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Cortes viram uma obra só


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Cartaz de pornochanchada, vítima costumeira da tesoura

Constituído a partir de fragmentos de filmes subtraídos pelos censores militares, Os cortes da Censura Federal forma um mosaico de cenas inéditas que pela primeira vez vêm a público. Das pornochanchadas sem nenhum rigor estético que pipocavam na década de 70, passando por inocentes produções nacionais sem caráter erótico e culminando nos filmes de teor político, a fita é um curioso documentário sobre um passado não tão distante.

Foram incluídos trailers e até comerciais, todos produzidos entre 1967 e 1983. Entre os fragmentos, a produção de 50 minutos incluiu as justificativas dos censores para a retirada das cenas, logo a seguir da exibição dos trechos cortados.

Havia basicamente quatro conteúdos para justificar a censura das produções: sexo, violência, drogas e política. Mas algumas justificativas para os vetos pareciam ter sido assinadas por um crítico de cinema radical: ''O filme não deve ser exibido por clara má interpretação dos atores'', decide um censor. ''Não disse a que veio'', rosna outro.

Em tempos de apimentadas cenas de sexo em novelas vespertinas, pode parecer ridículo o pudor dos censores. Uma ''a cena deve ser cortada pelo ator estar em visível estado de excitação'', sugere um parecer. ''Exposição de pêlos pubianos devem ser suprimidos'', adverte outro. Além disso, ''trepar e comer são usados com duplo sentido'', observa um terceiro. Chega a ser burlesco imaginar que algumas daquelas cenas pudessem preocupar os censores e significar perigo nacional e merecer a frase: ''Diante do exposto, recomenda a não liberação'', datilografada pelos censores após a exposição das justificativas para a degola fílmica.

Programação: amanhã, às 14 h, debate sobre ''A censura no cinema brasileiro'', com o jornalista Inimá Simões, Milton Ayres (ex-censor federal) e Hernani Heffner (pesquisador de cinema); às 16h, debate ''Produzindo cinema sob censura'', com Carlos Augusto Calil (curador do acervo de Glauber Rocha e de Leon Hirszman); Vladimir Carvalho (cineasta), Lúcia Murat (cineasta) e José Wilker (diretor da Riofilme). Às 18h30, abertura das exposições ''O filme brasileiro em cartaz - o olhar da Censura'', e da vídeo-exposição ''Apesar de você - Um recorte da censura''. Às 19:30h, filme: ''Cortes da Censura Federal''. Dia 26, às 19:30h, ''ABC da greve'', de Leon Hirszman. Informações pelo telefone (21) 3806-6166 e 2252-2766. O Arquivo Nacional fica na Praça da República, 173, Centro.


[24/NOV/2003]


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