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Por dentro do crime


No estúdio de TV, no entanto, o papo foi menos tranqüilo. Ferréz indignou-se com os comentários do outro debatedor, Rodrigo de Almeida Prado, empresário do ramo de importações que defende o porte de armas pelos cidadãos e dizia falar em nome da classe média. No debate, mediado pelo apresentador Cazé, Rodrigo afirmou que a polícia deveria intensificar suas ações nas favelas. Ferréz discorda:

- Com isso ele quis dizer que a polícia deve invadir mais barracos, né?

Entre as declarações do empresário que mais o irritaram estava o seu desejo de adquirir um carrinho de bebê blindado quando tiver um filho.

- Isso é um exagero. [O cantor e compositor]Chico César já veio aqui em casa de busão e não aconteceu nada - rebate Ferréz.

Manual prático do ódio traveste em personagens as pessoas de quem Rodrigo de Almeida - e muitos outros, empresários ou não -, querem se proteger. O autor acredita que, criando uma trama que divisa tanto a vida íntima de criminosos quanto os meandros da ação que planejam, ele possa mostrar que o bandido e o cidadão comum estão separados apenas por um fator: o crime. O livro acompanha a trajetória de Régis, um homem prestes a embarcar num assalto por acreditar que sua felicidade estará completa se tiver mais dinheiro. Sua história é a de muitos, e a culpa não é apenas do meio em que vive:

- Hoje tem moleque com fuzil na mão dando tiro. É que botam tanto na cabeça do cara que ele deve ter o padrão de vida da Malhação que ele faz tudo mesmo pra conseguir.

Ferréz diz que ''a arte resgata vidas'' mas sabe que nem todos poderão se tornar escritores ou rappers famosos. Ele salienta que, apesar disso, onde ela se faz presente há a possibilidade de uma porta se abrir:

- O que se aprende no caminho é importante. Se o cara não faz sucesso na música mas for interessado, pode virar técnico de som, trabalhar com isso.

Seu compromisso com o bairro também inclui palestras gratuitas e workshops em organizações não-governamentais. Mas ressalta que nem todas as ONGs que encontra nas comunidades são confiáveis: há aquelas que realizam apenas medidas paliativas e, segundo ele, ganham dinheiro no processo.

- Muitas vêm aqui, constroem muros altos e deixam a população de fora. Ajudam um ou outro e embolsam grande parte do dinheiro.

O tratamento que o escritor dá ao tema da violência urbana ultrapassa os limites dos bairros onde se concentram as populações carentes - um termo que evita, por achar pejorativo. Seu texto atropela a pontuação para lembrar que o clima de guerra hoje atinge tanto as quebradas quanto os bairros mais ricos. Em Manual, as fronteiras da responsabilidade social são rompidas pela necessidade e pelo sonho: ''(...) imaginou que era um gigante, um gigante com mais de dez metros de altura, sua mão levantando sua casa, imaginou sua mão embaixo da casa, levantando-a e colocando em outro lugar, um lugar onde não haveria lixo, onde o córrego fosse canalizado (...) sem a favela vermelha chamada de Cohab, imaginou todos iguais''.


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[21/ABR/2004]


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