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São tantas as verdades

Vencedor do Oscar de documentário, Errol Morris faz reflexão sobre o furor bélico dos EUA

Carlos helí de almeida

Errol Morris / Foto de Divulgação

Os documentaristas americanos estão fazendo história no Oscar. Ano passado, Michael Moore cravou o prêmio com Tiros em Columbine, bem-humorada investigação sobre a cultura da violência nos Estados Unidos. Este ano, foi a vez de Errol Morris, 56, e o seu Sob a névoa da guerra, que tem como personagem Robert McNamara, ex-secretário de Defesa dos governos John Kennedy e Lyndon Johnson. McNamara esteve no centro das mais profundas crises bélicas nos últimos 50 anos, da Segunda Guerra à Guerra do Vietnã, passando pelos momentos mais turbulentos da Guerra Fria.

Oscar na mão, Morris aproveitou o tempo de agradecimento no palco do Kodak Theatre, em Los Angeles, para externar sua preocupação em relação às iniciativas do atual presidente americano: ''Aprendi com McNamara que, nos anos 60, os Estados Unidos ingressaram em um buraco no Vietnã causando milhares de mortes. Temo que estejamos entrando em outro buraco agora'', disse o cineasta, referindo-se à campanha americana no Iraque.

Desde a primeira exibição no Festival de Cannes do ano passado, o documentário de Morris - que estréia no Rio no próximo dia 26 - tem sido analisado como importante material biográfico e histórico. Em função do momento político em que foi gerado, serve também como reflexão sobre o impulso belicista americano. Eclético na escolha dos temas de seus filmes - um cemitério de animais (Gates of heaven), um homem injustamente acusado de assassinato (The thin blue line), o inventor de instrumentos de execução (Dr. Death) - Morris até hoje se pergunta se os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 foram determinantes na iniciativa de realizar Sob a névoa da guerra.

- A dúvida se aqueles eventos influenciaram ou não a realização do filme me perseguiu durante todo o processo. Mas, com certeza, desejei fazer esse documentário desde o momento em que li o primeiro livro sobre Robert McNamara, In retrospect, lançado em 1995. Participei dos protestos contra a guerra do Vietnã, nos anos 70, e a trajetória de McNamara sempre me fascinou - conta Morris, em entrevista ao JORNAL DO BRASIL.

Morris lembra que as resenhas publicadas na época do lançamento de In retrospect pareciam falar de um livro completamente diferente. A biografia de McNamara muitas vezes fora descrita como uma espécie de mea culpa, uma confissão ou mesmo um pedido de desculpas. Na interpretação de Morris, McNamara parecia tentar desesperadamente entender como se deixara envolver naqueles acontecimentos, que influenciaram não sós os Estados Unidos mas o planeta inteiro. Morris sentiu necessidade de esclarecer ele mesmo essas dúvidas.

- McNamara, que estava com 86 anos, mostrou relutância em relação à idéia de gravar depoimentos para um documentário. No início oferecia pouco tempo para a realização das entrevistas, até o ponto de conseguirmos gravar mais de 20 horas de conversa - lembra o documentarista.

Morris compara McNamara a um herói de alguma tragédia moderna e Sob a névoa da guerra a uma fábula sobre o século 20. De origem humilde, McNamara chegou a ocupar um dos mais altos cargos do poder público norte-americano. Foi testemunha e agente ativo de vários momentos cruciais do século passado: a Grande Depressão, a Segunda Guerra, a industrialização do pós-guerra, a crise dos mísseis em Cuba, a Guerra do Vietnã.

O encontro com o ex-secretário de Defesa mudou completamente as impressões que Morris tinha a respeito de McNamara.

- Ele emerge de incontáveis livros e artigos como um sujeito que acredita na qualidade dos métodos de análise, que reduzem os problemas sociais a fórmulas. Mas McNamara nem sempre foi aquele figura pragmática herdada de seus tempos de executivo da indústria privada. Nos anos 60, já admitia erros na campanha do Vietnã e, por volta de 1967, já tinha deixado de ser o falcão que todos supunham ser e se transformado em um pombo - entende Morris.

Segundo o documentarista, a imagem do McNamara metódico e linha-dura foi amplamente difundida pela imprensa e é reforçada nos livros sobre sua vida. Já em seu filme, surge um senhor cheio de dúvidas e questionamentos sobre a sua participação em fatos chave da história americana recente. Nenhuma das biografias lançadas no mercado editorial menciona, por exemplo, a estreita ligação entre McNamara e o então general Curtis LeMay durante o episódio que resultou no bombardeio de Tóquio e outras 67 cidades japonesas em 1945.

Na noite do dia 10 de março daquele ano, cinco meses antes das bombas atômicas que impuseram um final à Segunda Guerra, LeMay autorizou o lançamento de bombas sobre Tóquio, em ataque que matou 100 mil japoneses. No documentário, McNamara levanta dúvidas sobre a participação moral dos Aliados na Segunda Guerra. ''O objetivo de ganhar uma guerra justifica uma nação ter ordenado o massacre de 100 mil civis em apenas uma noite?'' indaga McNamara, no filme. ''Seria considerado uma atitude moral não bombardear civis japoneses mas, ao invés disso, perder dezenas de centenas de vidas americanas em uma invasão ao Japão?'', acrescenta.

Outro momento crucial na história recente americana, a crise dos mísseis em Cuba, em 1961, ganha uma nova interpretação no depoimento de McNamara. Sai a versão de como John e Bob Kennedy salvaram o mundo do holocausto nuclear com bem arquitetadas estratégias políticas, e entra em cena uma história envolvendo sorte, caprichos e falta de bom senso. ''A racionalidade não nos salvará'', teria alertado McNamara.

- A meu ver, essa é uma das lições mais assustadoras de todo o filme - acredita Morris.

Além do testemunho de McNamara, Sob a névoa da guerra corrobora a complexidade do entrevistado ao reproduzir trechos de conversas telefônicas gravadas entre o ex-secretário de Defesa e seus superiores na Casa Branca. Algumas das gravações utilizadas no documentário foram liberadas meses antes de o filme entrar em fase de edição. A partir do governo John Kennedy, os presidentes americanos perceberam que poderiam gravar conversas telefônicas de conteúdo estratégico - uma década depois, Nixon se arrependeria de ter gravado as suas. É a primeira vez que parte das gravações vêm a publico.

- Kennedy começou a fazer esse tipo de gravação de forma secreta e seletiva. Essas fitas foram entregues à Biblioteca Kennedy e só recentemente têm sido liberadas, de forma gradual e seletiva.

A maioria das fitas gravadas durante as gestões de Kennedy e Johnson (1961-1968) já estão disponíveis.

- A administração Bush tem restringido o acesso ao material das bibliotecas presidenciais. Foi mais fácil conseguir em administrações anteriores, como a de Jimmy Carter - conta Morris.


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[15/MAR/2004]


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