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Sem limites entre sagrado e profano

Mostra 'Arte da África' exibe no CCBB 300 obras representativas da cultura trazida do continente para o Brasil pelos escravos

Cecilia Giannetti

Um continente inteiro refletido em manifestações artísticas que apagam os limites entre sagrado e profano e estendem sua influência ao Brasil. Esta é a proposta da exposição Arte da África e dos eventos paralelos que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abriga, a partir de amanhã, até 4 de janeiro de 2004. O evento é o carro-chefe das comemorações dos 14 anos do CCBB e reúne cerca de 300 obras de arte do acervo do Museu Etnológico de Berlim, além de performances teatrais e vídeos sobre a cultura africana. O conjunto exposto na mostra é mais amplo que o exibido em Berlim: embora o acervo do Museu seja de 75.000 peças africanas, só cerca de 200 costumam ficar em exibição.

- Esta exposição retrata que o saber da arte africana nada tem de primitivo; são trabalhos primorosos, de técnica sofisticada, de muita delicadeza - afirma o historiador e poeta Alberto da Costa e Silva, 72 anos, presidente da Academia Brasileira de Letras e a maior autoridade em África no Brasil.

Embaixador na Nigéria e no Benim, na África Ocidental, entre 1979 e 1983, o africanólogo visitou as salas do CCBB dedicadas à exposição a convite do JB antes da abertura para convidados, que acontece hoje à noite, e para o público.

Dividida em três centros temáticos, a mostra traz as chamadas power figures, ou esculturas figurativas, representando poder político ou de ''espíritos responsáveis pelo equilíbrio do mundo''; máscaras e instrumentos musicais, considerados partes das artes performáticas; e objetos de uso, como pentes de madeira e saleiros de marfim, alguns encomendados por europeus aos artistas africanos por causa da sua beleza - são talhados como verdadeiras obras de arte.

Costa e Silva explica que é possível encontrar nas peças produzidas por um mesmo grupo africano diferentes estilos de arte. É o que se comprova caminhando entre as obras confeccionadas entre os séculos 15 e 20, de 31 países africanos, dispostas no primeiro e no segundo pisos do CCBB.

- Na mesma sociedade, podemos encontrar desde peças extremamente realistas até as representações mais simbólicas. Cada povo da África tinha suas peculiaridades, por isso não se pode dizer que há uma arte única africana - continua.

Curador da mostra, o gerente do departamento da África do museu berlinense Peter Junge aponta semelhanças entre estilos africanos e europeus:

- Há peças mais puras, que lembram a tradição Bauhaus, mais simples. O cubismo, por sua vez, aparece ''antecipado'' em algumas máscaras. Já a máscara Fang [na Sala das Máscaras, onde também são exibidos vídeos de cerimônias em que os objetos são utilizados], lembra um Modigliani.

O artista mineiro naif Geraldo Teles Oliveira (1913-1990) também foi lembrado nas comparações. Diante dos postes (da República de Camarões) que serviam de decoração para moradias de reis, Costa e Silva enxerga semelhança entre as esculturas fantásticas de G.T.O. e as peças que enfeitavam entradas de palácios.

- É incrível o movimento dessas figuras. Parece que estão se mexendo. As esculturas africanas têm uma presença quase física.

Essa presença pode assustar um desavisado que cruzar a sala dedicada às ''figuras responsáveis por alterar o equilíbrio da natureza''. As inquices, conhecidas no Brasil como ''mandingas'', como lembra o embaixador, são representações de formas humanas ou de animais, algumas com compartimentos (algo como os santos do pau oco brasileiros), onde eram depositadas amostras de sangue e cabelos, entre outros, com o objetivo de alterar a vida de uma pessoa ou de um grupo.

Outras representações podem impressionar pela proximidade com o cotidiano da cultura brasileira, além da religião.

- Isso aqui toda mulher sabe o que é assim que bate o olho - diz Costa e Silva, apontando palitos de madeira para prender os cabelos. Entalhados, são bem mais elaborados que os de nossos camelôs. Há ainda sandálias de salto alto do Quênia em prata e madeira, também comuns entre os árabes, braceletes de bronze, anéis e pulseiras.

Marca presença ainda um traço cultural africano - representado em escultura na mostra - que ficou de herança para as mulheres brasileiras: a baiaca. O termo, que no Brasil é sinônimo de mulher gordinha, deriva das mulheres da etnia baiaca da África que, quando chegaram como escravas, tinham em comum o fato de estarem acima do peso.

A sala destinada aos instrumentos de música guarda raridades que se tornaram conhecidas em suas versões brasileiras, como a sanza (popular no interior do Brasil) e um agogô de pelo menos meio metro. Assim como os objetos de design, os instrumentos foram selecionados de acordo com sua forma e serão apresentados em cápsulas de acrílico com caixas de som que emitirão amostras de timbres de cada um, lembrando a presença da música africana tanto nas raízes do samba brasileiro como no jazz e na música pop, assim como nos cultos afro-brasileiros . É a união do sagrado e do profano, como explica Costa e Silva.

- Para esses povos, não existe fronteira entre sagrado e profano. A exposição consegue traduzir isso. É a melhor exposição sobre a África que já vi no Brasil. Vai ser um sucesso de público ainda maior que a das gravuras do Rembrandt [em cartaz de março a maio de 2003 no CCBB] - prevê.


[13/OUT/2003]


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