Depois de anos viajando todas as semanas para o Rio para estudar choro, grupo de músicos da cidade de Cordeiro ganha elogios da família Carrilho, grava disco e participa de novo CD da Biscoito Fino
Parece até fábula a história de um grupo de músicos que viaja todo sábado, quatro horas de ônibus, de Cordeiro, no interior do Rio de Janeiro, até a capital do Estado para estudar choro. O enredo começou há três anos com o flautista e funcionário da Cedae Tadeu Santinho, de 37 anos, que, para economizar o valor da passagem do ônibus intermunicipal direto, pegava quatro conduções para vir e outras quatro para voltar para casa (o que rendia, no fim das contas, uma poupança de R$ 10). De lanche, só o que o orçamento permitia: dois cafezinhos. No último ano, juntaram-se a Tadeu outros oito integrantes - de um total de 50 membros - da sociedade civil a que ele pertence e que tem no nome de batismo outro ingrediente com cara de fábula: a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense. Hoje, os nove músicos, que formaram um grupo de choro, gravam um disco. O nome escolhido para o noneto está à altura da fábula dos rapazes do interior: Os Matutos.
É isso, os músicos da cidade serrana de Cordeiro são matutos, e com muito orgulho. O elogiado trombonista da trupe, por exemplo, Everson Moraes, de 16 anos, e o irmão Aquiles, de 13, que toca trompete e é considerado pelo professor e flautista Álvaro Carrilho ''um gênio da música'', até pouco tempo moravam na Zona Rural de Cordeiro, a 22 quilômetros ''de estrada de chão'' do centro da cidadezinha.
- Lá na roça, só tinha luz e água e olhe lá, e não tinha como estudar, então nos mudamos para a cidade - conta Everson, que incluiu na pesada rotina dos Matutos (ensaios às segundas e sextas com o grupo, às quintas com a banda da cidade e gravação do CD às quartas, além das aulas de sábado) o ensino de música em comunidades carentes às terças.
De casa nova construída pelo pai pedreiro e morando mais perto do trabalho da mãe, servente de escola, os meninos não têm telefone em casa, mas uma maior intimidade com a tecnologia vai se dando pelo caminho da música. Entre um patrocínio e outro, eles alugaram um estúdio para gravar o disco, baseado numa seleção de composições inéditas garimpadas em pesquisas pelas fazendas da região. São maxixes, polcas - como o Jingle do formicida (Viva o formicida Guanabara!), de 1888 - e choros de ''compositores da terra'', como explicam. As gravações já estão em fase final. O CD permanece agora em compasso de espera por um patrocínio que permita os gastos com prensagem, cópias, capas. Mas os Matutos acreditam que o trabalho saia ainda este ano.
Em novembro, será lançado outro CD em que os Matutos tocam: Ao Jacob, seus bandolins (Biscoito Fino), desta vez ao lado de bambas como Altamiro Carrilho, Yamandu Costa, Aldir Blanc e outros nomes consagrados da MPB. O disco, com direção artística de Hermínio Bello de Carvalho, foi gravado em apresentação na Sala Cecília Meireles no dia 9 de dezembro do ano passado, quando os Matutos se apresentaram junto com os outros alunos da oficina de choro que o Instituto Jacob do Bandolim e o Instituto de Cultura Musical do Rio de Janeiro mantêm na Escola de Música da UFRJ - e que deu origem ao projeto Escola Portátil de Música, em parceria com o Sesc.
Assim como aconteceu com a maioria dos músicos de Cordeiro, o primeiro contato, que se deu há quatro anos, de Everson e Aquiles com os instrumentos (no caso deles, doados pela Funarte) foi na Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense, a banda da cidade.
- Foi um tio que falou para a gente lá na roça sobre a banda. Eu não sabia nem o que era, não tinha idéia. Fui conhecer e falei: ''opa, é isso? É isso mesmo que eu quero'' - narra Everson, que, como o irmão, pretende ganhar a vida como músico profissional.
A julgar pelos elogios que costumam receber, talento não falta.
- Os dois são fora de série. Quando o Altamiro [o flautista Altamiro Carrilho, irmão de Álvaro]conheceu o Aquiles, disse: ''esse menino é um gênio. Nunca vi alguém tocar assim''. Ele é mesmo fantástico, tem um ouvido incrível, lê partitura em dó e transporta para mi bemol, um negócio de louco - diz Álvaro Carrilho, que dá aulas de sopro na oficina de choro que os Matutos freqüentam, coordenada por seu filho, o violonista Maurício Carrilho.
Everson e Aquiles surpreenderam Álvaro não só tocando, mas também compondo.
- Compus as duas primeiras partes de Choro da oficina e deixei que eles fizessem a terceira. Na semana seguinte, eles trouxeram pronta. Ficou ótimo.
A exaltação não fica restrita aos irmãos Moraes. Os gêmeos Michael Júlio e Marlon Júlio, de 14 anos, também se revelaram compositores. Os dois fizeram uma música-homenagem digna de fábula: Seu Álvaro em Cordeiro.
- As composições são ótimas, perfeitas. Ficamos impressionados.
Mas a boa impressão causada pelos Matutos não pára em Everson, Aquiles, Michael, Marlon, que, como os outros Matutos, acordam aos sábados às 4h30 da madrugada para embarcar num ônibus cedido pela prefeitura de Cordeiro rumo à Lapa, onde fica a Escola de Música.
- Todos os integrantes do grupo têm o dom musical, o que é um mérito. Mas a maior virtude é a força de vontade. Eles saem de Cordeiro às 5h da manhã aos sábados para estudar. É o entusiasmo e a gana de ser músico. Fiz essa viagem e passei a dar mais valor ainda, é muito cansativo - sublinha Álvaro, que vai ser homenageado com o título de cidadão cordeirense (parece ou não parece um conto?).
O sacrifício não é suficiente para desanimar os Matutos (na sexta-feira, dia 4, por exemplo, véspera do dia de madrugar para vir à aula, eles só chegaram à meia-noite e meia em Cordeiro, depois de uma apresentação em Friburgo).
- Vale a pena - diz Marcos Tadeu, de 15 anos, que toca percussão há dois anos e volta e meia tem que sair às pressas da cama quando o ônibus que traz o grupo passa para pegá-lo.
- É que às vezes o relógio não desperta - explica.
Lucas Oliveira de Souza, de 13 anos - desde os 10 no cavaquinho - concorda.
- Eu sempre fui interessado em cavaquinho, mas meu pai não acreditava. Aí ele me deu um. E agora está muito orgulhoso, orgulhoso demais.
O pai de Lucas, policial, já foi músico. Tocava sax.
Magno Júlio, de 16 anos - desde os 11 na banda de Cordeiro -, irmão dos gêmeos compositores, trocou a dedicação exclusiva ao esporte pela vida que leva hoje.
- Fiquei mais tranqüilo, parei de ficar muito na rua. Antes, era só esporte. Agora, divido o tempo também com a música - conta o menino, que, dizem os amigos, além de bom na percussão, é exímio jogador de basquete.
O nono matuto é o violonista Paulo Newton, de 43 anos, professor de música Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense. Além dos Matutos, outros 18 integrantes da banda da cidade são bolsistas da oficina da Escola de Música. E em rodas de choro aos domingos em Cordeiro e eventos espalhados pela região, a música vai se propagando.
- A gente está fazendo uma revolução na cidade. Estamos salvando todo mundo do pagode - anima-se Santinho, descrevendo o que é para ele o final feliz de uma fábula.