Leitura distante

MEC decide suspender edital de definição dos livros infantis que seriam distribuídos em 2005 a alunos da rede pública, alegando que é preciso avaliar se obras estão sendo realmente lidas

Cecilia Giannetti

[05/MAI/2004]

A formação de um leitor pode começar num dia de chuva em que não há nada de bom na TV, ninguém para brincar na rua e se é jovem o suficiente para transformar a primeira incursão às prateleiras de livros de casa numa paixão para toda a vida. Às vezes, não é preciso chuva nem falta de opções de lazer, mas um elemento, certamente, é indispensável para que essa paixão comece: o livro. O Ministério da Educação, no entanto, acredita que os títulos distribuídos à rede de ensino público por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) podem estar apenas juntando poeira na casa dos alunos. Por essa razão, suspendeu o lançamento do edital do PNBE, que aconteceria este mês, para a escolha dos títulos não-didáticos a serem distribuídos em 2005.

Sob a coordenação da Secretaria de Educação Fundamental (SEF, que tratava da seleção dos livros desde o surgimento do Programa, em 1998) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE, responsável pela aquisição e distribuição das obras), só em 2003 o PNBE atendeu mais de 20 mil escolas, em todo o Brasil, através de ações como a Biblioteca do Professor e a Biblioteca Escolar. Pelo programa, cada escola recebeu 144 títulos, e cada aluno pôde levar para casa cinco livros. Iniciado com apenas seis editoras, que faziam edições especiais para o MEC, o projeto passara a contar com 24.

Diretora do Departamento de Política de Educação Infantil e do Ensino Fundamental, do MEC, Jeanete Beauchamp garante que a suspensão do edital não decreta o fim definitivo do Programa.

- Ainda há uma remessa de livros em Brasília para ser distribuída até julho deste ano (comprada em dezembro de 2003, chegou em março a Brasília). O edital foi suspenso porque nossa idéia é efetivar um projeto de orientação de leitura junto com a distribuição, para que o aluno se torne efetivamente um leitor - explica.

Elizabeth D'Angelo Serra, secretária geral da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, participou do processo de seleção de títulos distribuídos e acredita que a medida é um retrocesso.

- Viabilizar aos alunos da rede pública a criação de uma biblioteca particular é essencial. Grande parte dos brasileiros não tem dinheiro para comprar livros. O acesso à literatura em casa é o que dá base à criação de leitores.

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