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Os vários sotaques do riso

Montagens cômicas com temas banais ou picantes ocupam palcos do Rio com todo tipo de humor, do escrachado ao que critica os costumes e a política

Gilberto de Abreu

Divulgação
Giovani Nunes

Giovani Nunes, em Hermanoteu na terra de Godah

Um fenômeno engraçado está tomando conta dos palcos cariocas: a profusão de sotaques cômicos. Tem mineiro ensinando como sobreviver em festas e recepções com bufê escasso, tem baiana querendo virar celebridade, tem brasiliense fazendo graça com o Antigo Testamento. Quer rir? Vá ao teatro!

Em cartaz no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, o mineiro de Belo Horizonte Carlos Nunes encena Manual de sobrevivência em recepções e coquetéis com bufê escasso, um sucesso editorial (dele próprio) que rendeu bons frutos também nos palcos. Na capital mineira, a peça já foi vista por mais de 120 mil pessoas. No Rio, a montagem está engrenando a terceira semana de casa cheia:

- A comédia é uma vocação minha desde sempre. Fiz graça no seminário onde estudei e até quando servi no exército. Há 20 anos faço isso no teatro. Essa é a minha grande estréia no Rio, estava apreensivo no começo, mas agora já relaxei - diz Carlos.

Com uma voz pra lá de metálica, o ator vem fazendo o povo perder a linha ao assistir à epopéia de um penetra de carteirinha em meio a festas e cerimônias.

- Todo mundo já foi penetra numa festa. No palco, as pessoas olham para mim e já têm vontade de rir. Deve ser porque os cariocas adoram o sotaque mineiro - deduz, num acesso de falta de modéstia, o comediante. Ele conta que, com o sucesso da peça, deixou de ser convidado para grande parte dos casamentos. Os anfitriões têm medo de enfrentar suas críticas ao bufê.

- Em compensação, quando vou a algum sou o mais bem servido da festa pelos garçons. Aliás, eles sabem de tudo: quem vai para comer, quem não come nunca, ou ainda quem vai ficar com quem depois da festa.

Outro sucesso popular no seu estado, a Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo, de Brasília, há três anos não se apresentava na cidade. Desde o dia 18, ela encena o seu Hermanoteu na terra de Godah, às terças e quartas, no Teatro Leblon. A temporada vai até 9 de junho.

Com seis atores brasilienses no elenco, o grupo assina texto, direção e cenografia. Segundo a produção, a comédia já foi vista por aproximadamente 500 mil espectadores. A receita do sucesso é o timing da companhia, a profusão de cacos a cada apresentação e a capacidade de se reinventar.

- Nosso texto é muito orgânico, vai mudando sempre. Estamos constantemente restaurando as peças, descartando piadas que perdem a graça com o tempo e lançando outras em seus lugares - diz Jovane Nunes, um dos integrantes do grupo.

O mote da atual temporada é a saga de Cristo pelos domínios romanos entre pestes, bárbaros e deuses pagãos. E sabe de quem é a voz de Deus? De Chico Anysio.

Nem só de sátiras e histórias bíblicas é feito o currículo da companhia brasiliense, que na base da criação coletiva até filmes policiais já encenou. A companhia conquistou aplausos de público pela primeira vez em 1998, com Sexo - A comédia, que a trouxe ao Rio em 1998. Como em toda brincadeira há um fundo de verdade, com a Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo não poderia ser diferente.

- Nosso trabalho é uma crítica intensa aos valores sociais. O sucesso é resultado de um empenho que não se resume a falar bobagens engraçadas - diz o ator Adriano Siri.

Uma companhia de Brasília, afinal, não poderia deixar de falar em política. Foi este o título de uma montagem de 2001, que recebeu rasgados elogios do humorista Millôr Fernandes. ''Se o total do que vocês fazem é desse nível, vocês são mesmo o que dizem. Pensando bem, isso é até modéstia'', disse ele, em um bilhete divulgado pelo grupo.

Ainda em busca de reconhecimentos desse nível, as protagonistas de Meia hora de relógio vem arrancando gargalhadas dos moderninhos que freqüentam o restaurante 00, na Gávea. E isso em plena segunda-feira, em meio a mesas e cadeiras. Por ora, somente este mês.

O elenco reúne Killiana Britto (vista nas peças Insônia, de Alexandra Golik e Ruzante, de Angelo Beolco) e Renata Celidonio (Mamãe não pode saber e Ópera do malandro), que sempre contam com convidados especiais. As duas atrizes são baianas e na peça elas interpretam... duas atrizes baianas. Elas vêm para o Rio tentar a vida no palco e, saudosas, se lamentam de sofrer com o ''banzus recorrentis''. Em cena, as duas atuam como um elo entre a baianidade e o carioquês.

- Cansei de fazer telegrama ao vivo. Quero ser reconhecida pelo meu talento - desabafa a personagem de Killiana, cuja cartilha prevê sexo, praia e carnaval.

Vira e mexe as atrizes citam uma figurinha de destaque do meio artístico carioca.

- Dizem que o Guel (Arraes) volta e meia aparece aqui. É aqui que a fazemos o nosso networking - ironiza a personagem de Renata.

Hoje, a participação especial fica por conta do ator Wagner Moura. Lázaro Ramos fecha a programação semana que vem, na última segunda-feira do mês.

Os textos de Meia hora de relógio são de Isadora Andrade e a direção do global Jorge Espírito Santo.

- Eu sempre fui a favor de uma maneira diferente de fazer as mesmas coisas. Por isso aceitei o convite em dirigir esse steady comedy. O que me chamou a atenção foi poder brincar com as situações contemporâneas numa casa noturna, meio com que tenho mais contato que o teatro - diz Santo, que tem recebido uma platéia de 300 pessoas por edição.


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[23/MAI/2004]


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