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É tudo verdade

Diretores de 'Anti-herói americano' explicam por que a melhor maneira de mostrar a ficção é apelar para o real

Alexandre Werneck

Divulgação

Paul Giamatti interpreta o personagem Harvey Pekar em 'Anti-herói americano'

Um dos detalhes que mais chamam a atenção no filme Anti-herói americano, que estréia sexta-feira no Rio após uma carreira de premiações que culminou com uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado este ano, vem de seu título original, American splendor (Esplendor americano). Isso porque, terminada a sessão, o veredicto é inevitável: não há nada de esplendoroso na história! O filme conta a biografia do arquivista Harvey Pekar que, nos anos 70, mesmo sem saber desenhar, criou uma história em quadrinhos sobre sua própria vida. Nela convivem elementos tão emocionantes como tédio, rotina de trabalho, comida requentada, café e TV, ou seja, tudo aquilo que, em sua visão, era essencial para retratar o homem comum, segundo ele, o verdadeiro herói-americano. Pekar já enfrentou um câncer, tem 65 anos e está em plena produção. Sua vida daria um documentário. Mas o casal de diretores nova-iorquinos Robert Pulcini e Shari Springer Berman, ambos de 39 anos, documentaristas, resolveram levar a vida de Pekar para a tela como ficção. O resultado é um filme hifenizado: um documento-ficcional como uma ficção-documental, não importa: é tudo verdade.

Anti-herói americano conta a singular história do quadrinista tendo, na pele de Pekar, o ator Paul Giamatti e o próprio Pekar, que aparece na tela em vários momentos, vivendo a si mesmo ou comentando a maneira como seu personagem foi adaptado para o cinema. O mesmo acontece com a mulher do personagem, Joyce Brabner, incorporada de maneira arrebatadora pela atriz Hope Davis, indicada ao Globo de Ouro pelo papel, e também pela Joyce real.

- Achamos que essa era a abordagem ideal, já que há diferentes Harvey Pekar representados nos gibis pelos vários desenhistas que o ilustraram - diz ao JB, por telefone, Pulcini, que trabalha com a mulher, Shari, desde 1993, quando os dois saíram do curso de cinema em Columbia, nos EUA, onde freqüentaram as aulas do brasileiro Nelson Pereira dos Santos e nelas tomaram overdoses de realismo cinematográfico.

E há mesmo vários Harveys nos gibis. A primeira edição foi desenhada por Robert Crumb, amigo de Pekar que se tornou o maior nome do circuito underground americano ao criar o personagem Gato Fritz. E se Pekar começou a documentar sua vida sem nenhuma pompa, como se esta fosse um reality show feito para si próprio, esse ''método'' se mantém até hoje em um dos gibis mais celebrados da história da cultura alternativa, que influenciou desenhos animados como Os Simpsons, Beavis & Butthead ou South Park.

- Um dos motivos pelos quais não quisemos fazer um documentário é que já havia um, feito por Terry Zwigoff, sobre Robert Crumb [Crumb, de 1993], que consideramos algo próximo da perfeição no gênero. E como o trabalho de Harvey lida com realidade e ficção de maneira fluida, achamos que era o material ideal para se fazer algo diferente - diz Shari.

Para os dois ex-documentaristas, Pekar é um colega.

- Ele documenta sua própria vida. A diferença é que usa outra mídia, mas é, sem dúvida, um documentarista. Tem o instinto do documentário - diz Pulcini.

Mas, obviamente, o título do filme não chama a atenção só porque pareça contraditório, mas pela ironia de considerar heróica a vida comum. Isso foi o que mais interessou os cineastas, tanto que eles abrem a produção com uma fusão entre quadrinhos e cinema por meio de um encontro entre Pekar e Super-Homem, Lanterna Verde, Batman e Robin.

- O meio em que Harvey trabalha, o gibi, é o espaço por excelência dos super-heróis. E ele fez um gibi sobre os mais cotidianos aspectos da vida para mostrar este lado da América. É muito americano isso de as produções jamais mostrarem esse lado da vida - diz o diretor.

O que, para Shari, se deve à maneira como a sétima arte penetrou na cultura dos Estados Unidos:

- O cinema americano mostra a América como se todo mundo aqui fosse Tom Cruise e Julia Roberts. Não é verdade, claro. A maioria das pessoas não se parece com eles e luta para viver com suas imperfeições. Queríamos mostrar os reais heróis americanos, sem capas e coisas assim. Por exemplo: algo que nunca vemos no cinema americano é a classe trabalhadora como intelectual. Não se mostra que eles vão à universidade, que se formam em direito, mas apenas que podem se tornar balconistas. Essas pessoas são inteligentes e interessadas, muito autodidatas, mas não se fala nelas.

O filme dialoga com a onda pós-moderna de cinema que leva personagens reais para a tela sem estabelecer limites entre personagem e representação.

- Há uma onda de trabalhos assim, porque o público está intrigado com esses elementos e está cansando das histórias tradicionais - diz Pulcini.


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[20/ABR/2004]


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