- O ano foi bom, de boas parcerias?
- Não, 2003 foi um ano péssimo, ruim para todo mundo. Quando o governo lançou os princípios de seus financiamentos, os caras que estão no poder há 400 anos, que fazem suas reuniões em hotéis de cinco estrelas bebendo uísque, ficaram com medo de dividir a bebida com o MV Bill, comigo, com o Afro Reggae... Quem reclamou é quem sempre ganhou e agora ia perder. Pelo menos isso gerou discussão, espalhando fóruns por todo o país. Veja um exemplo no Rio. O Cesar Maia é um louco, que às vezes faz burrices que dão muito certo. Como a nomeação do Falabella para ser gestor dos teatros. Foi um negócio burro porque foi feito, literalmente, de cima para baixo. Mas que acabou dando certo, porque só assim a classe teatral se mobilizou e criou encontros e debates. Em níveis municipal, estadual e federal vêm acontecendo coisas parecidas. Isso é altamente positivo.
- O governo então está indo bem?
- O Lula não vai conseguir mudar nada do ponto de vista econômico, pois o comprometimento é muito grande e vem de tempos atrás. Mas só o fato de discutir políticas públicas com a sociedade, isso já é um avanço. Ainda há muito o que se fazer. Por exemplo, por que não há circo no currículo da Educação Física nas escolas? Por que esses projetos de capoeira e de dança popular, por exemplo, que estamos cansados de saber que são vitoriosos em matéria de inclusão social e mudança de realidades, pois bem, por que esses projetos não se tornam políticas públicas, oficiais?
- Responda você. Por quê?
- Porque ainda resiste o pensamento de que responsabilidade social é fazer festinha no orfanato, ou distribuir material escolar. A gente está falando de outra parada: de direito, de cidadania. O circo do Anônimo e meu espetáculo de palhaço são exatamente os mesmos na Maré, na Praça 15, no Arpoador ou em Paris. Por que as comunidades pobres só podem ver peça sobre aids, ou sobre dente, ou sobre cárie? Eles têm que ver de perto o trabalho de um diretor espanhol, um atorzão americano, um palhaço francês. Nossos artistas também têm sua parcela de culpa nesta confusão que é o patrocínio cultural hoje em dia. A postura deles é equivocada. Estes atores que a gente vê toda hora na televisão não são artistas, pelo menos no meu ponto de vista. São artísticos: vestem uma roupa artística, fazem uma pose artística, têm uma cara artística. Mas artista para mim é outra coisa. É um trabalhador. Mexer com arte é acaso, podia ser com qualquer outra coisa. Mas o que importa aqui é um conceito que tem que vir antes do de artista: o de trabalhador. Acredito que artista de verdade é o artista social, mesmo que seja um mero palhaço de circo.
- O circo está morrendo?
- Não está. Intelectuais adoram dizer que está, mas não está. O circo vai a qualquer lugar, é poderoso. Vai lá onde o Brasil ainda está no século 19. E aos poucos está mudando suas características. Daqui a 10 anos vamos ter um circo que transformará mesmo a vida das pessoas, com mais chapelão, mais maculelê, mais capoeira...
- E menos o quê?
- Menos elefante, menos leão, menos mulher-barbada. Há cem anos ninguém via elefante todo dia na TV, porque simplesmente não existia TV. E, com transporte precário, as pessoas não saíam de um raio de dez quilômetros a sua volta. Neste contexto, podia muito bem haver um circo que tivesse como grande atração um chinês - que não fazia nada de especial, era apenas assim... um chinês. ''E agora, respeitável público, o chinês!''. Bastava: o público nunca tinha visto um chinês. Agora há TV a cabo, 70 canais, internet. Num futuro próximo, seria bom se o circo também tivesse menos Bozos e menos Ronalds McDonalds. Esta idéia de que o palhaço é coisa de criança é uma invenção americana, festeira, do tipo ''olha que legal, o circo chegou!''. Os palhaços europeus são medonhos, impõem um terror.
- Como é o seu palhaço?
- Moldei meu palhaço quando percebi que o circo é um espetáculo que desafia a lei da gravidade: pessoas voam, se equilibram num fio, jogam coisas para o ar. Mas o palhaço é aquele que cai. É o que erra. É o que perde. E a perda é a coisa mais certa na vida. A gente perde o pai, depois perde a mãe, amores, amigos, cabelo, tudo. O palhaço é assim, já perdeu tudo. E, se ele já perdeu tudo, não tem mais nada a perder. E, se não tem mais nada a perder, pode fazer o que quiser. Eu uso isso como um princípio de vida - no meu discurso e no meu cargo também. Não tenho problema em me apegar ao salário de três contos e meio da prefeitura, ganho mais do que isso como palhaço. Posso então falar mal dos meus patrões. Eles vão rir de mim, mas isso não interessa.
- O que interessa?
- A luta pela justiça social. Ou você acha que o que me move é ficar rico e famoso? Não. Só tenho um objetivo na vida, que é o meu ridículo: é transformar essa coisa toda. É ridículo? É. É por isso que eu sou palhaço.
- Fale do curso de palhaço para executivos.
- As empresas me contratam para fazer uma espécie de terapia com os funcionários de cargos mais altos. Estive, por exemplo, na Reduc, a Refinaria de Caxias, há cerca de um ano. Joguei os caras no fundo do poço. Cheguei lá de cara limpa, com os meus dreadlocks, minha feição de negro, minha roupa colorida. Todos olharam de viés. Minutos depois saí da sala e voltei de fraque e cartola, como um personagem. Era o dono do circo. Falei: ''Estavam discriminando o neguinho, não é?'' Imponho então uma relação de medo e respeito, que depois nos serve para discutir ética e sociedade. Sempre digo: ''Vocês têm uma semana para descobrir que são uns idiotas. Por isso, quando eu chamar alguém de paspalho, será um elogio''. Na época deste curso na Reduc, vivíamos a frase pré-Lula, todo mundo estava apreensivo. Lancei esta: ''Sou um palhaço, mas ganho muuuuito dinheiro, mais do que alguns de vocês aqui. E eu não tenho medo de mudanças na diretoria, nem tenho medo do novo presidente''. Todos sofrem um pouco, alguns custam a entrar no clima, mas no fim parece um Fla-Flu, é festa total.
- Você é um otimista, não?
- Totalmente. Você não vê? Mais do que nunca, pessoas ditas importantes têm sido processadas, presas. A cidade vem se despartindo, para usar o termo do jornalista Zuenir Ventura. Há 20 anos, a garotada da Zona Sul queria tocar rock, os meninos importavam guitarras elétricas. Agora essa galera jovem e bem-criada fala de maracatu, samba de raiz. Eles compram atabaques e tambores. Em vez de partirem para um intercâmbio nos Estados Unidos, preferem passar uma temporada em Pernambuco.
- Colarinhos-brancos na cadeia, jovens de raiz... O Brasil está ficando ao contrário?
- Está, e a idéia é mesmo essa. O mundo do palhaço é o mundo ao contrário. A principal função do palhaço é instalar este mundo ao contrário, instaurar esta outra possibilidade de mundo, baseado sempre nos valores sociais e humanos. As idéias e os valores do palhaço são fundamentais e podem ser usados nas coisas consideradas sérias, nas coisas da política por exemplo. Se o filósofo dissesse a verdade na frente do rei, perderia a cabeça. Mas o palhaço pode dizer a verdade. Ele tem autorização oficial para ser um bobo. Por isso é feliz.
- Qual seria seu maior objetivo hoje?
- Eu gostaria de coordenar o escritório da revolução, um lugar de onde sairiam idéias diagonais e transversais sobre inserção social e cultura. Criar uma bagunça, funcionar como um vírus dentro do sistema. O que um cara como eu está fazendo no poder? Isso já é uma distorção total no negócio. É isso. Já sou um vírus.