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A novela da novela

Uma intriga de folhetim acontece nos bastidores de 'MetAMORphoses', nova produção da Record que mistura ficção e 'reality-show' médico

Cecília Giannetti

Arquivo
Tizuka Yamazaki

Tizuka Yamazaki, que dirigiu Kananga do Japão na Manchete, volta às novelas na nova produção

Cirurgias plásticas, troca de identidade, a Yakusa, lutadores de K-1 e um time de autores que discorda dos rumos da trama ditados por Charlotte Karowski, uma poderosa ghost-writer. Estes são alguns dos ingredientes envolvidos na história que vem movimentando o mundo noveleiro e pode significar a abertura de uma nova via de produção de teledramaturgia no Brasil. Com sinopse polêmica e bastidores agitados, MetAMORphoses (o nome é esse mesmo, com ph e letras maiúsculas no meio) reativa o núcleo de novelas da Rede Record a partir de março, adicionando doses generosas de realidade à ficção.

Um exemplo dessa mescla é o destino da atriz Tallyta Cardoso, 26 anos, na trama. Em MetAMORphoses, ela se chama Tallyta Cardoso, é atriz e vai se submeter a duas cirurgias plásticas - pra valer. As operações verdadeiras nos seios e nariz serão feitas no mesmo dia, diante das câmeras, e depois editadas e combinadas a imagens de estúdio. Na ficção, a médica é Luciane Adami (que fez sucesso em Pantanal); na vida real, quem vai mexer nos traços da atriz/personagem é um médico, cuja identidade Tallyta prefere não revelar.

- É como misturar um reality show na novela - define Tallyta, que é filha do antigo galã da pornochanchada David Cardoso. O irmão de Tallyta, David Jr., que participou de A Noite das Taras II (1982) e Tentação na cama (1984) ao lado do pai, também tem um papel na novela: um personal trainer namorador que, segundo Tallyta, será amante da dona da clínica.

Nas primeiras versões da história, constavam czares russos e um mistério envolvendo mísseis. Em tramas paralelas, estão previstos um roubo de jóias raras e muita ação com K-1 (modalidade de luta que é febre no Japão) e a máfia japonesa, sob a direção de Tizuka Yamasaki.

E quem está escrevendo tal miscelânea? Nos últimos dias, a pergunta virou uma espécie de ''Quem matou Odette Roitman'' nas revistas e colunas de fofoca. Desde novembro de 2003, dois autores de novela consagrados e dois colaboradores já abandonaram o barco, todos alegando divergências com a Casablanca Service Provider, um dos maiores grupos sul-americanos de finalização em vídeo, responsável pela produção da novela. Por trás do vai-e-vem de sinopses está a francesa Arlette Siaretta. Dona da Casablanca, ela meteu o bisturi no texto e mantém suas idéias acima das invenções dos escritores.

Co-autor de sucessos como Mandala e Vale Tudo, o presidente da ARTV (Associação de Roteiristas de Televisão, Cinema e outras Mídias), Marcílio Moraes, foi o primeiro a tentar criar a trama de acordo com as exigências de Arlette.

- Ficou claro que tínhamos concepções muito diferentes sobre o trabalho e resolvemos, de comum acordo, rescindir o contrato - conta Marcílio, que deu lugar ao premiado Mário Prata, autor de Estúpido Cupido, entre outras. Mário, por sua vez, adicionou ao projeto dois escribas da nova geração: seu filho, Antônio Prata (autor de Estive pensando, Editora Record), e Chico Mattoso (Parati pra mim, Editora Planeta). O trio chegou a desenvolver cinco capítulos, que foram modificados.

- Li as alterações da Arlete e pensei ''não dá pra fazer''. Parecia um elogio à cirurgia plástica e eu não quero fazer isso. Imagina se as pessoas começam a achar que é isso que vai resolver a vida delas? - questiona Mário. Chico Mattoso enxerga no tema uma questão pessoal para Arlette:

- Eu tenho a impressão de que é muito importante pra ela, como um sonho, e ela não quer que ninguém meta o bedelho nele - comenta o ex-colaborador.

A arte do estica-e-puxa é mesmo próxima do grupo Casablanca: em 2003, a produtora realizou a transmissão do IV Simpósio de Cirurgia Plástica Internacional. Além disso, a organização da quinta edição do evento, que acontece em março em São Paulo, anuncia em seu site (http://www.bold.art.br/simposio/programacao/social.html) um coquetel na ''Clínica Metamorphoses'', mansão que fica na mesma rua em que estão localizados os estúdios da Casablanca. Depoimentos recomendados como material de referência aos autores destacavam o lado positivo das cirurgias plásticas:

- Era algo nesse sentido: ''opere seu nariz, seja feliz''- comenta Antônio.

A Casablanca nega que Mário e os rapazes tenham desistido da empreitada, garantindo que deveriam desenvolver apenas os primeiros capítulos e que o contrato expirou em dezembro. O escritor contesta:

- Fui convidado pra uma novela inteira, recebendo R$ 100.000 por mês. Decidi sair quando vi que Arlete tinha colocado de volta no texto a sinopse dela, provavelmente achando que, por estar me pagando dinheiro, devíamos aceitar tudo.

Antônio completa:

- Fomos chamados pra criar uma novela, não pra escrever idéias prontas de outras pessoas.

Apesar disso, todos os autores fazem questão de frisar que desejam que o projeto dê certo mesmo sem a sua colaboração.

- Tem muita gente da área precisando de trabalho: atores, equipe ...Seria bom para todo mundo - avalia Mário Prata.


[08/FEV/2004]


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