Reunidos em vídeo pelo Arquivo Nacional, chegam finalmente ao público trechos dos filmes brasileiros censurados pelo regime militar. Instituição exibe também o documentário 'ABC da greve', que Leon Hirszman foi proibido de finalizar nos anos 70
A tesoura da censura do regime militar, que picotou diversas películas em nome da ''segurança nacional, da moral e dos bons costumes'', é a estrela no filme
Os cortes da Censura Federal, que será exibido amanhã, na abertura da segunda edição do Recine - Mostra de Cinema de Arquivo, no Arquivo Nacional. Os retalhos censurados serão vistos pelo grande público pela primeira vez, costurados em um filme de cerca de 50 minutos. É uma rara oportunidade de assistir às cenas subtraídas, até porque o filme não deve desembocar no circuito comercial por conta dos direitos autorais que teriam de ser pagos a diversos autores. As sessões, gratuitas, acontecem no pátio interno da antiga sede da Casa da Moeda, belo edifício do século 19, erguido na Praça da República.
- A Censura foi perversa não só com o público, mas também com muitos cineastas, que tiveram suas carreiras mutiladas. O que estamos fazendo é devolver ao público o que lhe pertence. É uma obrigação num Estado democrático - anuncia Clóvis Molinari, coordenador de Documentos Audiovisuais e Cartográficos do Arquivo Nacional e idealizador da mostra.
Trancafiadas nos porões da Polícia Federal, em Brasília, as mais de mil latas com fragmentos de filme de 30 segundos a cinco minutos, retirados entre os anos 60 e 80, foram transferidas recentemente para o Arquivo Nacional.
- À medida que abríamos os lotes que iam chegando nos dávamos conta da importância do material que tínhamos em mão - prossegue Clóvis.
As frações cinematográficas contêm os mais diversos assuntos, que permitem traçar um panorama dos tabus morais e das sensibilidades políticas dominantes há poucas décadas.
- Assistindo ao filme, percebemos o quanto nossa sociedade evoluiu de lá para cá. Os cortes políticos eram de um rigor enorme. Já os de caráter moral eram absurdos. Para eles, até mesmo a bengala do Mandrake seria um símbolo fálico - comenta a jornalista e pesquisadora Denise Assis, especialista em história recente do Brasil.
Entre os filmes mais famosos talhados pelos censores estão reunidos em Os cortes da Censura Federal A dama do lotação, de Neville de Almeida, Menino do Rio, de Antonio Calmon, e Quando os deuses adormecem, de José Mojica Marins.
Outra preciosidade da mostra é um filme inacabado e praticamente inédito do diretor Leon Hirszman, filmado na década de 70. O documentário ABC da greve aborda as paralisações trabalhistas lideradas pelo ex-líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. O filme - que será exibido na quarta - foi proibido pelo Conselho Superior de Censura de ser finalizado:
- Nem houve censura nesse caso. O filme simplesmente não pôde ser terminado. Após a morte do Leon, seus amigos se juntaram e fizeram a montagem - lembra Clóvis.
Antes das sessões, haverá debates envolvendo diretores, atores, cineclubistas e produtores, entre eles José Wilker, Luis Carlos Maciel, Lúcia Murat e Vladimir Carvalho. Acompanha a mostra a exposição O filme brasileiro em cartaz - O olhar da Censura, aberta ao público até sexta, que traz cartazes, fotos e alguns pareceres dos censores. Memórias dos chamados anos de chumbo, época de crescimento econômico e arrocho dos direitos individuais.
- Muitos filmes maravilhosos não representaram o Brasil no exterior porque os militares não deram um tal certificado de qualidade para exportação do produto nacional. Eles vetaram, por exemplo, o ótimo O caso dos irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person, de 1968, que tratava de tortura. Chegaram a sugerir a prisão do cineasta José Mojica Marins, uma das vítimas preferenciais da censura - critica Clóvis.
Criador do folclórico Zé do Caixão, Mojica teve um filme inteiramente vetado - o sugestivo Ritual dos sádicos, outro presente em Os cortes da Censura Federal. Mutitos cortes parecem risíveis hoje. O mais curioso deles é um ininteligível veto a Anjo Loiro, de Alfredo Sternhein, filme proibido em cores e liberado em preto e branco.
A partir do ano que vem, quando o golpe militar de 64 completa 40 anos, Os cortes da Censura Federal será exibido em uma mostra itinerante pelas principais capitais do Brasil. Quem quiser ter acesso às fitas pode solicitá-las no próprio Arquivo Nacional.