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Um painel de muitas humanidades


João Paulo Cuenca

Escritor, autor de 'Corpo presente'

Como os protagonistas do filme em questão, passo temporada num hotel. Andar alto. É comum ir até a varanda, olhar a rua de cima, a maré de pessoas e carros atravessando a Avenida Princesa Isabel. Cortam o asfalto desordenadamente, avançam o sinal, param sobre a faixa. As janelas se apagam e se acendem, às vezes alguém fuma um cigarro em outra varanda, fala no telefone sob a luz hesitante da TV. Longe ouço buzinas, uma freada. Outro dia, um grito curto, desespero estanque. Estou em Copacabana. Poderia ser Tóquio.

Acredito que o maior temor dessa nossa gente ansiosa que atravessa a rua fora do lugar, acende e apaga as janelas, que nasceu no século 20 e morrerá no corrente, não passa pelas morbidezas a que se costumam relacionar medos e fobias. Indo direto ao ponto: mais do que a morte, o que se teme é a solidão. O que se teme é ter que se olhar no espelho, não o de casa, que nos poupa do fundamental, mas em um que reflita o que realmente se é, fora maquiagens, implantes, roupas, empregos, status, carros do ano e eletrodomésticos pagos em dez vezes sem juros. Saída? Entre o hedonismo arregalado e a servidão religiosa estamos quase todos perdidos, luzes apagadas por trás das portas. Mas, numa deixa previsível como enredo de novela, o tal do sentido costuma vir pouco antes dos 30 anos com romance, paixão, filhos - e a porta que se abre agora é a do banheiro, atestando a cumplicidade muitas vezes fedorenta dos amantes. Até a crise de meia idade, como a que atravessa o nosso Bob Harris, magistralmente conduzido por Bill Murray.

A solidão dos personagens de Sofia Coppola não se deve simplesmente às circunstâncias tediosas que os levaram a uma megalópole ininteligível. Falta a eles companhia para compartilhar o estranhamento que a vida nos impõe desde sempre, companhia para dividir o mesmo olhar. Seus relacionamentos viraram casca. Vivem a pior forma de solidão, acompanhada - não entre milhares de pessoas numa rua apinhada de gente, mas a que se compartilha numa cama, num telefonema mal-respondido, no desinteresse explícito ou na neurose descabida que corrói sentimentos. Charlotte não reconhece mais seu namorado afetado. Bob procura conforto numa dona de casa profissional. Fracassos.

Mas encontram-se e, inesperado, descobrem um no outro aquilo que lhes faltava, formando um dos casais mais interessantes da história do cinema (ou seria um anti-casal?). Depois da fagulha abrem-se à, como diria Camus, ''terna indiferença do mundo'', e saem por aí, curtindo uma Tóquio multifacetada, painel de humanidade exposto por Sofia Coppola com sensibilidade e sutileza arrebatadoras. A princípio o encontro pouco tem de sensual - mais tarde ficará a nossa escolha classificar a futura relação dos dois, outro acerto da direção em cena antológica. Fiz minha escolha.

Um desvio numa estrada deixa de se chamar assim quando é escolhido - passa a ser a via principal de quem o toma. Cada caminho deixa atrás de si o vazio de todos os outros que poderíamos ter escolhido. E deixa também a saudade do que não se viveu, do que sequer conhecemos. Pensando nisso, saí sozinho do cinema em Botafogo. E o peito apertado, não de tristeza, mas certa melancolia e um orgulho engraçado por estar vivo nessa cidade que abriga sob seu céu tantas almas e, mesmo assim, ingênuo, achar que sinto algo que é só meu. Peguei o 592 arrepiado, comovido como o diabo. E não era conhaque. O que mais um bom filme pode pretender?


[06/FEV/2004]


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