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Não deixe o samba morrer

MinC e Iphan querem propor à Unesco que o gênero se torne Patrimônio Cultural da Humanidade

Gilberto de Abreu

Arquivo
Antonio Arantes

Antonio Arantes (foto), Luz, Alfaiate e Medeiros: visôes distintas

O ministro da Cultura Gilberto Gil e o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Antônio Augusto Arantes decidiram anteontem, em Brasília, levar adiante uma idéia simpática aos dois: a candidatura do samba - música e ritmo - como Patrimônio Cultural Oral e Imaterial da Humanidade junto à Unesco. A decisão foi tomada numa reunião em que esteve presente também o sociólogo e produtor Hermano Vianna.

- Patrimonializar o samba se faz necessário porque a imagem do Brasil está muito associada à música e, em particular, ao samba - justifica Arantes.

Procurado pela reportagem do JORNAL DO BRASIL, o ministro Gilberto Gil não quis se pronunciar.

De acordo com o presidente do Iphan, a consagração de obras-primas pela organização acontece a partir de um processo de consultas e a compilação de documentos que formarão um dossiê que justifique a candidatura.

- No caso do samba, precisamos identificar e documentar as características peculiares de cada corrente, suas semelhanças e elementos em comum.

Segundo Arantes, será preciso ainda descrever plástica e coreograficamente cada tipo de samba, identificando suas origens. O exercício deve compreender da bossa nova ao partido alto, do samba rural ao samba-canção.

Convidado pelo ministro da cultura a participar do encontro, o historiador Muniz Sodré manifestou-se por telefone. Ele entende a iniciativa do MinC e do Iphan como uma estratégia de promover a memória social, mas tem dúvidas sobre a candidatura do samba.

- É algo que tem de ser muito bem discutido, para não desvalorizar o nosso próprio patrimônio. Já conquistamos o tombamento do Pelourinho em Salvador, de Ouro Preto, em Minas Gerais, e não podemos ficar pedindo o tombamento de tudo - argumenta Sodré, autor do livro Samba. o dono do corpo, reeditado pela Editora Mauad.

Para o historiador, o principal argumento para a candidatura do samba seria o seu papel social.

- O samba pode ser considerado patrimônio da Unesco desde que se inscreva na luta do povo negro por ascensão social, como afirmação da cultura negra - opina.

O cantor e compositor Lobão também tem as suas dúvidas.

- Adoro o samba e o defendo em todos os sentidos, mas é reducionista dizer que Brasil é terra de samba e futebol com a riqueza cultural que temos. Isso me cheira a sacralização do samba, e o samba não necessita isso.

Para a cantora Alcione, seja qual for o enfoque, a iniciativa merece aplausos.

- O samba sempre teve uma força solitária, mas nunca a mídia que os gêneros americanos e europeus têm. Essa iniciativa vai tornar o samba um movimento muito mais reconhecido.

O sambista Walter Alfaiate faz coro com a Marrom.

- O mundo precisa aprender a sambar para viver feliz.

Moacyr Luz é outro que afirma que a candidatura viria em boa hora.

- A música brasileira é um patrimônio e o samba tem de estar na frente da casa. Não pode ser tratado só como folclore, como foram as velhas guardas das escolas de samba. Tem que fazer parte da história do Brasil.

Para o presidente do Iphan, a iniciativa trará benefícios ao país.

- A pesquisa sobre o samba poderá subsidiar a formulação de políticas de salvaguarda e valorização da nossa cultura, um trabalho que será coordenado pelo próprio Iphan.

A empreitada implica na identificação de pesquisadores, na elaboração de um anteprojeto de trabalho em rede, no detalhamento técnico das atividades preparatórias do dossiê e em reuniões estratégicas com pesquisadores e sambistas.

- Avaliaremos a resposta à nossa pretensão e estaremos atentos à opinião pública. Se optarmos por não levar essa candidatura à Unesco, a iniciativa servirá ao menos para efetuar o registro junto ao Iphan.

O produtor musical Ezequiel Neves diz que a iniciativa ''é coisa de quem não tem o que fazer.''

- Eu acho isso tudo uma grande bobagem. Uma discussão vazia, de gente desocupada. Qualquer ritmo que te dê calor na bacurinha é bom - ironiza.

Antônio Arantes diz que o reconhecimento por parte da Unesco seria um elemento a mais na singularização do Brasil no mundo. O compositor e escritor Nei Lopes concorda com o presidente do Iphan.

- Já não é sem tempo, pois o samba é efetivamente o bem cultural definidor da identidade musical brasileira.

Nilcemar Nogueira, neta adotiva de Cartola, assina embaixo e festeja.

- É bom saber que o Brasil oficial começa a reconhecer a nossa diversidade cultural.

Já Elton Medeiros foi cético:

- Não é favor dar importância internacional às nossas manifestações. Se isso trará benefícios, o tempo dirá.

Colaborou Paula Santos


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[01/ABR/2004]


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