Herança punk, roupas personalizadas como resistência à padronização viram filão de grifes alternativas e são vendidas até pela internet
No fim da década de 70, uma camiseta customizada ajudou a dar cara ao movimento punk. O modelito propositalmente esfarrapado em que o músico norte-americano Richard Hell havia pintado um alvo e as palavras
please kill me (mate-me por favor) chamou a atenção de Malcom Mclaren e o empresário acabou levando o visual para a Inglaterra. Lá, soube explorá-lo com a banda Sex Pistols, sob a bênção da namorada, a estilista Vivienne Westwood. Quase 30 anos depois, reformular roupas e dar um toque pessoal a elas ainda é sinônimo de transgressão. Depois de se firmar com marcas como Doc Dog e Imitation of Christ, a customização (re)conquista espaço no underground entre pequenas grifes alternativas.
É o caso da Flores Customizadas (www.florescustomizadas. blogger.com.br), da estilista Raquel Flores, de 23 anos, e da produtora Vanessa Soares, 24, ambas cariocas. As duas transformam camisetas velhas, com nomes e símbolos de grupos de rock, em vestidos novos. Aplicando diferentes materiais às malhas encontradas no fundo dos armários dos amigos, criam peças como a roupa que a cantora Pitty usou recentemente no programa Altas horas, de Serginho Groismann:
- O que me chamou a atenção foi que o vestido tinha sido feito a partir de uma camisa dos Dead Kennedys, uma banda que eu amo. É punk sem deixar de ser feminino - diz a cantora.
Noutra linha de roupas, a reformulação foi mais radical: nenhum vestido, blusinha ou saia teve estampa idêntica à outra. Para ilustrar cada uma com imagens diferentes, a dupla distribuiu tecido e canetas acrílicas (a tinta não sai na água) a desenhistas-animadores de duas produtoras (Toscographics e Tarja Preta) e grafiteiros do coletivo de hip hop Brutal Crew, que criaram estampas exclusivas.
Segundo Raquel e Vanessa, mais da metade da coleção esgotou rapidamente porque é fácil a identificação do chamado público alternativo com a irreverência dos cartunistas escolhidos, entre eles, Allan Sieber (da série de curtas animados Deus é pai), Arnaldo Branco (conhecido na web por suas tiradas no Mau humor - www.mau_humor.blogger.com.br), Daniel Juca Garcia, Johandson Morrison, Zé Colméia, Dúnia Quiroga, Rafael Adorjan e Pedro de Luna.
O visual Flores vem acompanhado por ecos de um discurso tipicamente punk, que o manifesto escrito pelas meninas para a grife não esconde: ''Chega de usar os uniformes que as grandes indústrias e a comunicação de massa nos enfiam goela abaixo'', dizem. Para elas, a indústria da moda hoje reflete uma sociedade ''lobotomizada'' em que o vestuário exerce a função que tinha no século 15: ''mostrar quem era quem, definir padrões para elitizar.''
No início, em novembro de 2002, militavam a domicílio contra a padronização: iam até o cliente munidas de fita métrica, prancheta, lápis e todo o material de costura necessário e reciclavam roupas que haviam sido dadas como perdidas ou pareciam comuns demais. O serviço agora existe como opção às coleções que criam em seu ateliê na Lapa e revendem em bazares como o do Galeria Café (Ipanema) e da Praça 15 (aos domingos).
Formada em 1999 pelo Senai-Cetiqt, Raquel Flores acredita que as peças que passam por interferências como a mescla de texturas e aplicações são um trunfo para quem procura transmitir identidade através do seu guarda-roupa:
- A pessoa é notada exatamente por não parecer ter saído de uma linha de montagem, escapa do comum. Quando consegue compor um visual que reflete sua personalidade, é reconhecida pela sua forma de vestir. Isso é estilo.
Outra nova grife que faz estilo alternativo com as próprias mãos é a Jujuba Preta Baixa Costura. Em 2003, sem abandonar o curso de mestrado em filosofia, a carioca Juliana Fausto, 24 anos, começou a inventar suas estampas com o designer gráfico Tiago Teixeira, ''só para os amigos, de brincadeira'', como dizem. Ilustrando com referências que vão do símbolo do movimento Panteras Negras até as superstars do artista plástico Andy Warhol, eles reformulam a tradicional t-shirt com golas, bordas e laços coloridos.
A novidade se espalhou e, em menos de um ano, o casal teve que criar uma revenda através da internet (http://www.jujubapreta. com.br) para atender à procura. Hoje, vendem de 80 a 100 peças por mês e devem aumentar a produção: em dezembro, o representante de uma loja multi-marcas entrou em contato pedindo amostras de suas linhas feminina e masculina para comercializá-las na Suécia.
As multi-marcas são um bom caminho para quem faz moda alternativa e ainda não produz em larga escala. Milena Galli, 27 anos, criou a Bom Costume em 2001 e repassa seu estoque pela Marca Pessoal (Jardins, São Paulo) e O Ovo (Belo Horizonte). Até o ano passado, participava do Mercado Mundo Mix, tocando sozinha o negócio. Para driblar o aperto financeiro, aposta na revenda.
- Estou parada temporariamente, então mando o que não vendi nas feiras para essas lojas. Vou trabalhar contratada por uns tempos para juntar uma grana e produzir de novo.
A grife que alugar a sua mão-de-obra provavelmente não trabalhará com interferências em jeans como as que Milena costuma fazer: entre as suas criações mais vendidas estão as que se transformam em até três peças diferentes, como a calça que vira bermuda e também saia, tudo ligado por zíperes coloridos externos. Idéias mais arrojadas ficam para a próxima coleção, quando retomar a Bom Costume.
- O curso de desenho industrial na PUC me ensinou que não vale a pena criar coisas que todo mundo já fez. Quando faço uma roupa, ela precisa ser algo mais que o comum.
Se um traje diferenciado é importante, há quem prefira investir em complementos para transformar o figurino: formada em moda pela Cândido Mendes, Andréia Bruno abandonou a máquina de costura para inventar acessórios como placas de resina acrílica colorida e correntinhas que acrescentam um toque especial a calças e bolsas sem aplicar nada definitivo ao material. Encerrou as atividades da marca Angel After Dark mas ainda reformula roupas para uso próprio e carrega a logo da grife extinta, um coração com auréola e rabinho diabólico, tatuada no pulso esquerdo. Aos 23 anos, Andréia diz que não deve haver ditadura de faixa etária e biotipo para a moda mais ousada. A originalidade deve ser permanente.
- Não existe um tipo específico de mulher com quem combina melhor. Depende muito da aceitação que a consumidora de si mesma - garante.
Como encontrar
Flores Customizadas (Vanessa Soares & Raquel Flores) - www.flores
customizadas.blogger.com.br / Ateliê: Rua Francisco Muratori, 2/02 Lapa. Tel.: 2242-7368
Bom Costume (Milena Galli) - bom_costume@h
otmail.com/ tel.: 2538-2942
Jujuba Preta (Juliana Fausto & Tiago Teixeira) - http://www.jujubapreta.com.
br/538-2942
Andréia Bruno - andreiabso@hotmail.com