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Samba foi a âncora da MPB

Gênero mostrou vitalidade em lançamentos que recuperaram a pureza do passado e apostaram nas fusões do futuro

Tárik de Souza

Em 2003, o samba consolidou-se num mercado tempestuoso como âncora principal da MPB. Não faltaram reedições preciosas como a caixa Faxineira das canções, capturando Elizeth Cardoso, e a monumental Negra, de 22 discos reunidos em 11 CDs, reproduzindo a fase de implantação da carreira de Elza Soares, entre 1960 e 1978. A comemoração do centenário de Ary Barroso gerou duas coletâneas, o CD duplo Ary Barroso - Ontem e hoje e duas caixas de três CDs, Nossa homenagem 100 anos.

Outras reedições importantes recolocaram em circulação desde o precursor O canto dos escravos, com Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca, até discos do próprio Geraldo Filme, de Adoniran Barbosa e Isaura Garcia. A caixa de quatro CDs Acerto de contas, que revisa a obra de Paulo Vanzolini (o dos megaclássicos Ronda e Volta por cima), com participações de Chico Buarque a Martinho da Vila, ganhou o prêmio de melhor projeto especial da Associação Paulista de Críticos de Arte.

Outro tipo de releitura foi feita nos tributos a Clara Nunes no CD duplo Um ser de luz (reunindo da revelada Teresa Cristina a Elton Medeiros, Walter Alfaiate e Zeca Baleiro) com a mão firme do regente Paulão 7 Cordas e em Ney Matogrosso interpreta Cartola ao vivo. Lançada em CD de estúdio como complemento do livro de fotos Ousar ser, de Luis Fernando Borges, a primeira abordagem de Ney do universo do mangueirense estourou, virou show com temporada e resultou neste ''ao vivo''.

A oferta de estilos e latitudes do gênero neste ano cintilou na estréia aos 92 anos de Vó Maria, viúva de Donga, co-autor do samba inaugural Pelo telefone, de 1917. Seu disco Maxixe não é samba foi pescar temas da antiga Festa da Penha. A baiana Edith do Prato (especialista no acompanhamento primitivo de prato e faca) inaugurou o selo Quitanda, de Maria Bethânia, com seu samba de roda primevo em Vozes da Purificação. Já o lundu fundador de Xisto Bahia, Isto é bom, conduz o fio da meada da elucidativa Uma história do samba, gravado por Monarco para o mercado japonês em 2001 e só agora lançado aqui.

Em mais um disco memorável, associado aos chorões requintados do Trio Madeira Brasil, Guilherme de Brito vasculhou sua preciosa parceria com Nelson Cavaquinho em A flor e o espinho. Outro cruzamento de choro e samba deu-se no belíssimo Nó em Pingo D'Água interpreta Paulinho da Viola. O sempre reservado Paulinho, aliás, foi biografado no filme Meu tempo é hoje, de Izabel Jaguaribe, cuja trilha sonora (onde ele terça vozes com Marisa Monte e Elton Medeiros) também saiu em CD.

Em parcerias com bambas do porte de Wilson Moreira e Aldir Blanc, Moacyr Luz fez um disco carioquíssimo, Samba da cidade, onde a despeito dos sincopados não falta um travo de lamento. Esse é o clima de O lamento do samba, onde o letrista Paulo Cesar Pinheiro queixa-se do desaparecimento da tristeza inerente ao bom samba e exibe seu lado de compositor de melodias. Também à procura do samba triste, o ex- Família Roitman Léo Tomassini estreou num solo refinado, Amor e cordas, recantando de Caetano Veloso a Wilson Moreira e Nei Lopes. O samba também está presente (embora nem sempre majoritário) em outros grandes discos do ano como Estação Leopoldina, do maestro dos sopros Paulo Moura. Ou ainda Malabaristas do sinal vermelho, de João Bosco, em parcerias com o filho Francisco.

O pagode de raiz venceu a queda de braço com sua contrafação pop, como atesta a guinada de Produto nacional, do grupo Só Pra Contrariar. Enquanto o antigo líder dos pagodeiros de butique assumia sua porção pop/latina e debulhava-se numa Garota de Ipanema para George W. Bush ouvir, sua antiga banda desguiava para autores como Noca da Portela e João Nogueira. No mesmo ramal, o grupo Fundo de Quintal mostrou vitalidade melódica e pouca variação temática em Festa para a comunidadee a dupla Arlindo Cruz (Pagode ao vivo) e Sombrinha (Derramando alegria) desfez-se com um (bom) disco para cada solista. Mauro Diniz ergueu sua Apoteose ao samba, e Dorina em Sambas de Almir tirou do limbo Almir Guineto.

Bezerra da Silva revisou o próprio repertório em Meu bom juiz, o mesmo que fez Zeca Pagodinho em Acústico MTV. A diferença é que a abertura de portas da emissora roqueira, junto com o convite para participar do especial natalino de Roberto Carlos, sinalizam que Pagodinho chegou lá. Pulou o muro do samba. É unanimidade nacional. E enfileira discípulos como o afiado Trio Calafrio (Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz, Luiz Grande), em seu disco de estréia, e Dudu Nobre, que no recém gravado CD/DVD engata alianças com o rap de MV Bill e Gabriel O Pensador e a nordestinidade de Lenine.

Aproximações e fusões com outros gêneros não faltaram ao samba, a começar pela irrequieta Elza Soares que em seu mais recente disco, Vivo feliz, traz incandescentes fusões eletrofunkiadas. Pelo lado do mangue beat, o mundo livre s/a, enfia samba rock à Jorge Ben Jor em seu tratado político O outro mundo de Manuela Rosário. Já o rapper Marcelo D2, do Planet Hemp, aproxima-se ainda mais do samba em seu À procura da batida perfeita, eleito o disco do ano pela mesma APCA. O samba se consolida e dissemina seu batuque.


[27/DEZ/2003]


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