Depois de uma fase em que parecia sucumbir à contrafação do pagode fabricado em série, plastificado nas coreografias ensaiadas, ternos Armani e letras lamuriosas, o samba ressurgiu. Ganhou força entre a moçada dos bares de Santa Teresa e Lapa, no Rio, onde brotou até uma diva, Teresa Cristina, invadiu os botecos de jeitão carioca de Sampa e contaminou outras falanges. Desde quando questionou que o samba errou e passou a trocar figurinhas com o mangueirense Ivo Meireles, Lobão rompeu os grilhões que separavam o B-Rock e o teleco-teco. Fernanda Abreu, vinda da Blitz, virou garota funk sangue bom e chegou ao samba-enredo. Da geração pós-Nirvana, Los Hermanos desafiaram: ''quem se atreve a me dizer/ do que é feito o samba?''.
Até as vozes blueseiras de Cássia Eller (estupenda em Ataulfo Alves e Riachão) e Angela Rô Rô afeiçoaram-se ao baticum. Angela assinou o samba de breque Acertei no milênio, resposta ao clássico Acertei no milhar, emblema de Moreira da Silva. No ramal mangue beat, o mundo livre s/a sempre cultivou um derivado do samba-rock de Ben Jor, enquanto Otto estreava em Samba pra burro. No hip hop, Marcelo D2 procura a batida perfeita, recortando e colando de João Nogueira a Luis Bonfá. Na área eletrônica, do Samba raro de Max de Castro a Só mais um samba, do coletivo Instituto, chega-se ao manifesto de Fernanda Porto, em Sambassim: ''esse samba é meu groove da vez/ com guitarra e drum'n'bass/ só para ver como é que fica eletrônico o ronco da cuíca''. O samba voltou a ser da hora e da vez, antes mesmo da canonização.
Autor do livro Tem mais samba - das raízes à eletrônica