Personalidade do ano pela organização Cinema Pela Paz, Lars von Trier teve seu discurso censurado
BERLIM -
O diretor dinamarquês Lars von Trier é capaz de criar polêmica mesmo à distância. Homenageado como a personalidade do ano pela organização Cinema pela Paz, o autor de
Dogville, em cartaz no Rio, enviou uma fita de vídeo com um discurso de agradecimento, para ser exibido durante a cerimônia de entrega do troféu Diamante para a Paz, na noite de segunda. A fita, no entanto, foi exibida sem alguns trechos, considerados controversos pela entidade.
O prêmio foi entregue durante o jantar anual da amfAR (American Foundation for Aids Reasearch), a organização americana que promove leilões e jantares beneficentes mundo afora para levantar fundos para a pesquisa da Aids. Cerca de 600 convidados (um assento na mesa custa em média U$ 1 mil) compareceram à recepção, que lotou o Konzerthaus, um prédio histórico de Berlim. A cantora e atriz Liza Minelli era a grande vedete da noite, que contou com a presença do ator Christopher Lee. Todos perceberam a indignação da produtora Vibeke Windeloev, da Zentropa, a companhia de von Trier, que veio representar o cineasta.
Windeloev retirou-se bruscamente do palco montado no Konzerhaus assim que percebeu que o vídeo enviado pelo colega havia sido mutilado.
- Sei que todos vocês são pessoas civilizadas, mas eu estou fula da vida - disse a produtora, justificando a sua saída dramática.
Aparentemente, o comitê do Cinema pela Paz se sentiu ofendido com certas partes da mensagem de von Trier. Na fita, o cineasta agradece a lembrança do comitê, diz que acredita na paz tanto quanto a organização e reforça a idéia de que todos os que dividem esta crença têm a tarefa de fazer com que todos no mundo sintam o mesmo. Em seguida, compara os pacifistas a duas tribos que aspiram ao mesmo objetivo, mas de forma diferente. O texto sugere que a honraria foi criada por gente bem nascida e bem alimentada e é destinada a pessoas na mesma situação.
''Nem todo mundo quer o mesmo que nós (a paz). A população do mundo é composta por duas tribos, que vivem no deserto. Uma delas vive em um país que tem um poço. A outra tribo vive em um país distante. A tribo do país que tem o poço quer paz. A tribo no país distante não quer paz - ela quer água!'', dizia o diretor, na fita original.
''A tribo do país distante é, provavelmente, um pouco menos civilizada e não tem sequer uma palavra para 'paz' no vocabulário. Mas essa tribo tem uma palavra para 'sede', o que, nessa situação, é mais ou menos o mesmo. O Comitê da Paz do país que tem o poço é constituído de pessoas boas, sábias, belas e ricas, que não sentem sede (é por isso que eles têm tempo para se dedicar ao Comitê). As pessoas do país que tem o poço falam muito sobre o Prêmio da Paz com que o Comitê homenageia outras pessoas do país com o poço'', continua o diretor. ''O povo do país distante não fala tanto sobre o Prêmio da Paz. Obrigado pelo meu Prêmio da Paz'', encerra von Trier.
No dia seguinte à cerimônia, os ânimos dos envolvidos ainda pareciam exaltados: ''Acho que deveríamos devolver o prêmio'', disse Vibeke à versão diária da Screen International.
- Eles podem dar esse prêmio a alguém que seja mais próximo às idéias de George Bush - reagiu Peter Aalbaek Jensen, também da Zentropa. Von Trier, que tem sido criticado pelos americanos por ter feito filmes ambientados nos Estados Unidos, considerados ofensivos, sem nunca ter visitado o país, também manifestou sua indignação à publicação.
- Se isso tivesse acontecido com qualquer outra pessoa, eu também ficaria indignado - reagiu o diretor, que está na Dinamarca preparando as filmagens de Mandalay, a continuação de Dogville, e segundo episódio da trilogia sobre os EUA.