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Filme começa pelo fim


Mas por que tanta violência no filme, com sua história barra-pesada e sua câmera agressiva? Por que fazer da violência algo tão ostensivo?

- As pessoas notam a violência no filme porque não há cortes, porque elas podem testemunhar a violência como se fosse real. É o tempo alterado, como disse.

O objetivo de Noé era mostrar ''um casal pequeno-burguês que conhece como o inferno pode ser''. Por isso, o filme é narrado em flash-back, caminhando do final gritante para um início tranqüilo, filmado de maneira clássica. Essa parece ser a receita para um enorme anticlímax. Mas o filme preenche a memória:

- O final, que na verdade é o começo, é totalmente pequeno-burguês. Mas se torna um paraíso, porque você já sabe como o inferno pode ser. Se eu contasse a história na ordem direta, não seria possível sentir totalmente aquela situação - explica ele.

Gaspar Noé desloca a conversa sobre a violência em seu cinema com um comentário sobre o Brasil e sobre como o cinema brasileiro incorporou a violência:

- O Brasil é um país bem mais violento que a França.

Ele conhece o país desde a juventude. Seu pai era um grande amigo do poeta Thiago de Melo, o que fez de Noé um habitué da Floresta Amazônica na adolescência. O cinema brasileiro, entretanto, ele conhece à distância. Mas ele tem razão: violência é um assunto de que o cinema brasileiro entende bem e pelo qual ficou mais conhecido ainda nos últimos tempos no exterior, graças à repercussão de Cidade de Deus na Europa e nos Estados Unidos. Por isso mesmo, surpreende o final da observação do diretor sobre a violência no cinema brasileiro:

- O filme brasileiro mais violento que já vi foi o curta-metragem Ilha das Flores [do gaúcho Jorge Furtado, sobre catadores de lixo]. Quando me mostraram o filme na França, fiquei chocado. É um filme impressionante. E ele provocou aqui um efeito bastante semelhante ao do meu. As pessoas também acharam irônico demais. A verdade é que os pequenos-burgueses não aceitam que as pessoas riam das desgraças da vida. Não admitem que os pobres riam da vida.(AW)


[24/SET/2003]


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