Raros são os pesquisadores que conseguem chegar até as obras que compõem a coleção da Real Biblioteca, conjunto formado pela Corte portuguesa e trazido ao Brasil como núcleo originário da Biblioteca Nacional, hoje a maior da América Latina e oitava do mundo. Trata-se de tesouros que, como tais, ficam guardados em grandes cofres, distantes do público. Incunábulos dos séculos 14 ao 17, dois volumes da Bíblia da Mogúncia, de 1462, um conjunto de pranchas de Franz Post e gravuras de Rembrandt integram esse rico acervo, que é exposto em conjunto pela primeira vez, a partir de hoje, em sua casa, na Cinelândia.
A exposição reúne 150 obras, das mais raras e belas do acervo. Um conjunto maior de 600 peças foi condensado em O livro dos livros da Real Biblioteca, edição de luxo que será lançada hoje, às 18h30. Longe dos 60 mil itens que chegaram no Brasil em 1811 - três anos após a vinda da família real, que, na afoita fuga esquecera as mais de 300 caixas com suas raridades literárias no porto de Lisboa, apavorados com a iminente invasão de Napoleão Bonaparte -, as peças que compõem hoje a Real Biblioteca reduziram-se praticamente a metade. Devido a mudanças de endereço e a episódios pontuais, como o envio de cerca de 5 mil manuscritos da coleção para Portugal, após a independência brasileira.
Essa nova configuração da Real Biblioteca vem sendo revelada desde 2000. Nesse ano, um projeto financiado pela construtura Odebrecht e capitaneado pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e pelo historiador Paulo Cesar de Azevedo, morto ano passado, deu início à árdua tarefa de ordenar todo o material desse acervo nuclear, disposto em diferentes setores da Biblioteca Nacional.
- Nossa intenção era recompor essa coleção, cujo material estava completamente disperso - conta Lilia, que lançou no ano passado um livro com um primeiro resultado dessa reconstrução histórica, A longa viagem da Biblioteca dos Reis - do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil.
Escrito em co-autoria com Paulo Cesar e Ângela Marques da Costa, esse livro refaz a trajetória da coleção desde o terremoto que sacudiu Portugal em 1755, resultando no incêndio que destruiria a Biblioteca, até a volta dos monarcas patrícios à terrinha.
- A pesquisa histórica, feita também em Lisboa, deixou claro que o Brasil pagou, e pagou muito bem para ficar com esse acervo - avalia Lilia.
O segundo momento da pesquisa contou com uma equipe de mais de 20 profissionais especializados, entre historiadores, latinistas e paleontólogos, que mergulharam no acervo da BN durante mais de um ano.
- Nós nos surpreendemos com o caráter global desse acervo e com sua qualidade - afirma a historiadora Lúcia Garcia, integrante da equipe.
Com as obras catalogadas foram formados 12 grandes álbuns, divididos por coleções como a de iconografia e a de cartografia, para que pudessem ser selecionadas as que seriam incluídas no livro, seguindo critérios como estado de conservação, raridade e beleza.
Algumas foram descartadas de início devido à sua deterioração, como algumas obras do naturalista Conde de Buffon.
- Pedimos ajuda a três consultores, Lygia Fernandes da Cunha, Lorenzo Mammi e Pedro Corrêa do Lago (hoje presidente da Biblioteca Nacional) e solicitamos que cada um fizesse uma lista de obras selecionadas - conta Lilia, que, com a lista final, definiu o formato da edição, que em quase 400 páginas apresenta o best of da Real Biblioteca.
Os livros das horas, manuscritos de oração e devoção iluminados a mão e com detalhes em ouro, que datam do século 14 ao 17, gravuras das principais escolas européias, incluindo nomes como Van Dyck, Rembrandt e Raimondi, mapas de grandes cartógrafos dos séculos 16 e 17, como Gerardus Mercator, o estudo de Gaspar Barléu sobre o Brasil, que tem anexado 55 pranchas de Franz Post, a primeira edição da obra-prima de Camões, Os Lusíadas, importantes livros de botânica e estudos curiosos como o de Giovanni della Porta, de 1650, que identifica semelhanças físicas entre homens e animais. Todas essas obras citadas estão nas páginas de O livro dos livros e também na exposição que, por conta de sua importância, exigiu reforço na segurança do prédio.
Outro importante fruto dessa empreitada histórica é a disponibilização do acervo na internet.
- Assim, a secular Real Biblioteca vai poder finalmente ficar ao alcance de todos - comemora Lilia Schwarcz.