uma vantagem. Ele está presente”, diz. Dirceu teve o primeiro contato com Chico em 1965, ainda no tempo de faculdade. De lá para cá, foram inúmeras as reuniões políticas de que participaram. Diz que daria de presente pelos seus 60 anos “um país mais justo”: “Este é o maior sonho de nossa geração, uma nação onde todos possam compartilhar a justiça e as riquezas deste nosso imenso e querido Brasil”. Mas reconhece que este presente não se dá: “É um presente que, na verdade, se conquista”.
ROBERTO CARLOS
Cantor, compositor
Quais seriam as duas melhores músicas de Chico na opinião do rei? Com a palavra, o próprio Roberto Carlos: “Eu citaria toda a obra de Chico, que é maravilhosa. Mas, se é para citar só duas, A banda e Cotidiano”. Chico esteve uma vez num daqueles especiais de fim de ano da Globo. O rei cantou Carolina. E, os dois juntos, O que será.
GABRIEL, O PENSADOR
Cantor, compositor
O rapper já sampleou Cálice e cita Chico em versos como “vou continuar o idealismo, que parece arte/ e se precisar mudo até de nome, feito o Chico Buarque”. Já bateu bola com o ídolo, diz que ele é “até um bom jogador”, mas que, na música, Chico é “um dos raríssimos craques que nunca mandam na trave, só faz golaço”.
Maria Inês Gurjão
Historiadora, professora
Mestre em História Social, da PUC,sente-se contemplada com as crônicas sobre a mulher, diz que Chico é “referência mítica”, e o defende: “As pessoas reclamam que agora ele só faz escrever. Eu, não. Ele já fez tudo que ninguém fez. Está liberado”. Em vez de dar presente, agradece por Chico representar sua geração.
MARCELO PAIVA
Médico
Pode ser considerado o fã número 1 de Chico Buarque. Tem todos os discos, guarda com carinho programas das antigas montagens de peças (tem um de Roda viva, raríssimo), viaja só para ver shows de Chico e já jogou futebol com o ídolo. “Sou um fã das letras, mais do que das melodias”, diz Marcelo. Certa vez, no People, no Leblon, num show em que Chico fazia apenas uma participação especial, sentou-se na mesa da frente, que era reservada para a família do artista. Percebeu a gafe e chegou para o cantinho.
ADRIANA CALCANHOTTO
Cantora, compositora
Ela admite ter sido bastante influenciada pela obra do autor de Morro Dois Irmãos e Futuros amantes – estas, as suas canções favoritas: “Teve uma época na minha vida em que eu só ouvia Chico”. Respondendo sobre a unanimidade que cerca o nome dele, Adriana entende que Chico nunca tenha se exposto demais. “Ele fica anos em cima do mesmo disco, anos em cima de um livro. É isso, Chico sabe se resguardar”, diz a cantora, oferecendo-lhe de presente um vinho Romanée-Conti.
JoÃo UBALDO RIBEIRO
Escritor
“Como se diz lá na Bahia, os nossos santos se dão bem e nos saudamos até efusivamente, o que não parece ser o forte dele”, diz João Ubaldo, se esquivando de comentar sobre o Chico escritor: “Sigo há décadas o conselho de meu pai, que é não falar de oficial do mesmo ofício”. No fim, confessa: “Tenho inveja dele, porque todo mundo o acha bonito e eu nunca me notabilizei por isso”.
ANA CARLA COZENDEY
Designer
Hoje capista de livros da Ediouro, ela lembra que o primeiro LP que comprou e ouviu, logo após a fase dos discos de histórias infantis, foi de Chico: “Era aquele da samambaia”, diz, referindo-se ao disco de 1978. Vota em Valsa brasileira e O meu guri. Ana Carla é autora de um poema com título singelo, simples, mas certeiro, definitivo: Como eu gosto do Chico Buarque, publicado no jornal alternativo Jabutícias Populares, em 1990.
ROBERTO M. MOURA
Jornalista, professor,doutor em Música
Moura é fã de Chico para além do campo musical ou mesmo do literário. “Chico é o maior intelectual da sua geração”, afirma. “Joguei bola com ele antes até da fundação do Politheama, no futebol de salão do Carioca. Íamos sempre, depois, para a Pizzaria Guanabara, no Leblon”, conta. Encerra dizendo que “ser contemporâneo de Chico Buarque, privando de momentos de sua recatada intimidade, é um presente de Deus”.
SEVERINO BARBOSA
Padeiro, confeiteiro
Trabalha numa padaria do Leblon, tem 54 anos. Não conhece a fundo o trabalho de Chico. Confunde sua voz com as de Moraes Moreira e Ronnie Von. “Meu negócio é música cafona, brega mesmo”. É fã do “conterrâneo” Reginaldo Rossi, de Fernando Mendes e de Roberto Carlos – este, o maior de todos, na sua opinião. “Sou mais acostumado à música do povo”, diz Severino.
RICARDO CRAVO ALBIN
Pesquisador musical
“Tem uma música dele que me persegue por toda a vida: Noite dos mascarados. Sempre que eu estou contente, e sempre que eu jogo o meu contentamento na música, cantarolo esta marcha”, conta Cravo Albin. Ele diz que adoraria dizer essas coisas a Chico e falar mais vezes com ele, toda semana se possível, “mas há um certo respeito reverencial de não incomodá-lo”.
ED MOTTA
Cantor, compositor
Diz ter conhecido a obra de Chico tarde, através de um parceiro musical em comum, o violonista Guinga. Gosta de canções como Vida e Bastidores e diz que Paratodos é um dos melhores discos dos anos 90. “Gravei no songbook uma de suas canções, mas na verdade não gosto de ouvir ninguém cantando coisas do Chico. Prefiro o timbre dele próprio, ele tem um tipo de voz muito peculiar, parece um fagote cantando”.
ClÁUDIO BOTELHO
Ator, diretor teatral
Em 2003, foi responsável, ao lado
do diretor Charles Möeller, pela volta, três décadas depois, do musical Ópera do malandro – ainda em temporada, no Carlos Gomes. Conta que o autor quis ver um ensaio antes da estréia e aprovou quase tudo. Chico só pediu alteração nas versões de O meu amor e Viver de amor. “Chico tem dado muita importância aos livros, e quase não tem lançado discos. Sinto falta do Chico do teatro, que é onde ele pode reunir os dois tipos de obras”, diz.
CHICO ALENCAR
Deputado federal
Político bom de frase, este: “A melhor profissão do mundo é ser assessor de imprensa do Chico, que muitas vezes só luta para que não saia nada nos jornais. Chico é tímido, quase não fala, nem se compara com Caetano e Gil, mas é mais falante que o Milton Nascimento. Shows de Chico são mais raros do que Copa do Mundo. Eu adoro Noite dos mascarados, O que será, Todo o sentimento e Vai passar. Tive uma filha que morreu pequenina. Desde então eu e minha mulher nunca mais conseguimos ouvir Pedaço de mim”.
ALCEU MAIA
Músico
Começou a gravar com Chico no fim dos anos 70. Sua canção favorita é Sem fantasia. “Tenho uma raridade guardada comigo. Um livro de manuscritos dele, do comecinho de carreira, chamado A banda. Não sai da gaveta nem para xerocar. Se alguém quiser, que leve a máquina lá em casa”.
ROSA MARIA BARBOSA DE ARAÚJO
Historiadora
“O Chico é uma unanimidade por várias razões. As principais: pela
dignidade do caráter como cidadão, artista, chefe de família, e pela
coerência social, política e cultural nestes 40 anos de figura pública. O
Chico é patriota sem ser nacionalista”. Rosa diz ainda que ele não tem música “chata ou
medíocre”. “Tudo é bom”, afirma.
MARCELO JANOT
Jornalista, DJ
É um dos pioneiros, no Rio, na valorização da música brasileira em pistas de dança. DJ da festa Brazooka, todas as sextas na Casa da Matriz, há um mês ele vem apresentando também um programa de rádio, na Globo FM: “Chico é ótimo para dançar. Na mesma noite, dá para fazer dois blocos de uma hora, só com músicas do Chico, e ninguém sai do salão. Feijoada completa, Vai passar e Cotidiano são três clássicos das pistas”.
SÉRGIO BRITTO
Ator, diretor de teatro
Ele acompanhou de perto a fase inicial da primeira montagem da Ópera. Tem uma crítica apenas: “O texto é grande demais”. Mesmo assim, afirma com todas as letras: “A Ópera do malandro é a maior partitura musical existente no país. Ninguém jamais compôs um musical com canções deste nível”. Fã de longa data, ele só lamenta a separação de Chico e Marieta, ocorrida em 1996: “São duas pessoas ligadas a Deus, e que só se afastaram porque, realmente, a vida tem lá seus mistérios”.
GUINGA
Violonista, cantor, compositor, dentista
O parceiro em Você, você elogia o estilo do violão de Chico: “É surpreendente”. Conta que ficou “perplexo” quando ouviu pela primeira vez, ao vivo, Chico e ele, a canção Morro Dois Irmãos: “Seus acordes têm uma geometria perfeita”. Daria de presente a Chico um couro novo e, brincalhão, diz que o parceiro agora já pode tomar vacina contra a gripe de graça. Aos 54, Guinga ainda paga.
PITTY
Cantora, compositora
A roqueira canta em shows uma versão arretada de Deus lhe pague. Gosta do “Chico da ditadura”, mas também tem ouvidos para canções como Valsinha e A banda. “Amo Mulheres de Atenas, tenho vontade de chorar quando ouço”, diz.
Ela daria de presente apenas um recado: “Chico, o que você construiu é eterno, sólido. Saiba que os jovens de hoje continuam admirando a sua obra”.
RUY FARIA
Cantor e compositor
Ruy integrou o MPB-4 por quase quatro décadas inteiras, saindo há poucos meses. Lembra com saudade os anos 60 e o início dos 70, quando Chico era considerado uma espécie de “quinto componente”, pois quase sempre faziam shows e tocavam juntos. Tem dificuldade para escolher a canção mais bonita do colega: “Todas elas”.
HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO
Compositor, poeta, produtor
A favorita: Retrato em branco e preto: “E posso confessar, sem pudor, que muitas canções me levam às lágrimas”. O parceiro em Chão de esmeraldas diz que quase não tem relação pessoal com o artista: “Certa vez ensaiamos lá em casa a comissão da Mangueira. Percebi que Chico cochilava no sofá. Eu gostaria de ter tido a honra de acomodá-lo em minha cama, a mesma em que Pixinguinha e Elizeth Cardoso um dia já dormiram. Mas fiquei sem jeito. Isso é a maior prova de nossa falta de intimidade”.
MONIQUE GARDENBERG
Cineasta, produtora cultural
A diretora de Benjamim, baseado no romance de Chico, revela o que o artista falou assim que soube de sua proposta: “Nunca imaginei uma mulher dirigindo este filme”. Ela tem Construção entre as favoritas e daria de presente ao amigo um motorista particular. Por que Chico é unanimidade? “Porque é discreto, correto, carinhoso. Na medida”.
HUGO CARVANA
Ator, cineasta
“Fui o cupido de Chico e Marieta, eu que a apresentei a ele”, afirma Carvana, diretor do filme Vai trabalhar, vagabundo, com trilha de Chico.
É fã de músicas como Construção e Olê, olá. São amigos de longa data: “Bebemos uma história bem razoável de uísque nestes 40 anos”. Quanto ao presente de aniversário, Carvana é mais enfático que os outros entrevistados: “Presente que eu daria, não. Que eu darei. Vou dar um beijo nele”.
FELIPE TABORDA
Designer, produtor cultural
Organizou, em 1999, no Paço, uma exposição em que artistas plásticos mostravam sua visão sobre a obra de Chico, dentro do projeto A imagem do som. “Chico não tem nada de tímido, é apenas reservado, no que faz muito bem”, diz Felipe. Tão “na dele”, Chico nem foi à mostra, ao contrário do que fizeram, por exemplo, Caetano e Gil, quando foram homenageados no mesmo projeto. Felipe lembra que uma das obras de maior impacto foi a peça de louça de Barrão para a canção Maninha.