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Um 'close' na violência

Diretor do polêmico 'Irreversível', o diretor franco-argentino Gaspar Noé, considera 'Ilha das Flores' o filme mais violento que já viu

Alexandre Werneck

Divulgação

Gaspar Noé

Não se pode dizer que Gaspar Noé seja um homem sutil. Afinal, a abertura de seu filme Irreversível (Irréversible, França, 2002), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e Porto Alegre e chega por aqui depois do Festival do Rio, mostra Marcus e Pierre (vividos pelos atores Vincent Cassel e Albert Dupontel) esmagando a cabeça de um estuprador com um extintor de incêndio. Diante da câmera. Sem corte. Sem piedade. Mais adiante, segue-se a já notória seqüência do estupro de Alex, personagem da deusa Monica Belucci (apesar das más línguas, casada com Cassel na vida real), que dura nove ininterruptos e eternos minutos e é filmada com a câmera parada, colocada no nível do solo, e em que se vê, inclusive, o pênis do estuprador penetrar na atriz.

Por isso mesmo, impressiona muito o jeitão 'blasé' do diretor argentino de 39 anos ao telefone, ao falar de sua casa, em Paris, onde vive desde os 13 anos. Para Gaspar Noé, o mundo é muito simples.

- O assunto do filme não é estupro ou violência. O assunto do filme é o tempo. O personagem principal do filme é o tempo em desconstrução. O estupro ou a execução são apenas eventos para mostrar o tempo alterado, que servem para o tempo ficar mais dramático - explica.

Noé reage sempre de maneira lacônica a tudo que se diga. Chamado de anticristo quando o filme foi exibido no Festival de Cannes e no Festival do Rio BR no ano passado, ele nem liga. Para ele, é absurdo ter recebido o impropério de fascista pelo alto teor de violência do filme. Em 2002, chegou a ser acusado de ser um militante pró Jean-Marie Le Pen (o candidato direitista à presidência da França).

- As pessoas não admitem que se trate a violência de uma forma violenta. Logo consideram você um extremista e chamam você de fascista. O que digo a eles é que simplesmente odeio os diretores que mostram as coisas assumindo um posicionamento moral, preconceituosamente - rebate o diretor, no tom casual de quem oferece um café.

Mas direita ou esquerda, não há como não reagir ao filme de Noé, mesmo que a sua fotografia em 16mm, feita pelo próprio Noé, pareça querer se perder do que mostra. Em algumas cenas, nem se consigue ver bem o que está na tela.

- A maneira como a câmera foi feita é emocional. Eu estava sempre ligado emocionalmente aos personagens. Nas cenas em que estão consumindo cocaína e bebida na festa, os personagens estão quimicamente alterados, então a câmera também assume este comportamento. É para mostrar sua percepção do inferno e da realidade - explica.

O diretor tem sido acusado de maneirista e sensacionalista. Mas é, na verdade, um ilusionista. O esmagamento de crânio, o pênis da cena do estupro e as escoriações da personagem de Monica foram inseridos digitalmente. Mesmo assim, houve quem sugerisse que o filme mostra um estupro real.

- Isso é um completo absurdo. Por favor, era Monica Belucci ali. É uma atriz famosa demais para as pessoas acharem que aquilo era real - reage.

As presenças de Monica e Cassel no filme, aliás, são mais causa do que conseqüência de sua proposta alucinada. O casal mais famoso do cinema francês queria fazer um filme com Noé e prometeu aceitar a primeira loucura que ele imaginasse. Na verdade, não aceitaram a primeira, que era fazer um filme pornográfico.

- Então eu disse a eles: ''Por que não fazemos um filme sobre um estupro e uma vingança e o narramos de trás para a frente?'' Eles disseram: ''Claro!'' - simplifica.

Foi uma cumplicidade imprescindível. Sem a presença dos dois, Noé teria dificuldades em levantar recursos para o filme. Sem a entrega de Monica, a cena do estupro seria impossível.

- Ela literalmente dirigiu aquela cena - diz o diretor. Não se trata de jogo de retórica. O roteiro de Irreversível tem apenas três páginas de descrições gerais. Quase todos os diálogos, as ações e reações foram improvisados.


[24/SET/2003]


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