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Bastidores e entrelinhas


  • As páginas da Caras não têm numeração. A revista também não traz um índice. Estratégias para forçar o leitor a folheá-la na totalidade.

  • A edição que mais vendeu foi a que trazia matéria e fotos sobre a morte do piloto Ayrton Senna, em 1994: 1 milhão de exemplares.

  • Restaurantes, hotéis e pousadas adoram figurar na revista. Não pagam nada. Trata-se de uma troca de interesses. A revista se vale das parcerias com estes estabelecimentos para produzir eventos, como o aniversário de um artista. Em contrapartida, ganha a exclusividade da cobertura.

  • Comenta-se que o investimento em castelo, vila e ilha foi conseqüência de uma constatação dura: a maioria dos artistas brasileiros tem casas confortáveis, sim, mas elas não são mansões cinematográficas, como as das estrelas de Hollywood. Daí a necessidade de fotografá-los em outros lugares, mais nobres e pomposos.

  • Chico Buarque, talvez o maior compositor do país, não é muito chegado a Caras. Um dia foi perseguido por uma equipe da revista. Esquivou-se. ''Por favor, é para a Caras'', insistiu o fotógrafo. ''Só posaria se fosse para a Bundas'', brincou Chico. Bundas, já extinta, foi uma revista criada pelo cartunista Ziraldo, fazendo graça com a concorrente poderosa. Tinha um slogan curioso: ''quem bota a bunda em Caras não põe a cara em Bundas''.

  • Outra de Chico: recentemente, para escrever o romance Budapeste, ele se isolou num novo apartamento, no Alto Leblon. Mas antes foi verificar, de um mirante próximo ao Morro Dois Irmãos, se havia ângulo para alguma foto indiscreta de um fotógrafo da Caras. Não havia, e ele ficou sossegado.

  • A história da revista guarda algumas polêmicas. Logo depois que Carolina Dieckmann perdeu um filho, ainda grávida, saiu na Caras uma foto da atriz, cabisbaixa, tirada de longe. Para o leitor, parecia uma foto arrancada a fórceps. Mas, veja só, a reportagem foi autorizada por Carolina. Também foi controversa a visita da estrela italiana Gina Lolobrigida ao Rio, no carnaval. Caras pediu que ela registrasse a festa, na Sapucaí. Quando as fotos foram publicadas, comentou-se que algumas delas teriam sido feitas por outros fotógrafos.

  • Numa viagem de Tom Jobim a Jerusalém, para desespero do fotógrafo de Caras Sergio Zalis, o maestro se recusava a sair do hotel. O investimento da viagem seria perdido sem algumas fotos do brasileiro nos cartões-postais da cidade. No dia do retorno de Jobim ao Brasil, Zalis - que fala hebraico - conversou com o motorista do maestro. Seria ''muito importante para os judeus do Brasil'' ver uma foto do compositor na cidade velha. Assim, ao invés de ir direto para o aeroporto, o motorista fez um desvio a parou em meio às construções típicas. Jobim desceu, perguntando o que estava fazendo ali. Bastou para garantir os cliques que faltavam.


  • [16/NOV/2003]


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