No material de divulgação do show de lançamento do CD
A bossa e o suingue de Cauby (BMG), que aconteceu terça-feira na boate Le Boy, em Copacabana, Cauby Peixoto comentava sobre o público gay que costuma lotar a casa: ''É um povo muito feliz, por ser muito inteligente... por viver melhor que muitas pessoas. Que apesar da hipocrisia da sociedade (...) sabe tirar o proveito das nuances de ser meio homem, meio mulher na vida'' Mas, na hora H, em meio ao calor com que foi recebido pela platéia lotada, onde as mulheres estavam em absoluta minoria, Cauby tirou o discurso da terceira e assumiu a primeira pessoa.
- Nós somos especiais - afirmou ao microfone, para delírio da platéia.
- É a primeira vez que ele fala isso abertamente - garantiu o jornalista carioca Rodrigo Faour, autor da biografia Bastidores - Cauby Peixoto: 50 anos da voz.
- O Cauby é gay? Claro que não! - protestou Sônia Santos, 55 anos, uma das poucas senhoras a circular pela pista de dança da Le Boy. Sobre os rapazes musculosos de sunga, fazendo coreografias sensuais em cima de pequenos palcos ao som de tecno, Sônia não parecia ter dúvidas. Mas não reclamava:
- O público é interessante - avaliava.
A fã Lídia de Souza, que, a exemplo do cantor, não gosta de revelar a idade, não se abalou com o comentário:
- Não me interessa saber do sexo do Cauby. Eu gosto dele, acompanho o Cauby desde que ele apareceu - afirmou. Sua amiga Clymene Simpson Viamonte de Oliveira, de 66 anos, fazia vista grossa. Acompanhando Cauby ''desde que ele começou no rádio'', Clymene garantia que sempre o seguiu, ''seja onde for''.
Até mesmo quem não era nascido quando o ídolo surgiu teve seu surto de tiete durante o espetáculo. De pé na fila do gargarejo, Rodrigo Couto, 21, chegou a chorar enquanto Cauby cantava New York, New York. Para ele, sua emoção era ''por tabela'', justificada pela admiração da própria mãe pelo cantor..
Acompanhado pelo tecladista Moisés Pedrosa, Cauby cantou o repertório do novo CD, uma seleção de gravações da fase do cantor na RCA, que inclui o primeiro rock com letra em português Rock'n'roll em Copacabana, de Miguel Gustavo. Organizado por Rodrigo Faour, o CD é uma seleção de faixas raras gravadas entre 1957 e 1966, e traz ainda flertes do cantor com a bossa nova, como Gente, de Marcos & Paulo Sérgio Valle e Samba do avião, de Tom Jobim; standards, revisitados com letra em português como Eu dançaria a noite inteira (I could have danced all night) e uma incrível versão sussurrada de Não quero ver você triste, de Roberto e Erasmo Carlos, registrada na boate Drink (com direito a aplausos no fundo), que Cauby abriu em Copacabana em 1964, na Av. Princesa Isabel. Segundo Rodrigo, na época, Cauby dispunha na casa noturna de uma liberdade de escolha de repertório que a gravadora, em geral, não lhe dava. O resultado são interpretações em que o ídolo demonstra versatilidade, completamente à vontade no papel de ''rei da noite''.
Quem compareceu ao lançamento do CD na Le Boy entendeu o clima: com a casa cheia, a platéia participou do show batendo palmas, gritando ''maravilhoso!'' e assoviando. A pedidos, seu hit máximo foi lembrado e levou uma legião de homens a cantar ''Conceiçããããão'' a plenos pulmões. Em resposta à recepção efusiva, ele dava seu recado também entre as músicas:
- Amem... que é bom.
Ao final, já no camarim, Elke Maravilha, vestindo longuíssimas botas, micro shorts e uma camiseta, ajoelhou-se e beijou a boca e os pés de Cauby, emendando uma seqüência de elogios rasgados e palavrões:
- Ele é nosso maior ícone na música! - afirmou, apresentando ao astro a amiga Grace Kelly, alta (cerca de 1,90m) e escultural, metida num longo que brilhava como o antigo glamour de Copacabana na década de 50. Rogéria também apareceu para abraçar o amigo, repetindo enquanto lhe segurava as mãos: ''Que foz, que foz...'', trocando sutilmente o v pelo f.
Cauby Peixoto saiu do camarim cercado por seguranças da boate. Caminhando pela pista onde o bate-estaca do tecno já voltava a imperar, ganhou e distribuiu beijos no rosto dos rapazes que o parabenizavam pelo show. À porta da Le Boy, observado pelas fiéis Clymene, Sônia e Lídia, entrou numa Mercedes preta, com a classe dos pop stars de antanho, quando a vida sexual dos artistas era menos importante que seu talento.