Escritora gaúcha troca romances claustrofóbicos por best-sellers cheios de reflexões otimistas
Lya Luft deveria sempre acender uma vela para suas personagens, que enlouqueceram em seu lugar. Este era o único conselho literário que a escritora gaúcha costumava receber do segundo marido, o psicanalista e escritor mineiro Hélio Pellegrino. Quem só conhece a literatura da autora, de 65 anos, através de
Perdas e ganhos, publicado em 2003, deve achar difícil que ela tenha alguma vez inventado mulheres tão angustiadas que merecessem preces. Considerado auto-ajuda pela crítica, o best-seller que superou Paulo Coelho nas listas de mais vendidos é um apanhado de reflexões da autora sobre as fases da vida e os relacionamentos, com resultados bem diferentes da escrita que permeia o restante de sua obra.
– Acho que nos primeiros livros eu fiquei só nas perdas, não falava dos ganhos – diz.
Tradutora de Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, Bertolt Brecht e Virgínia Woolf, entre outros, aos 41 anos a professora Lya Luft abandonou a vida acadêmica para publicar seu primeiro romance, As parceiras, inaugurando uma linhagem de personagens “tangidas pela fatalidade, possuídas pelos demônios da alma”, como define. São mulheres que certamente fariam bom uso das idéias reunidas em Perdas e ganhos e em Pensar é transgredir, que a Record acaba de lançar.
– O que eu quis dizer com Pensar é transgredir é que tendemos a ser muito covardes, frívolos. A vida está passando e precisamos fazer escolhas. Ficar deprimida, chorando no quarto ou enchendo o saco dos outros? É muito melhor reconstruir-se depois de levar uma rasteira na vida.
O lançamento traz a reboque a reedição da face sombria da ficção da escritora para dividir as prateleiras das livrarias com sua nova fase:
– Meu lado negro ficou para trás, nos romances. Escrevo hoje com uma visão mais otimista, mais vital. Ainda guardo algo de melancólico, mas sou predominantemente alegre, tenho minha família – avalia.
Seus principais romances, no entanto, subvertem a idéia comum da maternidade como uma experiência feliz e gratificante. As narrativas tratam de cacos familiares e desgostos, sem recair em tom queixoso. Em O quarto fechado, de 1984, a protagonista Renata abandona a vida profissional para dedicar-se mais à família, mas não consegue impedir o suicídio do filho e o progresso da loucura da filha. Exílio, de 1987, mostra uma mulher separada do marido, afastada do filho e do amante. Auto-exilada na Casa Vermelha, espia através da janela da pousada uma floresta impenetrável, onde desencava o fantasma da mãe alcoólatra e suicida e uma velha alucinação de infância: um anão, misto de inocência e maldade.
– É a personagem que eu mais gostei de escrever, o “belo-sinistro” que me assustava e me intrigava. Nem na terapia que eu fiz, anos depois, consegui descobrir o que significava o anão. Só de falar nele, fico com o braço todo arrepiado! – conta, revelando que, na infância, tinha outras companhias além do anão: uma legião de seres imaginários com que brincava no quintal.
Mesmo recorrendo a fatias de realidade (ou de suas fantasias da vida real), ela frisa que seus textos não correspondem a um retrato fiel do que vive:
– São a biografia das minhas inquietações e assombramentos enquanto ser humano, não a minha biografia. Obviamente, há cenários que visitei e coisas ditas pelo meu pai (o juiz Artur Germano Fett, morto quando Lya tinha 35 anos), experiências e sentimentos que utilizei. Mas minha vida pessoal nunca foi complexa como a de minhas personagens.
Pode não ter sido tão movimentada mas tem lá suas curiosidades: aos 21 anos, Lya se apaixonou por um irmão marista, o professor de português Celso Pedro Luft, ao vê-lo pela primeira vez numa prova de vestibular. O interesse não acabou na sala de aula: Celso largou a batina pela moça de olhos claros e 1,75m de altura. Tiveram três filhos e permaneceram casados por 22 anos. Em 85, Lya separou-se para viver com Hélio Pellegrino, que faleceu três anos depois, de ataque no coração. A perda provocou-lhe um espasmo autobiográfico que contrariava sua tendência reservada: expôs sem qualquer censura a rotina de sua dor nos poemas de O lado fatal.
– Escrevi num jato, em poucos dias, nas primeiras semanas após a morte do Hélio. Não foi feito para ser publicado. É um livro que eu não queria que tivesse me acontecido. Eu estava fora do meu eixo normal e foi a primeira maneira que achei para tentar me centrar – explica.
Por conta disso, não autorizou a reedição dos poemas pela Record. Considera-os, além de muito confessionais, imperfeitos. Sua forma traduzia o momento de turbulência:
– Eles são aquilo mesmo: um lamento de morte. Tentar arruma-los literariamente não funciona. Vou esperar um pouco e, se um dia eu achar que aquilo não me chateia mais, eu republico.
Lya passou quase seis anos sem escrever depois de O lado fatal e tornou a se casar com o primeiro marido, Celso, de quem ficou viúva em 1995. A produção literária foi retomada com o romance A sentinela, que traz outra mulher em isolamento voluntário. Desta vez, o clima claustrofóbico cede: Nora, a protagonista, define a vida como “subir uma escada rolante... pelo lado que desce” mas consegue reagir bem às suas tragédias. O desfecho positivo concedido à personagem era um indício da transformação pessoal que conduziria mais tarde a Perdas e ganhos, que já rendeu 20 edições e teve mais de 150 mil exemplares vendidos. O sucesso trouxe mais convites para palestras e faz com que o telefone toque sem parar na casa da escritora em Porto Alegre. Ela conta com a ajuda de duas empregadas para fazer a triagem dos telefonemas e cuidar dos afazeres domésticos (nunca gostou de cozinhar, lavar ou passar). Faz questão de reservar tempo para os que chama de amigos essenciais, além dos filhos, das netas e de um novo amor.
– Ele não é escritor, nem é uma pessoa conhecida... graças a Deus! Eu não poderia namorar um tiete – ri.
Sua celebridade instantânea também a diverte.
– Sou quieta, gosto de ficar na minha toca. Por outro lado, às vezes é engraçado: as pessoas me olham e eu olho pros lados para ver se tem mais alguém porque acho que não é comigo.
Aos velhos conhecidos, procura assegurar que continua a mesma:
– Capa de jornal e revista não me mudou em nada. Se eu tivesse 20 anos de idade talvez ficasse um pouco deslumbrada, mas agora eu já sei como as coisas são.
Para a escritora, ser best-seller não mudou sua rotina. A mãe, de 89 anos, está internada com Mal de Parkinson e Alzheimer; a filha mais velha, Suzana, médica e pintora, que ocupa o andar superior da casa erguida por Lya e Celso na década de 70. Lya trabalha no térreo mas quando as netas (Isabela e as gêmeas Fabiana e Fernanda, de 2 anos incompletos) aparecem, sua literatura dá lugar às historinhas infantis que encontra em um website com animações em flash . Fã da web, troca e-mails diariamente com Suzana, com o filho do meio, André, que é agrônomo e mora no Mato Grosso, envia artigos ao mais novo, Eduardo, que é filósofo, lê notícias e pesquisa material para utilizar em livros e traduções. Na contramão de outros de sua geração, ela não considera a rede nociva ao trabalho do escritor:
– Às vezes e-mail é invasivo, mas aí eu troco meu endereço ou simplesmente não respondo. A internet é servo, não é senhor.
Sentada ao computador, Lya prepara um novo romance, O silêncio dos amantes, e dá os últimos toques no livro de poesia Para não dizer adeus. E prefere não prestar muita atenção no que a crítica diz de sua obra:
– Anos atrás um crítico, querendo me elogiar, disse “Lya Luft é mulher mas escreve com mão de homem”. Achei isto uma pobreza, fiquei com pena dele. Eu quero escrever como um ser humano que leva a sério sua arte.