'Batalha do Real' reúne na Lapa MCs que lutam verso a verso por prêmio e glória
Sábado, 27 de setembro. Madrugada. O chão está enlameado, apesar de não ter chovido. De vez em quando um pingo grosso cai do teto: casa cheia, paredes suadas. Os meninos tiram a camisa e exibem os resultados da malhação enfeitados por tatuagens e cordões de prata ou ouro pendurados no peito. As garotas vão de top ou camisetas bem decotadas para enfrentar a temperatura no Balcão da Lapa, um salão de sinuca que fica no número 73 da Rua do Riachuelo.
É lá, que, desde abril, acontece a Batalha do Real, disputa entre MCs em que os versos são improvisados e cuspidos na cara do adversário. Organizada pelos rimadores Marechal e Aori , o local chega a receber 500 pessoas, com dezenas aguardando na calçada para entrar. Nesta noite, final do I Campeonato da Liga de MCs do Rio de Janeiro, há cerca de 350 aqui dentro. Nas primeiras competições, o público não pagava para entrar e o vencedor de cada noite ganhava como prêmio notas de R$1,00 que eram recolhidas entre a platéia (daí o nome do evento). Agora, o melhor improvisador vai levar uma porcentagem sobre os ingressos cobrados na entrada. O palco instalado ao fundo do salão serve de ringue, a cada rodada, para dois MCs armados de rimas para conquistar a platéia, que decide com aplausos e gritos quem é o melhor. No calor da disputa, as ofensas são meras ferramentas de trabalho: os MCs se xingam, desenterram podres do passado, propõem futuros desafios, mas tudo costuma acabar sem mágoas.
- A batalha mais sinistra que eu já vi foi Marechal contra Don Negrone. Os dois se conhecem há anos, tinham muita roupa suja pra lavar. No palco vale tudo. - conta Matias Maximiliano, 23 anos, que há cerca de dois anos reúne material para um documentário sobre o movimento hip hop no Rio de Janeiro. - Esses caras estão ficando grandes, fazendo show por aí. São os melhores do underground. - avalia.
Max B. O., do coletivo paulista Academia Brasileira de Rimas, é o mestre-de-cerimônias convidado a apresentar a finalíssima. Considerado um dos melhores improvisadores de rap do Brasil, sucede na função Jovem Cerebral e Xis, que comandaram as etapas nos fins-de-semana anteriores.
-- São Paulo não tem Liga de MCs! É só aqui! - Max grita ao microfone e a platéia urra de volta. Não se trata de alimentar picuinhas bairristas. Ele explica: se o rap paulista tem mais CDs lançados que o carioca, os rappers cariocas estão menos dispersos por conta dessa iniciativa.
Antes de surgir a Liga dos MCs cariocas, quem gostava de rap no Rio se cruzava na festa Zoeira, pioneira do gênero na Lapa, ou na Freestyle, da Fundição Progresso, organizada pelo coletivo Brutal Crew. O fim de uma e a periodicidade incerta da outra esfriaram o público por um bom tempo, até o surgimento da Batalha do Real. Com dia e lugar certo para conferir os MCs em ação, os fãs de hip hop ganharam um novo ponto de encontro. O sucesso do evento exigiu mais profissionalismo na produção e Brutal Crew, acabou assumindo a organização das batalhas.
- Somos um crew de hip hop: lidamos com a cultura hip hop, produzimos eventos de hip hop, além de músicas e roupas da nossa própria grife - explica César Schwenck, 22 anos, um dos oito integrantes do coletivo que inclui MCs (entre eles Aori), DJs, designers e produtores. O Brutal Crew existe desde 1998 e fincou seu Q.G., o estúdio conhecido como Campo de Concentração, na Lapa.
- Brutal! Só sinistro! Brutal! Brutal! Só sinistro! - Max B. O. arranca da platéia o grito de guerra, já registrado em CD produzido pelo coletivo. É o sinal de que o intervalo pro público dançar ao som do DJ e produtor Cristiano Rafael, terminou. Mais dois rivais sobem ao palco e começam a disputa. Na finalíssima, concorrem os MCs Papo Reto e Slow. Marechal, campeão invicto até esta noite, não aparece para defender seu posto; viajou para fazer um show em Recife, onde já chegou sua fama de rimador. Papo Reto leva o prêmio - R$ 200, uma camiseta da Brutal Crew, mais um DVD e um CD cedidos pela Universal Music.
- É importante ter um lugar onde as pessoas se concentram pra trocar uma idéia e ver quem são os bons MCs. - explica Verônica Nascimento, 22 anos, uma das produtoras. - Com a Batalha, vieram pra Lapa MCs que a gente não conhecia, gente de Ipanema, da Baixada, de Jacarepaguá, de Santa Cruz.
E até de Angola: em uma das primeiras edições da Batalha, um MC angolano acusou os organizadores e o público de xenofobia por sua desclassificação. A crítica não foi levada a sério, uma vez que o MC garantia-se mais em ''Yós!'' sucessivos que nas rimas.